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O ROUBO DAS JOIAS DA IMPERATRIZ - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 31/05/2017

O ROUBO DAS JOIAS DA IMPERATRIZ

F:\MC_05)_PublicTextosBLOGs\07 IlustraçõesPublicadas\2 IlustrInventeModa\2017\Y70531RouboJoiasImperatriz.jpgApós 60 anos da Proclamação Independência, o Segundo Império Brasileiro, sofria um momento desgastante na sustentação do regime monárquico. A Campanha Abolicionista adotada por diversos movimentos políticos e sociais agravava a situação do Governo Imperial. Embates envolvendo oposições ao regime iam desde uma Questão Religiosa até uma Questão Militar. A Monarquia via-se antagonizada por diversos setores da política e economia da nação, apoiados pela intelectualidade, importantes membros da imprensa e principalmente as Forças Armadas.

A Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado internacional em que o Brasil havia se envolvido por três anos, mobilizando grandes recursos financeiros e milhares de combatentes. Havia terminado há doze anos, mas ainda era uma das causas do generalizado descontentamento civil e militar. Por outro lado, a propagação e influência da Filosofia Positivista, propagada em importantes setores nacionais, justificava a desbravada contestação civil e da ala mais radical dos abolicionistas, que davam apoio à recusa do exército em perseguir os escravos que fugiam em massa das fazendas.

Foi nesse contexto de convulsão social que em um dia de 1882, os jornais do Rio de Janeiro, a capital nacional, amanheceram com uma manchete que abalou a corte, a plebe, a cidade e toda a nação:
“Roubaram as joias da Imperatriz”!

E seguia a notícia: “Nesta madrugada de 17 para 18 de março, um ladrão entrou sorrateiramente no Palácio de São Cristóvão, residência da Família Imperial, e surrupiou de dentro de um armário, todas as joias da Imperatriz Teresa Cristina e de sua filha, a Princesa Isabel. O tesouro roubado foi avaliado em 400 Contos de Réis, uma verdadeira fortuna”!

A partir desse fato, pela primeira vez a discreta vida doméstica de Família Imperial era exposta em público. Mais que isso, esse incidente se transformou no início de uma devassa de boatos maledicentes, folhetins irônicos e notícias escandalosas na imprensa sensacionalista, ansiosa pelo fim da Monarquia. A partir de um simples roubo, de maneira impiedosa explorava-se a intimidade, da Família Imperial, que desgostosa via revelados supostos mistérios, surpresas, suspeitas de adultério e outras particularidades com cores folhetinescas.

Casado em 1843, portanto 39 anos antes do fato descrito, D. Pedro II, Imperador desde os cinco de idade, casou-se por procuração, na ausência da noiva, a princesa napolitana, Dona Tereza Cristina, da casa de Bourbon-Duas Sicílias, três anos mais velha que o noivo.  Esse casamento começou muito mal, pois Pedro aceitara se casar pelo que vira em um retrato da noiva, mostrada com bastante beleza. Mas ao encontrar Tereza Cristina pela primeira vez, o marido decepcionou-se com a real aparência da noiva.

Assim, o casamento começou frio e sem romantismo ou paixão. Entretanto, com o tempo, melhorou muito graças ao mutuo respeito, devoção à família e às qualidades de Teresa Cristina. Esposa paciente, bondosa, generosa, de hábitos simples e distante dos assuntos políticos. Além disso, cônjuge obediente, sempre apoiou fielmente as posições do Imperador e nunca demonstrou suas próprias opiniões em público. Manteve-se em silêncio, mesmo quanto às supostas relações extraconjugais do marido.

Essas características da Imperatriz Consorte Dona Tereza Cristina, a fizeram ser tratada com enorme respeito no casamento e na corte, contribuindo para comover a população, que a chamava de “Mãe dos Brasileiros”. O casal imperial teve quatro filhos, dois meninos que morreram aos dois anos de idade, uma filha, a Princesa Leopoldina do Brasil, que em 1871 aos 24 anos, faleceu em consequência de febre tifoide.  A única descendente então viva do casal imperial era a Princesa Isabel, que na época do roubo contava 36 anos. Além desses membros do núcleo da família, eram assim considerados os genros, demais parentes e agregados.

