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A história da mulher de seu Vieira

Postado por Rilvan Batista de Santana 11/08/2017

A história da mulher de seu Vieira



            Aproveito para contar a história de mulher do senhor Vieira, tal como se deu, tintim por tintim, circulam versões desencontradas, cada qual conta o conto à sua maneira, a maioria ouviu o galo cocoricar, mas não sabe da música a metade.

            Estávamos Calasans Neto e Auta Rosa, Zélia e eu em Casablanca, hospedados em um dos melhores hotéis da cidade,  Auta descobriu uma barata no quarto, comunicou a Zélia, o hotel foi para a lista negra. Como viajaríamos naquele mesmo dia para Marrakech, decidimos visitar o outro melhor hotel, no lado oposto da praça, bisbilhotar conforto e limpeza, nele reservar acomodações para nossa volta, uma semana após, se valesse a pena.

            Na portaria buscávamos informações sobre os quartos quando um senhor ainda jovem, bem-posto, ar esportivo, que me fitava curioso, perguntou-me se era brasileiro, escritor e se meu nome era. Efusão patriótica, troca de gentilezas, o compatriota ao saber ao que vínhamos elogiou o hotel, limpíssimo, nem sombra de baratas, propôs mostrar-nos seu apartamento para que julgássemos. Tentei recusar, quem disse, dona Rosa e dona Zélia queriam comprovar as vantagens, aceitaram, impuseram, acompanhamos o senhor Vieira – Vieira de Santa Catarina, se apresentara – ao oitavo andar. Tomou a frente, bateu à porta, foi aberta por uma criança de seus cinco anos. Onde vai a corda vai a caçamba, disse o anfitrião, não sei por que a declaração me fez imaginá-lo viúvo a correr coxia com a filha órfã. Entramos às apalpadelas pelo corredor ao lado da casa de banho, o apartamento mergulhado na mais negra escuridão. Vieira adiantou-se quarto adentro direto para o janelão, eu atrás dele, os demais atrás de mim. Num repelão Vieira abre as cortinas, a luz matinal de Casablanca invade a habitação, ouve-se um grito de mulher: Vieira, o que é isso? É Jorge Amado, minha filha, explica o bom leitor no auge do contentamento, aponta-me com o dedo, em seguida me informa: essa aí é minha esposa. Olho e vejo essa aí estendida nua em pelo na cama de casal, êxtase, visão, como direi? Não direi nada, nada disse, apenas arregalei os olhos, essa aí ergueu o busto, a luz banhou-lhe os seios, aleluia! Dona de casa civilizada convidou-me a sentar na cama, convite que não estendeu aos demais, certamente por não lhe terem sido apresentados: o marido pronunciara apenas o meu nome.

            Sentei-me por um instante fugidio, pois Zélia já dava por visto e aprovado o apartamento, agradecia e se mandava, arrastando-nos na pressa de sair, ainda hoje não entendo o motivo de tanto açodamento: Vieira acompanhou-nos à porta, a criança pela mão, dissemos muito obrigado, despedimo-nos. A caminho do elevador comentei com Calasans, as senhoras iam à frente:

            - Lavaste os olhos, hein, Calá?

            - Lavei os olhos, como?

            - Ora, como! Com a nudez da mulher de seu Vieira.

            - Nudez? Que me contas, que história é essa?

            Ora, pois, após cruzar a porta, aturdido pela escuridão, Calasans Neto deixara-se ficar no corredor do apartamento, não chegara a entrar no quarto e eu não me dera conta. Ao saber do acontecido acometeu-lhe ataque de loucura, queria a pulso retornar com o pretexto de ter esquecido o boné, quem sabe a esposa do Vieira continuava nua como eu vira.

            - Teu boné está em tua cabeça, Calá. Dormiste no ponto, agora é tarde.

            Partimos para Marrakech, lá estivemos durante uma semana. Constatei quem nem as maravilhas da cidade, nem a Medina, nem sequer o top-less das suecas à beira da piscina no oásis, nada conseguia retirar a cabeça de Calá da mulher de seu Vieira que ele, ai, não vira nua por preguiça.

            Voltamos a Casablanca, fomos nos hospedar no hotel sem baratas onde havíamos reservado cômodos. Na recepção, antes mesmo de entregar o passaporte, Calá quis saber de seu Vieira.

            - Vieira? O senhor se refere ao brasileiro da mulher bonita? – com as mãos o funcionério traçava-lhe as formas do corpo: - Quelle femme, cher Monsieur! – estalou a língua, som concupiscente, informou: - Viajou ontem para o Rio de Janeiro.

            Aí fica a história verdadeira. O mais que contam, o artista armado de binóculo, trepado numa palmeira para brechar o quarto do casal Vieira, e outras estripulias, não passam de invenções a engrossar o folclore do mestre Calá, Rei de Itapuã, Imperador do Abaeté.

Fonte:
NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM

Jorge Amado

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