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A Poesia * Julio Pavanetti - Alicante - ES

Postado por Rilvan Batista de Santana 06/06/2017

A Poesia * tJulio Pavaneti - Alicante - ES

A POESIA

A poesia pode ser um veículo de mudança para a paz e a justiça social no mundo?

Eu quero agradecer em primeiro lugar a Senhora Vanda Salles, a Academia Estudantil de Arte Contemporânea, ao Museu Pós - Moderno de Educação e a todas as pessoas e instituições que colaboraram e contribuíram para o sucesso deste evento por me convidar para participar nesta importante atividade. Sinto-me muito honrado.
Para mim é um grande prazer estar hoje pela primeira vez em São Gonçalo, compartilhando amizade e cultura com estudantes, professores, personalidades políticas e culturais, poetas e escritores. Obrigado a todos.

Eu vou tentar ler a minha palestra em português para que possa ser entendida por todos. Peço desculpas se minha pronúncia não é totalmente correta.

Eu acredito que na poesia é necessário priorizar a sensibilidade porque o poema é um filho de todas as emoções: raiva, amor, tristeza, ansiedade, protesto, calma, ventura, revolução. Ele funciona para mostrar como a palavra pode transformar qualquer eventualidade em uma parte representativa da nossa dimensão humana e criativa.  Sem se tornar um manifesto de um partido político, a poesia, em um ato de generosidade, deve transmitir esperança e força para aqueles que acreditam em outra possibilidade de existência.

Então, a poesia, pode ser um veículo de mudança para a paz e a justiça social no mundo? (Pode ela como arte e os poetas, como simples mortais, mas também como seres humanos com uma sensibilidade particular, contribuir para que a humanidade finalmente alcance a paz e justiça social?)*¹

Eu acho que sim, e talvez agora seja a hora de dar voz à alma dos poetas para expressar sua própria visão e ajudar a conscientizar.
(Talvez alguns de vocês pensem que isto é uma utopia. Em seu livro As Palavras Andantes, o meu compatriota Eduardo Galeano, inclui um conjunto de contos que ele chama de janelas. Em um deles, "Janela Sobre a Utopia", Galeano lembra uma resposta do cineasta argentino Fernando Birri, em ma palestra que os dois juntos ofereceram em Cartagena de Índia, Colômbia. Um dos estudantes assistentes perguntou a Birri: Qual é o ponto da utopia, para que serve? E ele respondeu: "A utopia está no horizonte". "Eu ando dois passos e ela vá dois passos para trás. Eu ando dez passos é-o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, nunca l-alcançarei. Para que serve a utopia? Para isso serve: para andar".

Eu gostaria de adicionar que também serve para sonhar, e quando os sonhos são maiores  do que as desculpas, então os objetivos são atingidos é-o sucesso é obtido.

Fernando Birri diz que o novo cinema latino-americano, além de ter uma profunda raiz do protesto, é também um cinema dos sonhos. Mais uma vez eu cita a Birri porque acho que a sua sentença sobre o cinema latino-americano também pode ser aplicada a poesia. )*² Eu penso que a poesia não deve  deixar a beleza e os sonhos, mas tampouco  o empenhamento, o compromisso. O protesto tem por objetivo alterar esta sociedade injusta. Em tempos de ditadura a poesia é importante porque se torna um meio de resistência espiritual, e o testemunho do poeta é vital para a sobrevivência do povo.

Nestas circunstâncias, os leitores podem ler nas entrelinhas e, muitas vezes, entender muito mais do que até mesmo o poeta quer expressar.

Assim eu que nestas fracas democracias, deveram retornar-lhe à la poesia à função predominante da resistência e denúncia que adquire em ditadura. Durante anos está sendo executado, em um gotejamento lento e quase invisível, um processo dedicado a esvaziar-nos de aqueles elementos de segurança que eram a nossa referência segura, a importância dos postos de trabalho e a segurança econômica, (ainda que pequena, que resultaram desse trabalho e que cada um de nós tinha sido capaz de alcançar.
O gotejamento foi tão perfeitamente desenhado e refinado, que é quase difícil de acreditar que tudo foi planejado mais de 30 anos atrás por mentes malignas, disfarsadas com falsas doutrinas da virtude, que encontraram terreno fértil na Europa e em certas políticas da União Europeia.)*³ Até poucos anos atrás parecia difícil perceber o caminho lento que se iniciou  para o esvaziamento dos direitos fundamentais e para o empobrecimento.
Hoje é visível por todos porque faz parte da vida diária de cada um de nós. Hoje a maioria dos trabalhadores e aposentados, as massas, os braços que empurram a roda da grande maquinaria econômica, os setores primários e secundários da atividade produtiva, são ajoelhados e não para orar.
Agora, muitas pessoas começaram a perceber que um trabalhador com o seu salário normal, até meados dos anos 90**¹
poderia sustentar a sua família com dignidade, mas hoje não é capaz de sobreviver, vivendo com ansiedade febril porque não pode pagar o aluguel ou a hipoteca de sua casa.

