Saber-Literário

Diário Literário Online

Cerrados e Cacauais - Sonia Coutinho

Postado por Rilvan Batista de Santana 13/06/2017

Cerrados e Cacauais

O ônibus freia bruscamente, parece que um animal atravessava a estrada, em meio à escuridão. Alguns passageiros acordam, estremunhados, mas Renato não tinha conseguido dormir um só instante, a mente girando um carrossel de recordações cada vez mais antigas.

            Os primeiros tempos na cidadezinha onde nasceu, quando a Segunda Guerra Mundial estava pela metade. Sua família tinha um rádio e, quando o conflito terminou, todos saíram correndo e gritando pelas ruas. A guerra, para eles, era uma coisa distante, quase inverossímil, mas, agora que tinha acabado, sentiam que uma nova era ia começar. Aquela noite, em comemoração, foram acesos muitos fogos de artifício.

            Talvez seja essa, pensando bem, imagina Renato, a única lembrança de alegria coletiva daquele período. O resto são visões sombrias, uma pequena cidade cercada de florestas, onde o índio continuava uma presença misteriosa e ameaçadora, coisa atemorizante se inserindo no cotidiano das pessoas, como se todos esperassem um ataque iminente, mas sempre adiado.

            Já menino de sete ou oito anos, quando sua família se mudou para a capital do Estado, reencontrou aquela região – a Região Cacaueira – na psicologia de todos os seus parentes. Aquele sentido trágico e fatalista da vida, resultante, segundo concluiu, da imprevisibilidade das safras, das possíveis pragas, o preço do cacau, decidido sempre em outra parte (fatores internacionais de mercado etc.), tudo  coisas completamente incontroláveis e remotas para os moradores da região. Que, às vezes, estavam bem de dinheiro só para, poucos meses depois, quase mendigarem alguma coisa para comer. Tinha chovido demais, dera a mela, a podridão parda, a safra estava inutilizada. O peso da Moira, como na mitologia grega.

            Fora isso, tudo que conseguia lembrar-se daqueles primeiros anos da sua vida eram cenas disparatadas e dispersas – a mulher-aranha de um espetáculo circense, a avó espírita que “dava passes” e “recebia o caboclo”. Além de recantos escuros, muitos recantos escuros,  uma escuridão vinda de sob as árvores de grande floresta que abrigava os cacaueiros.


(“O JOGO DE IFÁ”)

Sonia Coutinho
------------
Sônia Coutinho
Escritora

Sônia Coutinho foi uma escritora, jornalista e tradutora brasileira. Em 1968, mudou-se para o Rio de 
Janeiro, onde iniciou a carreira jornalística. Tem 11 livros publicados e traduziu outros 30. Wikipédia

Nascimento: 1939, Itabuna, Bahia
Falecimento: 24 de agosto de 2013, Rio de Janeiro
Livro: Atire em Sofia.

0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Tecnologia do Blogger.