Saber-Literário

Diário Literário Online

Zé Pequeno - R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 17/08/2017

Google
Zé Pequeno
R. Santana

           
- Teja prezo!
            - Num Tejo - acrescentou:
            - Dunde vem filhoti de anum?
            - Sô artoridade da poliça!
            - Disde qoando  nigro é artoridade?!
            - Cê num tá mi respêtando seo Virbo!
            - Um neguin di seo tamanho, dô de xicote...
           
Verbo tinha flagrado sua mulher com outro na cama no “sapeca iaiá”, matou a mulher  a tiro de espingarda de caça de veado campeiro e, decepou o pescoço do indivíduo com afiado biscol de podar os cacaueiros e cabrocar as capoeiras. O crime foi brutal, comoveu os habitantes do “Fuminho” e os habitantes da cidade itabunense, não porque ambos não merecessem morrer (era o costume da época, pagar com a morte, a infidelidade conjugal), mas pela forma como eles foram executados: nus e indefesos.
As más línguas juravam de pés juntos e mãos em oração que Verbo era galhudo fazia muito tempo por um rapaz que poderia ser filho seu ou de Clô, porque o sedutor tinha pouco mais de 18 anos de idade.  A vizinhança cochichava sobre a sem-vergonhice de sua mulher, mas ninguém tinha coragem de dizer nada ao marido, primeiro, pela imprevisibilidade de sua reação; segundo, pela fama de valentão que Verbo tinha em toda zona do cacau. Soube-se depois que ele tinha recebido uma carta anônima e simulou, naquele dia fatídico, uma pescaria, voltou do caminho e os flagrou na descaração!...  
O “Fuminho” não era um vilarejo, tampouco um bairro, mas um pequeno aglomerado de casebres dentro das roças de cacau sem ruas, mas de caminhos abertos pela enxada e definidos pelos pés dos moradores.  Conta-se que o apelido do lugarejo surgiu com o roubo de umas bolas de fumo do outro lado do rio Cachoeira, na cidade itabunense e, os ladrões perseguidos pela polícia atravessaram o rio e se esconderam do lado de cá, no lugarejo, apelidado depois de “Fuminho”, hoje, São Caetano.
Verbo era um cariboca com quase 2 m de altura, de forte compleição física, temperamento irascível, com pouco mais 40 anos de idade. Clô tinha a mesma faixa etária, morena sensual, longilínea, lábios grossos, mãos compridas e pernas torneadas e porte de rainha, um desperdício de mulher dentro das roças de cacau. Eles eram casados há 20 anos e ambos frustrados por falta de filho. Este, talvez, foi o motivo do adultério de Clô.

Naquele início de semana, o delegado de calça curta, Célio Marques, chamou seu inspetor ajuramentado para uma conversa a sós:
- Compadre Zé, eu tenho uma missão pra você!
- Sô toudo ovido cumpadre...
- Você Sabe que nesta delegacia, eu tenho dois meganhas, mas nenhum com sua inteligência e coragem... – passou “sabão” e continuou:
- Quero que vá buscar o homem que matou a mulher e o amante lá no “Fuminho”!
- O tá do Virbo?
- Sim!
- Suzinho cumpadre?
- Frouxaste, homem!? – não esperou a resposta:
- Chame o soldado Barbosa!
- Vô pricisar de 2 cavalus!
- Vá pela ponte dos velhacos na Abissínia, logo depois, na estrada de Macuco encontrará a Fazenda Santa Fé de compadre Tertuliano, peça-lhe emprestado em meu nome...

Zé Pequeno e Barbosa chegaram ao “Fuminho” pouco antes das 18 horas, naquele ermo de mata fechada estava tudo escuro. Barbosa e Zé Pequeno pernoitaram na casa de um conhecido. Na alvorada do dia, eles foram atrás de Verbo com auxílio de um guia que tremia como vara verde e, distante uns 30 m da casa do assassino, ele lhes deixou à própria sorte e “pernas que te quero” de volta pra casa.
Zé Pequeno, filho de Xangô e Iansã, protegido por todos os orixás, desconfiado e escorregadio, não tocaiou Verbo pela frente de sua casa, o esperou no caminho do córrego que era costume ele se banhar ao Sol nascer, de acordo o guia que lhes levou, o córrego não ficava muito longe da casa do valentão. 
Não demorou muito, um pouco mais de um  quarto de hora, apareceu Verbo no caminho com uma saboneteira na mão e uma toalha no ombro, quando foi confrontado  por Zé Pequeno e o Soldado Barbosa:

(...) - Um neguin di seo tamanho, dô de xicote!
- Espremente!
Verbo deixou cair a toalha e a saboneteira e enviou-lhe uma tapona, mas o inspetor juramentado desviou o rosto e o tapa pegou de cheio no soldado Barbosa que caiu rolando pelo chão, ao mesmo tempo, Zé Pequeno deu três mariscombonas pra trás e três pra frente e  num chute atingiu a caixa de peitos de Verbo que se desmoronou,  mas ligeiro como um gato, levantou-se e partiu pra cima do adversário de cabeça (Zé Pequeno esquivou-se da cabeçada em um giro de 360º), em vão, bateu as fuças no chão, rolou, levantou-se e encontrou o soldado Barbosa de frente, empunhando um revólver, que lhe deu ordem de prisão:
- Teja prezo!!!
- Num tejo! – com a velocidade e um raio, deu uma cambalhota no ar e golpeou o adversário com os calcanhares, jogando longe o revólver.
- Dexe cumigo sordado!!!
Zé Pequeno deu uma rasteira em Verbo, já cansado, ele caiu como uma jaca, estatelado, o negro não lhe deu chance, num voo de morcego, deu-lhe uma tesoura, imobilizando-o por definitivo e gritou:
- Sordado traiz uma curda!!!
Às 10 horas daquele dia, para assombro e vivas dos moradores, passava pela “rua” principal do lugarejo, preso, amarrado e escanchado no cavalo, o tal Verbo, criminoso desalmado de sua mulher e de seu amante.
Ali, naquele confim de mundo, começou a Lei Maria da Penha!...




Autoria: Rilvan Batista de Santana
Licença: Creative Commons
Itabuna, 10.08.2017



1 Responses to Zé Pequeno - R. Santana

  1. Mas no princípio era o "Verbo", caro Rilvan... (Quero dizer: Gostei)

     

Postar um comentário

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Patrono

Patrono

Google Visualizações

Google Tradutor

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Todos os nossos textos, abaixo, estão licenciados no Creatve Commons.
Tecnologia do Blogger.