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Ilhéus, 1925 – a moralista)

Postado por Rilvan Batista de Santana 09/08/2017

Ilhéus, 1925 – a moralista

De férias em Ilhéus Eurico e Emílio, filhos de dona Julieta, e eu, filho de dona Eulália – Emílio festejara treze anos, Eurico e eu ainda não – enchemo-nos de coragem, adentramos o puteiro de Antonia Machadão (em Gabriela mudei-lhe o prenome para Maria), o mais renomado da zona cacaueira. Além de nacionais vindas da Bahia, de Aracaju, do Rio, nele exerciam uma francesa e uma polaca, profissionais civilizadas, as gringas faziam de um tudo.


Jorge Amado
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            Alvoroça-se o mulherio  ao ver os filhos-de-família, infantes decerto cabaçudos, somos cercados, abraçados, beijados, riem, debocham, oferecem-se para a festa do desvirginamento. Emílio tenta bancar o veterano Eurico emudece, encabulado, a polaca senta-se em meu colo. A algazarra traz Antonia Machadão à sala, foi o dia do juízo final.

            Conhecida e estimada por todos na cidade apesar do comércio que explorava com proveito, Antônia tivera duas filhas de xodós diferentes, adotadas uma e outra por famílias ilheenses, dava-se com as senhoras da sociedade, as esposas dos fregueses do castelo, nenhuma lhe negava o cumprimento. Com minha mãe batia longos papos quando habitávamos na Rua do Unhão, não longe da pensão alegre. Ao lado de Lalu, sentadas as duas no batente da porta, comentavam a chuva e o bom tempo, a previsão da safra e o preço do cacau. Na região Grapiúna onde ainda se morria e se matava pela posse da terra, as distinções sociais não ditavam os costumes.

            Ao nos ver nos braços das raparigas, em vias de escolher parceira, ir para a vida na cama, Antônia Machadão virou fera.

            - Fora, fora daqui, seus moleques descarados, fora agora mesmo que haveriam de dizer dona Julieta e dona Eulália se soubessem que permiti que seus meninos frequentem casa de mulher-dama. Fora daqui!

            Expulsos, humilhados, o galanteio das putas se transforma em vaia, saímos rua a fora rabo entre as pernas: Antônia Machadão, caftina, zelava pela moral na cidade de Ilhéus.

Fonte:
NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM

Jorge Amado

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