Saber-Literário

Diário Literário Online

VÓ FILOMENA - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 10/05/2017

VÓ FILOMENA

Há 55 anos, quando eu tinha 19.
Do fundo do baú da memória.

Segunda-feira, 23 de abril de 1962.

São 23 horas quando chego ao meu ponto de ônibus. Desço na garoa. A caminho de casa, passo frio. Chego são e salvo, mas molhado por não ter aberto o guarda-chuva. Papai está lendo na saleta, meus dois irmãos menores estão dormindo e os dois maiores vendo TV. Vou à cozinha, como vagem fria com pão amanhecido e leite gelado sem açúcar.

Foto: publicação
Mamãe chega. Estava telefonando na vizinha, porque não temos telefone. Chega chorando. Vovó passava mal, foi levada ao hospital, mas já retornara para sua casa na Mooca. Papai enfia a mão no bolso para ver se tem dinheiro para condução. Irei  junto à minha mãe, pois sou o único que não tem que acordar cedo. Pego mamãe e sua sacolinha por um braço, no outro o guarda-chuva e o livro que estou lendo, coberto com papel manteiga  para não molhar.

Tomamos dois ônibus e chegamos. Grande parte da família está presente. Após as choradeiras de cumprimento,  vemos que vovó já passa bem, está apenas fraca demais para andar, mas conversa e a faço sorrir ao me ver. Sou o neto mais velho... Os parentes começam a ir embora, dois a dois, três a três. Foram dormir em suas casas. Amanhã é dia de trabalho. Meu avô fez um cigarro de palha com vovó reclamando porque ele não para de fumar. Ele sai para fumar debaixo do puxado lá no fundo do quintal.

Tranco a porta da rua, tomo leite gelado sem pão na cozinha e volto para destrancar a porta da rua para entrarem outros dois parentes recém-chegados. Choram, se conformam, se confortam e vão embora. Volto à cozinha e como um pedaço de pão com queijo, tomo café frio e peço benção a todos um a um; mamãe, titias, vovô e vovó. Olho o relógio na parede, já são quatro horas da madrugada. Venho à sala de estar, meu “quarto de dormir”, ponho o pijama que mamãe trouxe, sento na cama e começo a escrever “minhas coisas”. Ouço vozes abafadas. Mato uma pulga que veio comigo no ônibus. As vozes param, continuo a escrever, pego outra pulga, ela me foge, acabo de escrever, apago a luz, deito, me coço e durmo.

Terça-feira, 24 de abril de 1962.

A minha avó Filomena voltou ao Hospital Nossa Senhora do Carmo. São nove horas da manhã. Estou sentado na cama, onde vovó, que já não consegue falar segura minha mão. Tia Rosa e tia Maria inventam assunto comigo para distrair a paciente. Vovó, com os olhos fixos em mim, parece mais interessada em apertar minha mão do que ficar prestando atenção na conversa. Ficamos assim por algum tempo.

Quando disse que iria embora, minha avó prendeu mais fortemente minha mão. Acho que quis dizer alguma coisa. Nem precisava. Após dizer várias vezes que voltaria já-já, ela acabou soltando minha mão, mas me prendendo com o olhar. Sai do quarto fazendo graça; “vou até ali e já volto”. 

Quarta-feira, 25 de abril de 1962.

Voltando do sepultamento no Cemitério da Lapa. Lamentava não ter voltado a ver vovó viva. Aos dezenove anos, sentado no sofá, com as mãos na testa, não conseguia entender a primeira morte de um ser amado. Era como se meu cérebro se recusasse a admitir tanta perda. Peguei uma folha de papel  impresso que papai havia acabado de colocar sobre a mesinha de centro. Automaticamente comecei a lê-lo:

“República Federativa do Brasil. Registro Civil do 2º Subdistrito da Capital de São Paulo. A Certidão de Óbito certifica o passamento de  Filomena Cozza Laitano, Falecida [nesta data] às 6:00 horas aos 68 anos de idade, natural da cidade de Civita, distrito de Cozença, Calábria, Itália. Residente nesta Capital, filha de Thomas Cozza e de Mariana Ruggiano Cozza, falecidos. Casada com Leone Laitano, deixa os filhos: Isabel, Mariana, as gêmeas Maria e Rosa, Antonieta, Cleide e José Carlos. Causa da morte; embolia cerebral, arteriosclerose generalizada e uremia”. Foi declarante meu pai, Mansuetto Cosentino.

Terça-feira, 1 de maio de 1962.

Completou hoje uma semana da morte de vovó. É o dia internacionalmente dedicado ao trabalho.

Fomos à missa de sétimo dia e, depois, ao cemitério. Fomos em comitiva ao jazigo: Vovô e três filhas, lívidas  em seus trajes pretos; Mariana minha mãe, tia Antonieta e tia Maria. Três genros; papai, tio Fernando e tio Miguel. Cinco netos; eu e meus irmãos Toninho, Mauro, Márcio e Maristela. Também Dona Terezinha, que nem sei se é parente. Antes do pranto, principiou nossa revolta pelo túmulo coberto apenas com terra  pisada por enormes patas insensíveis. Se não nos dissessem “é aqui”, nunca imaginaríamos ser aquele espaço abandonado, um túmulo entre dois outros.

Quando nos retiramos, deixamos lá, um vaso repleto de flores vermelhas e brancas, duas dúzias de velas acesas formando um crucifixo, um empreiteiro pago e instruído para fazer o túmulo e nossos pensamentos. Um cenário triste de separação, no dia em que ninguém trabalha. Não pude deixar de pensar: Vovó, São Paulo parou também por sua causa.

Vovó Filomena morreu quando quase ficava curada. Embolia. Ela não aguentou. “Por quê?”, perguntei ao vô Leone, ainda no cemitério. Caminhando com a cabeça baixa, em seu jeito simples, ele sussurrou alguma coisa que não entendi. Achei não ser hora de entender nada. Mas ao nos despedirmos no abraço, ele repetiu a resposta ao meu ouvido, com seu sotaque inconfundível:

-  ‘Figlio mio’, se a gente ‘sabesse’ o porquê dos feitos de ‘Dio’, nem chorava nossos mortos. ‘Chi sa’ até se alegrasse com a partida. Deus é  justo, bom e sabe tudo. Ele só faz o que é certo.

Ao beijá-lo, senti alguma coisa úmida no seu rosto mal barbeado. Nunca vou saber se a lágrima era sua ou minha.

Mateus Cosentino

Sampa – Revisão de 05.05.2017


0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Perfil

Perfil
Antônio Cabral Filho - Escritor e coadministradores

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

Patrono

Patrono
Machado de Assis

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Tecnologia do Blogger.