Alguém pode imaginar qual é a situação dessas famílias que não tem rendimentos seguros como um salário?
Alguém pode imaginar o desespero que atende aqueles que perderam suas casas, vítima de desalojamentos selvagens?

Todas essas pessoas são "como folhas de outono na árvore", são como Dâmocles, com uma espada afiada marrada por um fio de cabelo de crina pairando sobre suas cabeças, prontos para perder o trabalho e no melhor dos casos, com compensações irrisórias.

(Quantas são em Espanha, Itália, Portugal, Grécia, em toda Europa, em América Latina e em outros lugares do Mundo, as famílias que vivem na linha da pobreza? Refiro-me aos indivíduos e às famílias  que nunca foram pobres porque eles têm sido capazes de ter um trabalho; essas pessoas, até menos de 15 anos, não tinham nenhum problema porque eles tinham um emprego, mas infelizmente agora eles são parte da longa lista dos empobrecidos. Quantos são na Europa e em outros lugares do Mundo as pessoas vivendo na mais terrível miséria percebendo modestos subsídios de pobreza?)*

Por outro lado esse mesmo sistema econômico globalizado que mantém os países do Terceiro Mundo em extrema pobreza ajuda a que aumente os migrantes que fogem da fome em busca de uma vida melhor, produzindo uma onda de migração sem freio, que em muitos caso leva-los à morte.

Um exemplo de um acontecimento da migração dramática acontece com os homens, mulheres e crianças desesperadas na África subsaariana. Eles se espremem em pequenos barcos para atravessar o mediterrâneo com a intensão de atingir as costas de Espanha e Itália onde esperam encontrar uma vida melhor. A maioria de eles infelizmente morrem afogados na tentativa.

Outro caso de drama profundo vivê-lo - "vivem-no" - certos povos da América Central onde milhares de pessoas desesperadas, montam-se no trem chamado a Besta, também chamado da Morte, através de todo o México para chegar aos Estados Unidos  em busca do famoso sonho americano. A maioria desses migrantes também morrem na sua tentativa, vítimas de gangues maras e de máfias de drogas. (Relativamente a esta questão, vou ler o poema"O Trem de Sonhos Quebrados: https://poetassigloveintiuno.blogspot.com.br/2016/01/julio-pavanetti-17968.html ")* que está incluído em meu último livro.

Talvez haja quem pense que não é a tarefa do poeta lidar com a crise, pelo contrário, é a tarefa de político  eleito ser o porta-voz e intermediário das necessidades das pessoas.

Mas quando os políticos dão as costas aos seus eleitores e aprovam leis contra os direitos humanos, como a lei da mordaça que aprovou o governo espanhol aproveitando a sua maioria absoluta no parlamento, ou quando eles se beneficiam de seus postos, esquecendo que eles estão lá para servir o povo e não para usá-lo:
Diante de tal corrupção institucionalizada, eu me pergunto: que deveriam fazer os intelectuais? Se aqueles que governam o mundo não fazem algo concreto contra crise... para o poeta, é melhor ficar calado, ou falar?

Creio, portanto, que hoje, é essencial que a poesia, como tem feito muitas vozes em outros momentos na voz e na caneta dos poetas, comece a desempenhar um papel de liderança para alcançar os princípios básicos de reivindicação do direito à vida, da justiça social e da identidade dos povos, além do compromisso ecológico com o planeta e o compromisso com a paz no mundo. Eu concebo este compromisso da poesia e dos poetas como um manifesto implícito de protesto, mas também, e sobretudo, como uma mensagem de esperança para a mudança. (Uma luta construída com uma rebelião pacífica  e democrática através, por exemplo, de leituras de poesia que se tornem  em documentos de denúncia, em valentes testemunhos de civismo, de democracia e da cultura, com os quais seja reivindicado o direito a uma vida vivível e digna para toda a humanidade.)*

O grande poeta espanhol Gabriel Celaya, disse em um verso do seu poema A poesia é uma arma carregada de futuro": "Eu amaldiçoo a poesia dessas, que não tomam partido até que fiquem manchadas."

Eu sou um daqueles que pensam que o poeta, em algum momento de sua criação deve se manchar. E eu acho que é o que eu faço no meu último livro "Tiempos de Cristales Rotos" ( Tempo de Vidros Quebrados), que basicamente é um livro de denúncia, compromisso e preocupação social.
O livro nos coloca em um momento de vidros quebrados como uma metáfora do presente, um tempo de ilusões e realidades quebradas, de conquistas sociais destruídas.