Parte das joias roubadas havia sido usada dias antes, em cerimônia no Paço da Cidade onde se comemorava os 60 anos de Teresa Cristina. Após o baile, o casal imperial havia seguido para Petrópolis, tomando o cuidado de depositar as peças de valor em uma caixa, entregue aos cuidados de funcionário do serviço particular, que deveria guardá-las em segurança. Mas o criado não encontrou a chave do cofre e, acompanhado de outro empregado de confiança, foi até os aposentos imperiais e guardou a caixa dentro de um armário comum, de onde as joias desapareceram.

Logo que se constatou o roubo, o Ministro da Justiça, o delegado e toda a cúpula policial da Corte foram acionados para dar início imediato às investigações. Cordas deixadas no muro do palácio criaram a primeira hipótese policial de que o ladrão teria sido um invasor externo. Mas logo se constatou que tais cordas ali “plantadas” eram provas falsas. Então ficou claro que o larápio era de dentro do palácio. Após eficiente interrogatório, os dois funcionários de “confiança” confessaram e confirmaram a participação e acusaram como “autor intelectual do crime” um ex-funcionário do palácio, visto circulando pelo Paço na noite do roubo.

Com a ajuda do próprio incriminado, os policiais cavaram o lamaçal nos fundos da casa desse terceiro suspeito e encontraram o tesouro dentro de latas de biscoito ali enterradas. Nas latas havia dezenas de adornos raros e valiosíssimos, entre eles pulseiras, broches, comendas e colares de ouro incrustados de centenas de pérolas, brilhantes e outras pedras preciosas.

Mas os opositores da Monarquia, apesar de o crime ter sido elucidado rapidamente, ficaram com muitas dúvidas que exigiam serem esclarecidas. Em primeiro lugar queriam saber porque os três culpados do roubo foram imediatamente soltos. Outro fato muito intrigante era explicar porque o autor do crime, que anteriormente já havia sido afastado do serviço do palácio por suspeita de roubo, morava em uma casa pertencente à coroa, situada na Quinta da Boa Vista e porque, mesmo após o roubo das joias, continuou a morar na mesma casa, a poucos metros do lamaçal onde havia escondido o produto do roubo. Estranhamente também, ainda após o roubo, o funcionário encarregado de guardar as joias da Imperatriz continuava de posse das chaves do palácio.  

Os detratores levantavam também suspeitas sobre o fato de que os dois policiais que solucionaram o crime terem sido agraciados por D. Pedro II, um com a Comenda da Rosa e outro o grau de cavaleiro. Esses inimigos acusavam o Imperador de que ao agradá-los, só poderia estar querendo comprar o seu silêncio, pois no curso das investigações, diziam eles, teriam descoberto fatos desabonadores da conduta conjugal do imperador.

Diante de tantas suspeitas a imprensa se indignou. Nessa revolta, dando menos valor ao furto em si, do ao seu  conteúdo político, a Gazeta de Notícias bradava: “No Brasil não há legalidade”! “O Brasil é uma folia organizada”! Inclusive o fato das joias terem sido descobertas em um lamaçal, dava motivos para a oposição dizer que a justiça do Império estava “enterrada na lama”.

Posteriormente, durante toda a República e até os dias de hoje, a expressão “mar de lama”, ali surgida, sempre foi usada em diferentes ocasiões e nas mais diversas circunstâncias de governo.

Mateus Cosentino
Sampa – 31.05.2017

Nota: Os fatos descritos neste texto foram baseados em  diversos artigos da enciclopédia livre Wikipédia e particularmente da página 68 da Revista de História da Biblioteca Nacional de junho de 2007, em relato assinado por Bárbara Simões Daibert e Robert Daibert Júnior.  




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