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CONVERSA DE BAR - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 22/06/2017



CONVERSA DE BAR



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A garrafa de Jack Daniels já ia ao meio, assim como nosso papo na mesa do bar. Como sempre, nessas conversas etílicas, falávamos do feliz passado livre e solto de nossa juventude, contando “causos” que nos divertiam todas as vezes que nos encontrávamos. Ao final de uma dessas historinhas, após as muitas rizadas de praxe e o gole final no copo do velho “Uísque Tennessee”, fiz um comentário que, nem sei por que, me veio à mente.





  • Sabe Cacá, que você foi meu primeiro amigo aqui em Sampa e que somos amigos há sessenta e um anos?

Cacá colocou seu copo vazio sobre a mesa e ficou me olhando com um fixo e estranho olhar que me pareceu causado pelo álcool. Deu um suspiro e disse com um engasgo na voz:

  • Velho, por que esse papo agora? Fiquei emocionado, pô! Lembrei, eu tinha sete anos... Lembrei de sua mãe, seu pai, dos seus irmãos... Do meu irmão, dos meus pais... Enfim, daquela época em que éramos tão... Que saudades. Ainda bem que vivemos aqueles tempos.

O efeito etílico de meia garrafa de uísque faz a gente rir e chorar com uma facilidade que não temos em nossa vida cotidiana de pessoas responsáveis e trabalhadoras. Então achei graça dos olhos marejados do amigo. Ele deu um sorriso envergonhado e encheu novamente seu copo. Tentei voltar à descontração da conversa anterior.

  • A gente se emociona rápido aos setenta anos...
  • Setenta tem você, Velho matusalém! Eu só chego aí, daqui dois anos.
  • É mesmo. É uma enorme diferença de idade!

Rimos. Esse tema de idade, sempre vinha à tona em nossas conversas, mesmo agora não sendo mais significante a diferença. Mas quando nos conhecemos, eu com nove anos e ele com sete, dois anos era um verdadeiro abismo etário. Daí eu ainda ser tratado como “Velho” por ele.

  • Puxa Velho, sessenta e um anos de amizade! Quantas histórias vivemos, tantas coisas pra contar.
  • Já que você puxou o tema Cacá, deixe contar uma coisa só pra você. Não quero que a Turma inteira fique sabendo ainda.

Notei o curioso interesse despertado no amigo. Então fiz uma longa pausa, colocando mais uma dose no copo, pegando um a um dois cubos de gelo, mexendo o uísque com o dedo e sorvendo um primeiro gole. Olhei para Cacá e vi que ele ainda estava na expectativa. Depositei o copo na mesa. Dei um tempinho e contei.

  • Há três meses terminei as duzentas páginas que escrevi e chamei de “Os Meninos da Rua Estrela”, contando todas as histórias que me lembrei da nossa turma de juventude.

Sabia que isso era do interesse do amigo, que já havia me dado a incumbência de ser o “historiador oficial” daqueles dias. Ele nada disse e então continuei.

  • Não escrevi as histórias nuas e cruas, Escrevi conforme minha fraca memória lembrou. Acabou ficando mais ficcional de que factual. Não ficou, nem de longe, uma obra prima, mas talvez eu acabe fazendo uma impressão limitada apenas para nossa turminha.
  • Quero ver! Mande-me uma cópia. Vamos imprimi-lo sim! Caso você não me mande o texto, mando providenciar uma busca e apreensão judicial.

Ri-me da fala do brilhante advogado, poucas vezes revelada em nossos encontros etílicos.

  • Vejamos, caro Dr. Cacá, vamos ver... Vou pensar nisso.

Era o fim da conversa. Meu amigo pediu a conta e recomendou a guarda de nossa garrafa, já paga, até uma próxima volta ao bar. Despedimo-nos com o forte abraço de sempre e os costumeiros “me liga” e “pode deixar”.

Seis meses depois, o amigo me diz ao telefone: “Seu livro vai ser editado”. E depois de mais seis meses, foi publicado, com seu prefácio e patrocínio. Assim, aos setenta e um anos tinha a minha estreia literária. Antes tarde do que nunca.

Mas por que estreei em tão provecta idade? Desde que me alfabetizei escrevo e desde a adolescência que sonho em ter alguma obra publicada. Desde então fiz muitas tentativas, umas tímidas e outras mirabolantes para ser “descoberto”. Escrevi cartas, enviei poesias e textos curtos para alguns escritores e jornais e praticamente nada consegui. Mas a vida foi me levando e passei trinta e cinco anos ganhando bem a vida e fazendo filhos num feliz casamento. Até que, sem perceber a celeridade do passar do tempo, aposentei-me aos sessenta e três anos.

Então voltei ao encontro do imorredouro sonho literário. Mais seguro de mim, fui pessoalmente em busca de grandes casas editoras. Nenhuma publicava poesia. Se levasse um texto de ficção, informavam-me só publicar livros didáticos. Levando não ficção, diziam que só editavam autores reconhecidos. Após a terceira parei de ir pessoalmente. Então comecei a enviar cartas com sinopses de obra e descrição do autor. Uma única dessas empresas me deu retorno: “Procure uma editora pequena que com o pagamento de pequeno valor, certamente publicará”. Sempre considerei pagar para publicar, uma confissão de mediocridade literária. E escrevi um e-mail irado para aquela editora informando minha revolta. Outra vez ela respondeu:

“Valeu a bronca Sr. Mateus, fiquei morrendo de medo! Mas muitos escritores hoje reconhecidos e famosos, encontraram o seu caminho literário, com uma primeira edição auto-patrocinada. E isso não é tão excepcional, nem desmerece o autor e acontece há muito tempo. Para citar apenas um exemplo, até a grande Raquel de Queiroz teve a primeira edição de sua obra prima, “O Quinze”, publicada a expensas de seu pai. Vivemos Sr. Mateus em um sistema capitalista e financiar seu próprio sonho, não determina a qualidade do mesmo. Passar bem”.

A ironia e sabedoria dessa resposta deu-me motivação para escrever “Os Meninos”. E fui em busca de três editoras pequenas que “com o pagamento de um pequeno valor, certamente publicará”. Mas quem falou que um aposentado poderia dispender tal valor?

Já estava a desistir de uma vez por todas de ver algum escrito meu publicado, quando tive aquela conversa etílica com meu amigo na mesa de bar. Então conheci a figura mais importante que sempre existiu ajudando os maiores artistas da humanidade de todos os tempos: O Mecenas. Acreditava que esses louváveis patrocinadores houvessem desaparecido na Renascença, mas o sonho de toda a vida, o primeiro livro de um septuagenário aposentado como eu, somente com tal patrocínio pode ser realizado.   

Como é que agradeço isso, ao Cacá, o meu primeiro amigo? Como não mostrar gratidão, Dr. Antonio Claudio Mariz de Oliveira, a quem realizou um sonho já sem esperanças, tristemente abandonado após mais de meio século de inúteis tentativas de realização?

Mateus Cosentino
Sampa – 21.06.2017


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