Saber-Literário

Diário Literário Online

A morte de uma Excelência - Ricardo Cruz

Postado por Rilvan Batista de Santana 06/07/2017

Google
A morte de uma Excelência


            - Então, seu Arcanjo, como vai nosso timão? – perguntava-lhe o prefeito, mal acabando de sentar-se na cadeira mais solene da barbearia.

            - Aí, excelência, como o senhor mesmo está vendo...

            - Pois é, agora botaram uma bicha como técnico, onde já se viu sem-vergonhice igual? Depois soube que vão vender o Santinho pro Fluminense de Feira. Tem lá precisão, seu Arcanjo, hein, me diga?

            - Tem não, excelência, nenhuma, uma terra rica como a nossa... Mas o técnico, eu soube que o homem é cronista, colunista social, ou coisa parecida...

            - O que pra mim vem dar no mesmo, seu Arcanjo. Homem que anda metidinho em festinhas a bajular madames, é tipo com serventia para dirigir time de homem? Pra mim é bicha mesmo!

            - Concordo com Vossa Excelência. No meu pouco conhecer, sei logo quem tem razão... E Vossa Excelência...
            - E o time é bom, seu Arcanjo, muito bom, isto é o pior de tudo. Temos o melhor goleiro da Bahia, nosso ponta esquerda fez a melhor figura no campeonato, ou não fez?

            - Tá muito sem moral, senhor prefeito, sem moral, com esse técnico, o senhor mesmo sabe... Todo mundo aí descontente, e logo o futebol, Excelência, o futebol, a alegria do povo!

          - É isso aí, seu Juvenal alegria do povo! Povo precisa de alegria, de confiança. Com alegria e confiança, tudo fica fácil de conquistar, só assim sei fazer política. Não sou homem de viver tramando nem conspirando nos gabinetes!

            - Muito bem!...

            - Pena que a diretoria do time pertença à oposição. O Itabuna, seu Juvenal, se essa diretoria estivesse comigo, no duro não ia ter técnico bicha, não. Mandava buscar o Zagalo, ou o Cláudio Coutinho. Aí sim, queria ver... Queria ver jamais perder eleição. Jamais perdi, não é? Ia mais longe, seu Arcanjo! Ia não, vou! Ainda chego lá, a oposição vai ter muito que quebrar a cara comigo. Chego a Senador da República, seu Arcanjo, a Senador!

          - Apoiado!

            Juvenal escutava-o, orgulhoso da sua condição de confidente e barbeiro particular do senhor prefeito. Já o era, antes que o homem enveredasse pela política, o que aconteceu numa dessas reviravoltas que a vida dá, costumava dizer, mudando o destino das pessoas, porque depois que enveredou e teve sucesso, prefeito por duas vezes, eleito pelo voto popular, maciçamente, mostrou que não era homem de abandonar amigos, trocar de companheiros, em tempo algum deixando de solicitá-lo, a ele, humilde barbeiro, como profissional e confidente. Quando estava muito atarefado e não podia ir à barbearia, distribuindo acenos, abraços e apertos de mão pelo percurso, mandava buscar o barbeiro que o atendia lá mesmo, no gabinete. Nestas ocasiões carregava numa maleta o instrumental encomendado em Salvador, novíssimos e afiados instrumentos, só para uso de sua excelência e, excepcionalmente, das cabeleiras mais ilustres da cidade. Considerava-se um privilegiado quando dispunha de todo um tempo das atenções do senhor prefeito (por longos momentos a tesoura cessando sem  tac-tac, suspensa no ar, o pente fino de chifre à espera do compasso da tesoura, erguidos ambos erguidos ambos nas pontas dos dedos, como um maestro diante da sua orquestra, logo recomeçando o tac-traquear elegante e caprichoso em torno daquela cabeleira).

