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Os gringos - Jorge Amado

Postado por Rilvan Batista de Santana 30/07/2017

Os gringos - Jorge Amado

            Transcorreram semanas sem incidentes maiores à exceção do tiroteio no Caga-Fumo, no qual morreram  duas mulheres e três homens, briga ordinária de jagunços em casa de putas, e do assassinato do doutor Felício de Carvalho, advogado das partes contrárias ao coronel  Amílcar Teles no caxixe da Pedra Branca, ajuste de antigas contas: balanço medíocre para uma temporada de mês e meio – estaria a animação de Itabuna entrando em decadência? Então, num daqueles  fins de tarde de gamão cantado, durante os quais Raduan Murad permanecia solitário no bar a degustar o último cálice de araque de anis, falsificado pela família Mohana, delicioso, superior ao importado. Adib aproximou-se:
          
            - Dá licença, professor? O senhor se lembra daquela conversa do outro dia?

            - Conversa? Qual? – Raduan fez-se de inocente.

            - Sobre casamento e etecétara e tal. O professor disse...

            -  Já me lembro.
            - Sou órfão de pai e mãe, o senhor sabe. Queria que o professor falasse com  seu Ibrahim como se fosse meu pai. Quero casar com a filha dele.

            - Quer casar com Adma? – Conteve-se para não demonstrar espanto; atônito,  guardou silêncio durante um momento e encarou Adib com evidente admiração:

            - E Adma, está a par de suas intenções?

            - A gente está namorando vai pra dois meses.

            - Namorando? Como? Ela em cima, na janela,  você na rua, embaixo? Por meio de bilhetinhos?

            - Bilhetinhos, professor? Comigo não! É mesmo no quintal. Quando saio daqui, às dez da noite, ela está me esperando, deixa a porta aberta. – Estalou a língua em obsceno ruído de satisfação, idêntico ao que emitira meses atrás recordando Procópia, a do juiz do cível.

            - Quer dizer...

            - Isso que o senhor está pensando, professor. O senhor sabe como é: a gente começa brincando, pega aqui, bole ali, quando se dá conta já é tarde, já chamou às ordens.

            Espantoso indivíduo! Querendo talvez esclarecê-lo, terminada por deixar Raduan envolto em treva e confusão quando garantiu:

            - O senhor pode até não acreditar, mas ela é supimpa, professor.

            Sorriu contente e bem disposto; Raduan Murad estava fascinado.

                        - Diga a seu Ibrahim que deixe o armarinho por minha conta. Nas minhas mãos vai virar um bazar de primeiríssima.

            De quem Raduan ouvira afirmativa exatamente igual?

            - Vou me ocupar do assunto – disse, aceitando a prebenda; concedendo-lhe a merecida importância acrescentou:  - O pedido há de ter  festa e discurso, não é todos os dias que acontece um noivado tão... – buscou o adjetivo -... Tão auspicioso.

            Permaneceu um instante pensativo, voltou a encarar Adib:

            - Supimpa! Foi assim que você disse,  Adib, meu rapaz?

            - Do balacobaco! – confirmou o jovem.

            Raduan Murad guardou na memória a expressão que não conhecia: absorto volveu a vista para o céu se desfazendo em fogo nas cercanias de Itabuna.


Fonte:

A DESCOBERTA DA AMÉRICA PELOS TURCOS

Jorge Amado

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