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PERSONAGEM PARA LIVRO - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 25/05/2017

PERSONAGEM PARA LIVRO

Coisas do fundo do Baú da Memória
São Paulo, 23 de abril de 1962.

Após seis horas de sono, levanto-me na hora de sempre; onze horas da manhã. Faço a higiene cotidiana, tomo um cafezinho e fico lendo o jornal até o chamado de minha mãe para almoçar. Depois, mesmo contrariando o aviso da genitora de que “faz mal” ler logo após o almoço, leio dois capítulos do “O Homem Medíocre”. Vem um soninho, mas fico ouvindo rádio até me vir à lembrança o trabalho sobre Hidráulica a ser feito para a escola e também a sabatina de Contabilidade para a qual preciso estudar. E lá se vão horas de obrigação. Pelas seis horas da tarde, começo a datilografar alguns rascunhos de poesias, só para me distrair... e já é hora de me preparar para a aula noturna. Guardo meus rabiscos, pego  o material escolar, vou à cozinha, corto um pedaço de pão, mostardo-o, ponho duas salsichas  quentes dentro, como e vou para a escola de guarda-chuva debaixo do braço.
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Viagem normal de ônibus. Chego atrasado, como sempre. Entro ao meio da primeira aula; Desenho Técnico. Novo Professor substituindo o titular. Ainda faz a segunda verificação de presenças. A aula já anda pelos últimos vinte minutos. Sento, pego o material e, sem dar atenção ao mestre, faço as lições de casa esquecidas, referentes à matéria. Logo soa o sinal do intervalo. Sem sair da carteira, aproveito e para fazer também os deveres da matéria seguinte. Começa  a outra aula; Cartografia. Tema; “Projeções Cilíndricas”. Quarenta e cinco minutos depois, ao se iniciar a aula com a prova de Contabilidade, prudentemente vou embora. Farei segunda chamada.

Espero, embaixo da chuva fraca, o ônibus do lado de cá da Avenida Angélica, mas como está demorando, tomo o circular do lado de lá. Dentro, percebo um rapazola me olhando de revés, com um indisfarçável e tímido olhar andrógino. Nada contra, não concordo, mas respeito. Sorrio levemente distraído. Passo pela “borboleta” e sento-me no único banco vazio e lá vem ele delicadamente sentar-se ao meu lado.

  • Você estuda na Escola de Agrimensura? Pergunta ele sem olhar para mim.
  • Estudo. Digo secamente, mas sem animosidade.
  • O que vocês aprendem lá? Encorajado olha-me de frente.
  • Topografia, nivelamentos, levantamentos em estradas, redes de esgotos, aeroportos... enfim, todos os trabalhos que precedem os do Engenheiro Civil.
  • É que tenho um primo que quer entrar...
  • Faz muito bem, é profissionalizante, melhor que fazer Científico.
  • É muito puxado?
  • Não.

O “não” gerou a pausa. A pausa mudou a conversa.

  • Você já fez televisão? Reiniciou ele.
  • Bem, comecei a fazer Rádio e Televisão no “Monitor”. Mentira minha, mas tinha acabado de abandonar um curso de Desenho Arquitetônico por correspondência.
  • Não... pergunto se você já trabalhou em TV.
  • Ham?Nunca!
  • Eu trabalho sabe? Faço umas pontinhas e já fui cantor também. Sou ator profissional.
  • Ah, muito bom...
  • Você não quer fazer teatro? E ante meu espanto, continuou; Conheço tanta gente importante no teatro! Você quer que o leve para conhecer o Sérgio Cardoso, a Cacilda, ou Nídia Lice?
  • Ora amigo, calma! Assustei, mas dei continuidade à conversa. Se você tivesse falado comigo há dois anos atrás... Tento dar a impressão de um dia ter sonhado com a ribalta. O que não é totalmente mentira, embora não seja verdade.
  • Quantos anos você tem?
  • Dezenove. Quase.
  • Você trabalha?
  • Não.

Ele estava mesmo decidido a me cantar!

  • Você não quer ir agora fazer um teste? Disse olhando para o relógio em seu pulso.
  • Não, claro que não!
  • Você tem telefone?
  • Não. Verdade não temos o privilégio de ter  um em casa.
  • Então tome nota do meu...

Tomo nota, de seu nome também, em uma folha usada, destinada a ser jogada fora. Ele muda outra vez de assunto.

  • Toco cinco instrumentos!
  • Sempre quis aprender piano, mas é um instrumento muito caro... Verdade até tive algumas aulas de harmônica.
  • Meu apartamento tem um que está a sua disposição. Sábado nós vamos dar uma festinha.
  • Um baile?

A palavra baile, pela cara que ele fez, deu-me a impressão de quase ter causado asco.

  • Não! ... Bem... não sei se é baile. É que uma colega vai dar um concertozinho de piano... Sabe, ela é meio louca!
  • Gosto de gente louca.
  • Então vá, disse animado, dando um tapinha na minha perna e completando:  Isto é, se você não “escamar”... Como vê, tenho muita facilidade em fazer amizades, mas muita também em perdê-las. Bem, vou descer. Muito prazer e me telefone.

Desceu fazendo adeusinho com a mão. Fiquei no ônibus sorrindo sozinho. Que figura interessante, pensei, ando a procura de um personagem para um livro de contos... Eis a oportunidade.

Mas ao descer do ônibus, já encontrei minha turminha fazendo barulho no bar. Vi lá no fundo Bárbara abrindo um convidativo sorriso para mim. Esqueci-me completamente do “personagem de conto”. Pena, pois perdi também a oportunidade de me tornar ator e pianista. Mas Bárbara merecia isso.

Mateus Cosentino
Sampa – Revisão de 24.05.2017


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