            Em outros momentos, como durante a última campanha eleitoral, era impossível atende-lo na barbearia, mas ele fazia questão de ser atendido lá mesmo, então Juvenal não gozava de privacidade alguma, o povo invadia o salão da barbearia, todo mundo querendo falar ao mesmo tempo; pedidos, declarações, convites, queixas, converseiro, mexericos, abraços e apertos de mão, um inferno. No fundo ele gostava, aumentara a sua popularidade, até aproveitava para distribuir uns cartõezinhos. Lá fora, o povo amontoando-se nas calçadas, mais movimentado que um dia de feira, o couro comia, um carnaval:
Google

            “Pisa na fulô, oi pisa na fulô,
            Pisa na fulô que o Alcantra já ganhou!”

            E o homem não perdia vez de contentar o povaréu humilde, com umas artimanhas súbitas, umas tiradas inspiradas, empinava-se na cadeira, sem ligar pra barba ou cabelo, corte por terminar, ou ia até a ponta da calçada, para dar seu brado de guerra:

            “Povo vencedor, sabe o que quer,
           
essa ganhamos de colher!
            Vai ser de colher, vamos ganhar,
            é só apostar, quem quiser!”

            Não precisava identificar rostos, aquele povo era essa mesma gente triste agora, e, acompanhando-o, também caminhava triste, subindo a ladeira do cemitério. Assustou-se com aquelas vivas inesperadas, mas logo compreendeu a razão. Podia ver, na ampla varanda, o doutor Osmundo Teixeira, duas vezes candidato a prefeito, duas vezes derrotado nas urnas. Claro que não ia demonstrar alegria naquele momento, afinal a morte limpara-lhe o caminho, não iria se incompatibilizar com o povo. Havia o padre Nestor Caminha, um certo Mimia, agente funerário, estes há anos candidatavam-se, mas sem nenhuma chance, o povo poderia preferir um desses dois, ou outro qualquer, se tivesse com isso de responder alguma provocação do doutor Osmundo. Mas não parecia disposto a cometer nenhuma burrice, ao contrário, estaria até disposto a responder com um viva, também ou derramar uma lágrima... Mas por dentro, Juvenal seria capaz de apostar, estaria cantando de felicidade, agora não teria de enfrentar ninguém mais à altura do falecido, ninguém que não pudesse derrotar nas próximas eleições.

            - Com todo respeito, vai ser muito difícil, doutor Osmundo,  seu Alcântara perder pro senhor. Ele mesmo disse que ganha, de colher. No meu pouco entender, ele sabe convencer o povo, doutor.

            - Ora, o povo, Juvenal, o povo só quer saber de futebol e carnaval! Respondia-lhe doutor Osmundo, que andara arriscando umas chegadas até a barbearia, naquele fingimento de querer cortar cabelo com ele, quando todos sabiam muito bem que era cliente antigo do seu Álvaro do Salão Universal. Vinha ali bisbilhotar, esperando aproveitar-se da humildade dele, fazer intriga, colher indiscrições, que não cometeria. “Tou acordado, para esse doutor”, pensava, muitas vezes.

            - Viu só o que ele fez, o seu prefeito, a última dele? Qual o benefício para uma comunidade mandar pintar os postes de concreto da cidade. Hein, seu Juvenal? Me diga se com essa não perdeu até mesmo seu voto? A Bahia inteira deve estar rindo dessa maluquice, pintar postes, onde já se viu?

            Depois ia contar tudo a sua excelência, que o escutava em silêncio, comovido com a fidelidade demonstrada.

            - Anda espalhando que as tintas foram de um estoque encalhado da firma do seu Juca, que sua excelência comprou porque devia ao homem o apoio dele nas eleições. Vai provar que foram compradas pelo dobro do preço, ainda por cima, excelência, ele mesmo me disse!

            Então o prefeito gargalhava, uma gargalhada estrondosa, chegando a engasgar e o peito ficava cheio de ruídos, Juvenal ficava meio arrependido e com medo do homem estourar, ali mesmo, na sua cadeira, tão vermelho se tornava. Agora o acompanhava pela derradeira vez: “e que morte tão estúpida, essa!...”

Fontes:

ROTEIRO PARA UMA TEMPESTADE - Ricardo Cruz

Da Antologia ITABUNA, CHÃO DE MINHAS RAÍZES

0 comentários

Postar um comentário

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Patrono

Patrono

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Todos os nossos textos, abaixo, estão licenciados no Creatve Commons.
Tecnologia do Blogger.