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AUTOFICÇÃO - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 12/07/2017




C:\Users\Mateus\AppData\Local\Microsoft\Windows\Temporary Internet Files\Content.Word\Y70705Autoficção.jpgEm meu livro “Os Meninos da Rua Estrela”, quis fazer uma obra misturando a memória real com a imaginação, ou a ficção com a realidade. Os “Meninos”, isto é, os amigos da Turma Stella, após lerem, me contataram apenas para informar de que alguns “fatos” narrados não aconteceram “daquele jeito, naquele lugar, naquela data e nem com aqueles personagens”. Outros leitores, que não conviveram com meu passado, ficaram preocupados, sem saber se eu realmente havia sofrido o acidente automobilístico ali descrito e, em consequência, ter perdido a memória. Até meus filhos, só após lerem muitas páginas, descobriram que a personagem Mayra não era Mara, minha mulher e mãe deles, apesar de inúmeros traços em comum. Enfim, fiquei com a sensação de ter criado certa confusão nessa minha ficção científica.

AUTOFICÇÃO



Recentemente, entretanto encontrei em um texto de Daniel Galera, uma clara conceituação do termo “Autoficção”, que pode ser entendido como “realidade ficcional” ou “ficcional realidade”. Esse conceito não é novo e, apesar de ainda pouco usado, parece estar se definindo uma tendência na ficção atual. Na verdade já é até bem antigo, pois foi usado pela primeira vez em 1977, por Serge Doubrowsky, recém-falecido em 23 de março deste ano, aos 88 anos. Considerado o “pai da autoficção”, criou o termo em seu romance Fils, quando assim definiu um conjunto de obras literárias que apresentavam passagens da vida real.


Fica constatado, portanto que não há nada de verdadeiramente novo nessa mistura chamada autoficção. Mesmo porque, toda ficção é construída sobre a imaginação, ou a realidade, seja esta adulterada, modificada ou até “melhorada”. O fato novo na análise da autoficção é a verdadeira obsessão atual dos leitores em separar o “vero” do “bene trovato”.
Nos populares ou eruditos tomos factuais do jornalismo, das biografias, ou nos históricos, jurídicos, científicos etc., a verdade precisa prevalecer acima de tudo, sendo crucial nesses casos destacar o real do que não é.


Mas não há muito sentido em explorar a confusão entre autor e personagem, ou fato e realidade em obras literárias criadas pela imaginação dos seus autores. É, no mínimo, estranha essa a tendência de pretender enxergar autobiografias, ou impulsos confessionais em narrativas literárias.


A ficção é livre em seu trabalho com a realidade e pode até usar fatos reais, mas não tem nenhum compromisso com eles. Os leitores e principalmente os críticos de uma obra ficcional, não deveriam dar tanta relevância a essa preocupação em descobrir o que seja fato, ou autobiografia, ou pura, simples e louca imaginação do autor, no enredo do livro. Essa postura obsessiva em desvendar o “verdadeiro” e o “imaginário” na criação ficcional compromete e até destrói a lúdica e prazerosa magia de mergulhar e deixar-se levar pela fantasiosa trama da narrativa do autor.


Alexia G. Alves reporta duas obras que fazem uma “grande bagunça” entre realidade e ficção, onde os autores se amparam na realidade para dar credibilidade a sua história.


Em seu primeiro exemplo, cita Juan José Benítez, em “Operação Cavalo de Troia”, obra de nove volumes, nos quais o autor conseguiu confundir muitos leitores a ponto de fazê-los questionar a própria Bíblia. Benitez narra uma missão da Força Aérea dos Estados Unidos, que, em uma “nave”, se desloca no tempo e chega até a época de Jesus Cristo, presenciando muitos fatos bíblicos. Diz o autor haver desenvolvido sua história com base em diários a que teve acesso, sem, no entanto revelar quais foram esses diários.


Outro caso citado é o do livro “Fragmentos”, publicado em 1995, sendo este o melhor exemplo de como um autor pode criar, com base na realidade um acontecimento midiático beirando à fraude. A obra foi inicialmente publicada como sendo a autobiográfica de Benjamin Wilkomirski, contando sua história de infância em 1939 a1948, dos três e até os sete anos, quando era prisioneiro de campos de concentração e depois, como sobrevivente da Segunda Guerra Mundial. Entretanto um jornalista suíço descobriu que a história não era verdadeira, mas simples ficção. Descobriu-se também que o nome real do autor era Bruno Doessekker, que não era judeu e sim, um escritor e músico que havia estudado em Genebra e possuidor de um grande acervo de livros sobre a II Guerra Mundial.


Constato, nestes termos, que “realidade ficcional” ou “ficcional realidade”, é uma nova tendência e, como autor de autoficção, me sinto um escritor moderno e atualizado, mesmo estreando nas letras aos setenta e um anos de idade.


Por outro lado, neste contato com a autoficção, concluo também que o leitor preocupado em desvendar o “verdadeiro” e o “imaginário” em sua leitura, compromete-se a perder o lúdico sentimento de prazer de se deixar envolver plenamente pela narrativa.


Porém, quando alguns dos meus leitores dizem ‘não conseguir parar de ler’, que descrevo e escrevo ‘como se tivesse vivenciado tudo aquilo’ e que narro através de uma ‘leitura fácil e agradável’, nada mais devo pretender, senão, além de ficar envaidecido, agradecer.


Mateus Cosentino
Sampa – 12.07.2017


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