Mas apesar de estar envolvido em um clima global que faz fronteira com a catástrofe, como poeta, eu encontro a esperança nos novos lutadores,idealistas e utópicos, que surgem longe dos vícios e corrupção de políticos, mais muito perto de uma cidadania cansada de ser sempre a que tem de apertar o cinto.

Agora tenho de comprometer e renovar minha poética anterior, perguntando a mim mesmo, como assumir o que eu vejo ao meu redor, sem denunciar isso. Como pode o poeta continuar em uma torre de marfim?

Eu confirmo, mais uma vez, a poesia como a salvação, como um antídoto para a tristeza. Reafirmo a poesia como um espaço de dignidade e dignificação.

Certamente não será a poesia a que possa - ponha? - fim à corrupção, nem a desumanização, nem a falta de solidariedade e de empatia dos poderosos com as classes mais baixas. Não será ela que termine com o roubo canibal dos políticos e dos administradores, nem será ela a que detenha as grandes potências internacionais culpadas  da distorção do equilíbrio da economia mundial, e culpadas das guerras e da fome no mundo, mas a verdade é que a voz de um poeta comprometido com a sociedade, através de sua intervenção, mesmo com alguns versos, não será inútil. Para os poetas, eu diria que é vinculativo converter a palavra poética em uma força real capaz de influenciar nos destinos do mundo e no equilíbrio do planeta.

Após estas reflexões em voz alta e com o dever de enfrentar a problemática visível da sociedade de hoje, sempre com o foco colocado sobre a ação poética, eu acabo com a convicção que devemos concentrar-nos em dar a (à) palavra poética o valor universal que li (lhe) corresponde diante da dor e da injustiça.

Ser indiferente a estas realidades é colaborar com a infâmia e a morte. Depende de nós, dos poetas, dos escritores, às vezes anônimos, às vezes quase desapercebidos; de todos nós depende, embora pareça impossível.
Essa é a nossa tarefa: que de nós dependa. Que o homem não seja o inimigo do homem, que a vida neste planeta continue. De todos nós depende.

Para concluir eu quero ler um poema mio que também está incluído no meu último livro e que, em minha opinião, é essencial para fechar minha palestra. Mas antes eu quero resumir minha intervenção expressando que SI, que eu acho que a poesia pode ser um excelente veículo para ajudar a sensibilizar a sociedade, na sempre difícil tarefa de alcançar a paz e a justiça social no mundo. Vamos fazer que ela caminhe!! Tá?
E agora sim, eu termino com meu poema

"...E eles ficam tão calmos":

Nos fabricam ídolos como eles criam o gado,
dirigem a esse gado como o fazem com as pessoas,
inventam-lhes às pessoas até seu próprio passado,
distorcem o passado e governam em suas mentes e coroas.
Cobrem nossas mentes e coroas como as antigas paredes,
moldam as paredes como se fossem panelas,
entrelaçam as panelas como se tecem as redes,
engasta-se as redes como jóias nas pulseiras.

Semeiam o mundo de pulseiras como se fossem sementes,
lançam as sementes como disparam os dardos,
envenenam os dardos como fazem as serpentes,
empilham as serpentes como se fossem fardos.
Dispersam os fardos como fazem os profetas,
idolatram os profetas como se fossem deuses,
elevam seus deuses como suas próprias metas,
e jogam com as metas como impostam as vozes.

Eles usam as vozes como controle sobre seus veleiros
guiam seus veleiros como orientam meninos,
cortam o cabelo dos meninos como tosquiam os cordeiros,
curvam os cordeiros como dobram os sinos.
Fazem soar os sinos como superam barreiras,
engarrafam as barreiras como si (se) engarrafassem bebidas,
apanham as bebidas como içam bandeiras,
desmerecem as bandeiras como se elas tivessem feridas.

Aumentam nossas feridas como cultivam as vinhas,
controlam as vinhas como aos bonecos e as marionetes
conduzem as marionetes como dirigem os torpedos
ativam os torpedos como se fossem cataventos
Eles giram os cataventos com a força dos ventos,
enfrentam esses ventos como se fossem Sanchos,
adulteram os Sanchos, não têm sentimentos,
nos manipulam os pensamentos...
e eles ficam tão calmos.

*

NOTAS

Obs.1: As partes destacadas entre (*) são trechos omitidos pelo autor durante a conferência.
Obs.2: **¹ - Aqui o autor está falando sobre a realidade espanhola.
Obs.3: O leitor poderá observar a existência de algumas frases desencontradas em relação ao nosso Português, mas gostaríamos de ressaltar o esforço e a grandeza de Julio Pavanetti em se expressar em nossa língua, em português.

Quero registrar que ao término da palestra, coloquei-me estrategicamente para chegar ao Autor na tentativa de conseguir este texto e trazê-lo para a nossa apreciação. 

Fonte: Letras Taquarenses

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