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Cacau e política - Carlos Pereira Filho

Postado por Rilvan Batista de Santana 21/07/2017

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Cacau e política


            Carlos Sousa teimava com Tourinho que dizia: “Você acha que se pode governar um município com o espírito intransigente de Henrique Alves, a pose do mulato Liguori, a imposição de Godofredo Almeida, a teimosia de Zezinho Kruschewsky, a esperteza de Adolfo Leite e a peraltice do rábula Laudelino Lorens?

            A discussão tomava vulto. Carlos Sousa não era político, mas tinha as suas simpatias por Henrique Alves. Felizmente, quando a coisa marchava para azedar-se entre os dois velhos amigos, passou Filadelfo Almeida e convidou Carlos Sousa para ouvir no grêmio uma conferência sobre cacau, que ele ia pronunciar com citações do livro do Coronel F. R. Hul, gerente da estrada de ferro. E leu o histórico do cacaueiro, “originário das regiões tropicais da América Central e do Sul”. O cacau selvagem é comum nas bacias do Orinoco e Amazonas. Segundo De Condol a árvore se acha em cultura desde três a quatro milhares de anos. Os Astecas, do México e os Incas, do Peru, apreciavam a bebida do chocolate muito antes de Colombo descobrir o Novo Mundo. Conta Bernal Diaz Del Castillo que, em 1519, acompanhou Cortez na Conquista do México, que numa festa “de vez em quando traziam-lhe, numa xícara de forma de copo, de ouro puro, uma bebida feita de cacau e as mulheres serviam esta bebida com grande cerimônia”. “Caixas de chocolate e fardos de chocolate vermelho, formavam uma parte das receitas reais do México, e Montezuma tinha em depósitos acumulados mais de 40 mil fardos de cacau, que era recebido como tributo. E o conselheiro de Carlos V, ao voltar da América, escreveu que a moeda corrente entre esses povos era a fruta do cacau. Do dinheiro podia fazer-se bebida para o rei e preferiam essa moeda, à de ouro ou à de prata, como menos  prejudicial ao espírito e mais proveitosa ao corpo.”

 
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           E daí por diante, o conferencista continuou a falar sobre o cacau, as suas virtudes, a necessidade das classes se juntarem em associações, para melhor defenderem os seus interesses amesquinhados pelos especuladores. E citou as palavras do Engenheiro Joaquim Baiana que, em 1904, já explicava que a lavoura só encontraria salvação através do cooperativismo. De outra forma, caminharia para insucessos financeiros e mesmo para a escravidão. O exemplo estava na cara. Eles, os lavradores, produziam, eram donos das riquezas, mas estas eram controladas, absorvidas pelos intermediários. Infelizmente a classe vivia dormindo, absorvida numa espécie de catalepsia, mesmo insensível ao sofrimento. E continuou: “A seiva da especulação tem mais vitalidade, nesta terra, que a seiva do cacaueiro que sustenta tudo isso. A Rua da Jaqueira, ninho e coito dos ‘partidistas’ tem mais expressão no domínio econômico, que a coletividade agrícola. No passado, os cultivadores do cacau bebiam o chocolate em taças de ouro, no presente, os lavradores bebem água, que apanham nos ribeirões, nas folhas do próprio cacaueiro, por não possuírem um copo de vidro”.

            Netuno, o “deus”, saiu pelo mundo, dando aos outros deuses sementes do cacau. Naquele tempo, os deuses cultivavam o cacau, hoje os seus cultivadores são os sofredores das matas desta terra. Mas, os deuses da exploração ainda não desapareceram, eles vivem entre nós, são os do “caxixe”, da roubalheira, arranchados na Rua da Jaqueira, comprando cacau a baixo preço e vendendo com lucros fabulosos. Precisamos reagir contra semelhante estado de coisas, verdadeiramente injusto e monstruoso. Necessitamos de criar cooperativas, um instituto, um órgão de defesa da grande classe.

            Ao terminar a sua conferência foi muito aplaudido. Aquele Filadelfo tinha tintas de orador e de socialista, disse um dos presentes.

            Francisco Benício dos Santos gostou bastante da conferência. Era um homem trabalhador, honrado, cumpridor dos seus deveres e estava sempre ao lado das boas causas. Apoiava os movimentos de sentido coletivo, que tratassem do bem geral, e sentia pelo próximo uma afeição espiritual, como se cada cidadão fosse um seu irmão, nesta passagem provisória da terra, como bem dizia o Moura Teixeira...

            Depois da conferência, que teve sucesso, os assistentes cumprimentaram o orador e se dirigiram para um bar, na antiga Rua da Lama.

            No bar, pediram cerveja. Ainda a conversa se demorou um pouco sobre a conferência, depois descambou para a política. E citaram o Zezinho Kruchewsky, novamente candidato a intendente e, agora, por impossível que parecesse, apoiado pelo grupo que o traiu, em 1915.

            O mundo dá muitas voltas e em cada encruzilhada existe uma surpresa.

            Carlos Sousa, que ouvia a conversa, deu seu palpite:

            - O mundo dá voltas, mas Gileno Amado só não roda sozinho o mundo Itabunense, porque existe Henrique Alves. Com este ele não pode, é no duro. Chefe contra chefe, homem contra homem.

            E a discussão prolongou-se, e as garrafas de cerveja foram-se amontoando e as mulheres chegando.

            Passava de meia-noite, quando o grupo se dispersou, uns convencidos de que o chefe era mesmo Gileno Amado, outros que era Henrique Alves.

            Entre esses dois homens a opinião pública Itabunense se dividia, forte e muitas vezes exaltada.


TERRAS DE ITABUNA – Capítulo XX

Carlos Pereira Filho

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