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SONETO = UMA PEQUENA CANÇÃO

Postado por Rilvan Batista de Santana 28/06/2017




Aos meus dezesseis anos de idade, no longínquo ano de 1959, a menina mais bonitinha da Paróquia de Santa Generosa me fez sentir uma “estranha necessidade” de ser notado por ela. Mas não sabia como fazê-lo. Porém num domingo, após a missa, como de costume, a rapaziada se encontra na convivência do salão paroquial.  Ao terminar de vencer uma partida de ping-pong, olhei para verificar se minha amada me vira derrotar o adversário. Ela estava sentada a um canto lendo atentamente um livro de poesias. Não contive a imensa necessidade de me exibir, cheguei até ela e menti que sabia escrever poesias. Duvidando, ela desafiou: “Faça uma para mim”.

SONETO = UMA PEQUENA CANÇÃO

PARTE 1 – Estrutura

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Na década de 60, não sabia nada sobre Simbolismo, Semana de 22 ou a Geração de 45. Os livros escolares ainda não haviam descoberto essas “modernidades”. Então líamos os Românticos e principalmente os Parnasianos nacionais. Assim, inseguro e sem saber como cumprir a minha promessa, fui à Biblioteca Municipal e mergulhei a cara no Tratado de Versificação de Olavo Bilac e Guimarães Passos, além de ler algumas poesias carregadas da mitologia greco-romana, muito usada então. Na verdade deixei de lado os mitos e fui direto para a segunda parte do tratado para descobrir a “metrificação”. Passei um mês inteiro obrigando-me à difícil tarefa de rimar, metrificar e dar ritmo aos versos, em insanas tentativas fracassadas. Queria dar aos meus versos uma rigidez formal pouco compatível com a quase nenhuma experiência de vida. Ao final de inúmeras tentativas, compus um primeiro soneto de oito sílabas, com tema romântico que hoje, seis décadas depois, me parece um vaticínio. Começava assim:

Tu, que foste a maior esperança,
que em vida almejei conquistar,
hoje não passas de lembrança,
que hei de, para sempre, lembrar.

Foi um parto doloroso, começado após aprender minhas primeiras noções de versificação. Essa iniciação poética norteou toda minha vida futura. Desde então, nunca apresento nada que faço, em qualquer atividade, sem antes me munir de informações e consultas sobre o que vou fazer. Claro que isso denota insegurança, mas é também um diferencial que contribuiu para facilitar minha carreira profissional. Posso dizer: Quando não sei, sei que saberei.

Por outro lado, deixa-me entristecido, ler poesias de pessoas talentosas, criativas e com um inato dom de poeta, criarem versos com o único cuidado de rimar. Demonstram que nunca se preocuparam (e talvez nem soubessem) que desde a antiguidade pré-histórica oral, todo poema segue regras de composição. Não digo que todos sejam obrigados a aceitarem as regras, mas considero que deveriam conhecê-las, mesmo que fosse para transgredi-las e poetarem como bem quiserem.

Por minha conta e risco desde o início elegi o soneto, como minha principal forma de poesia. No início isso mais parecia uma camisa de força poética, mas atualmente é uma forma de versificação que vem automaticamente. Hoje o soneto é minha forma pré-estabelecida de poema, em que ao criar nem penso na forma, só preciso desenvolver o tema.

Mas afinal, o que é soneto? Começo com a definição da palavra: Originária do italiano “sonetto”, significa literalmente pequeno som, ou pequena canção. Diz a lenda que o Soneto foi criado por Safo (ou Sapho), poetisa da ilha grega de Lesbos, no mar Egeu, ao ano de 630 antes de Cristo. Era então um canto lírico, isto é, acompanhado pelo som da lira.

As evidências, entretanto apontam sua origem para outra ilha, a Sicília do Século XIII, na corte de Frederico II Hohenstaufen. Ali era cantado da mesma forma que as tradicionais baladas provençais. Sua invenção é atribuída ao poeta siciliano Jacopo de Lentini, ou Giacomo Notário, por ser o tabelião do imperador.  

Sua forma, quanto ao número de linhas e disposição das rimas, era variável e assim permaneceu até que o poeta toscano Fra Guittone d'Arezzo, adotou a uma primeira forma padronizada de soneto, chamada de “soneto guitoniano”, que durante a primeira metade dos anos 1200, foi empregada com pequenas variações.  

Coube, entretanto ao poeta fiorentino Francesco Petrarca aperfeiçoar, também na Sicília, a estrutura poética que conhecemos do soneto. A ele também é atribuída a difusão por toda a Europa, em suas viagens, do chamado de Soneto Italiano ou Petrarquiano. Desde então e principalmente partir do século XVI, essa a forma clássica e definitiva de soneto influencia toda a literatura poética ocidental, tornando-se ao redor do mundo a melhor representação da poesia lírica.

Meu modelo é o soneto, o “Camoniano”, que Luís Vaz de Camões adotou na composição do seu tema principal; o amor, que imortalizou com os mais belos sonetos em língua portuguesa. O verso Camoniano é decassílabo, com rima oposta nos quartetos (ABBA/ABBA) e rima alternada nos tercetos (CDC/DCD). Para melhor entendimento exemplifico abaixo, com a famosíssima poesia “Alma Minha Gentil, que te Partiste”, do livro "Sonetos" de Camões:

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Todo soneto, tem uma forma fixa, composta por catorze linhas. As duas primeiras estrofes têm quatro versos, cada uma (quartetos), as duas seguintes têm três versos cada (tercetos). Geralmente a temática dos sonetos costuma começar com uma introdução apresentando o tema que vai se desenvolvendo até sua conclusão, no último terceto, com uma “Chave de Ouro”, que dá um surpreendente ou admirável significado ao poema.

Porém mesmo com a rigidez formal do soneto clássico existem diversas formas aceitáveis de transgredi-lo. São variações de métricas, ritmos e rimas, ou modernamente até a ausência dessas. (Eu mesmo sou um transgressor costumaz, adotando temas e disposição dos versos não muito comuns aos sonetos habituais.) Mas as principais variações formais do soneto são;

  • Soneto inglês ou Shakespeariano: Composto pelas catorze linhas distribuídas por três quartetos, acrescidos de dois versos (dístico).
  • Soneto monostrófico: Apresentando em uma única estrofe de 14 versos:
  • Soneto irregular ou estrambótico (ou extravagante): Acrescenta três versos ao final dos catorze regulares do soneto.

CONTINUA
Mateus Cosentino
Sampa – 28/06/2017

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