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A idade da experiência e da razão - R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 15/03/2018

A idade da experiência e da razão
R. Santana

Eu não sou daqueles que diz que não gosta de novela, que não perde tempo em frente ao televisor assistindo programas populares, que são informações fúteis, subprodutos culturais, informações não sistematizadas, opiniões pessoais que pouco acrescentam ao conhecimento formal, sistematizado. Acho puro preconceito e intelectualismo. A aprendizagem, segundo Piaget, ocorre quando o objeto do conhecimento tem significado para alguém, se um sujeito do outro lado da tela do televisor fala alguma coisa que interessa e desperta a curiosidade do telespectador, a experiência virtual passa ser real. Se o saber de A não interessa pra B, neste caso, a experiência da A é inútil pra B, aí a informação é fútil, sem significado, inútil, sem aprendizagem, porém, não se pode subestimar o saber de A, pois sua experiência pessoal tem para si significação.

            Um desses dias, assistindo ao programa “Encontro”, Rede Globo, da apresentadora Fátima Bernardes, ela solicitou aos seus convidados e aos populares do outro lado da telinha que escrevessem numa tabuleta ou, eles falassem sua verdadeira idade, isto é, a idade do corpo ou a idade da alma. A maioria disse que sua idade física não correspondia à sua idade mental, portanto, cada convidado deu sua idade diferente daquela do registro de nascimento.  Decerto, é um mecanismo psicológico de racionalização: “... tenho “x” anos, mas com aparência e vigor de...”, pura sublimação, a nossa idade não é aquela que aparentamos ou achamos, mas o somatório dos anos que consumiram o corpo e a mente.

            A morte e a velhice são estados da vida de nossa pequenez, quem não morre moço, velho não escapa.  Já pensou, leitor, se o homem não morresse ou envelhecesse? O mundo seria imundo! O tempo e o fim são cutelos de Deus, tudo será destruído pela ação do tempo, nada é para sempre, infinito é Deus. Porém, a morte não é má, é a renovação da vida, pois para renascer tem que morrer. O fenômeno do renascimento dá-se com a morte do ser vivo.  

            Superestimar a velhice é romantismo. É humilhante a sobrevida de um corpo carcomido pela doença e pelo tempo. O significado da vida do ser humano é a saúde, ninguém é feliz na dor. A juventude é o crepúsculo matutino da vida, enquanto a velhice é o crepúsculo vespertino da vida, a ausência de luz e, não se é feliz quando a luz, os sonhos e as esperanças vão sumindo...

            Achar a velhice “a melhor idade” é suavizar a decadência física, intelectual, às vezes, moral, é desencargo de consciência coletiva.  O idoso, além de enfrentar no dia a dia os males da idade, enfrenta problemas de acessibilidade, financeiros, rejeição social e falta de afetividade dos parentes e da família. Os filhos, os netos, os genros e as noras se preocupam com seu idoso, quando esse idoso é independente econômica e financeiramente, grosso modo, para usufruírem de benesses. Claro, não é regra geral, há exceção, todavia, são raras as exceções.
Há uma lenda russa, do início do Século XX, que quando o pai ficava velho, o filho lhe dava uma manta para lhe proteger do frio e o expulsava de casa para que morresse longe de seus olhos. Um neto que amava muito o avô, incumbido pelo pai dessa amarga tarefa, cortou a manta em duas partes, questionado pelo pai, respondeu-lhe que a metade da manta seria guardada para quando ele tivesse velho quanto seu avô. Hoje, os filhos não usam a manta, mas colocam o pai num quarto nos fundos de sua casa e o esquecem lá, então, quando possuem recursos, eles colocam o pai num abrigo e as visitas vão se espaçando à medida que o tempo passa. 
Caro leitor, não se engane com a propaganda enganosa da mídia que nos países desenvolvidos e culturalmente históricos, o cuidado com o idoso é melhor que o nosso país tupiniquim, não é verdade, as mazelas familiares, os preconceitos sociais, as exclusões, os descasos das políticas públicas, são iguaizinhos aqui, talvez, a diferença é que, lá, as leis funcionam pra brancos, negros, ricos, pobres, princesas e prostitutas.
Enfim, o idoso é a idade da experiência e da razão, agora, dizer que é a melhor idade... merda!..




Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons



          



            


1 Responses to A idade da experiência e da razão - R. Santana

  1. Thiego Bento Says:
  2. Muito bom, o texto

     

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