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Os anos de aprendizado - Jorge Amado

Postado por Rilvan Batista de Santana 09/08/2017

Os anos de aprendizado - Jorge Amado


Eu vinha de uma infância nas terras bravias do cacau, assistira ao drama da conquista da selva, ouvira a voz dos advogados nos júris dos coronéis de toda audácia, ainda infante fora banhado pelo sangue de meu pai ferido numa tocaia. Traduzia dentro de mim os ecos da grande epopeia e também os lamentos lancinantes dos trabalhadores curvados nas rocas, numa vida de bestas de carga.

Os anos de adolescência na liberdade das ruas da cidade do Salvador da Bahia, misturado ao povo do cais, dos mercados e feiras, nas rodas de capoeira e nas festas dos candomblés e no átrio das igrejas centenárias, foram minha melhor universidade, deram-me o pão da poesia, que vem do conhecimento das dores e das alegrias de nossa gente. Ao rememorar esse tempo, posso medir e pesar a infinita compreensão, a paciência do coronel João Amado de Faria, conquistador de terra e plantador de cacau, e de dona Eulália Leal Amado, sua esposa, que muitas vezes dormiu com a repetição ao lado do leito como ainda hoje ama contar. Como todos aqueles rudes desbravadores, eles desejavam ver o filho feito doutor, advogado, médico ou engenheiro. E o filho desprezava os manuais de estudo para atirar-se à vida, procurar a redação dos jornais, escrever inconsequências em pequenas revistas de limitada duração. Souberam eles compreender e confiar e, se alguma coisa realizei de perdurável a eles devo, à sua constante e comovente solidariedade.

A eles e ao povo de meu Estado. Com o povo aprendi tudo quanto sei, dele me alimentei e, se meus são os defeitos da obra realizada, do povo são as qualidades porventura nela existentes. Porque, se uma qualidade possui, foi a de me acercar do povo, de misturar-me com ele, viver sua vida, integrar-me em sua realidade. Seja no mundo heroico e dramático do cacau, seja no oleoso mistério negro da cidade de  Salvador da Bahia.

Penso, assim , poder afirmar que chego à vossa ilustre companhia pela mão do povo, pela fidelidade conservada aos seus problemas, pela lealdade com que procurei servi-lo tentando fazer de minha obra arma de sua batalha contra a opressão e pela liberdade, contra a miséria e subdesenvolvimento e pelo progresso e pela fartura, contra a tristeza e o pessimismo, pela alegria e confiança no futuro. Segundo a lição da literatura baiana, fiz de minha vida e de minha obra uma coisa única, unidade do homem e do escritor, aprendida na estrela maior do céu baiano, o poeta Castro Alves, estrela matutina da liberdade, estrela vespertina dos ais de amor.

Fontes: ABL
TRECHO DO DISCURSO DE POSSE NA ABL - Jorge Amado


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