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Miriqui - Helena Borborema

Postado por Rilvan Batista de Santana 11/05/2017

Miriqui


Já se passaram muitos anos. Felizmente, nenhum trauma ficou do acontecido, apenas a lembrança. Hoje acho graça quando falo sobre o episódio, mas na ocasião foi um verdadeiro drama na minha vida de criança. Tinha eu uns seis anos de idade e, não sei por que circunstâncias era bastante voluntariosa, querendo sempre ser atendida nos meus desejos. Quando contrariada, armava verdadeiras cenas. Se estivesse na rua, sentava na soleira da primeira porta que encontrasse e teimava em não continuar a caminhada. Só saía, debaixo de muito agrado. Quando resolvia não calçar os sapatos, era  preciso muita persuasão e adulação, para conseguirem que eu atendesse. Para tomar óleo de rícino, quando achavam que era preciso, o que era o meu pavor, aí então eu fazia verdadeiro escândalo, correndo em cima da cama, recusando todas as promessas e presentes.

          Mas havia uma empregada que cuidava de mim, naquele tempo chamada ‘ama de menino’ em vez de ‘babá’, e esta astuciou um meio de acabar com as minhas teimosias. Contou-me a história de um preto velho chamado Miriqui, que andava pelas ruas com um cacete nas mãos e um enorme saco de couro às costas, cheio de meninos teimosos que ele ia pegando. “E o que era feito com esses meninos?, perguntei eu, muito interessada. Eram levados para o sertão e nunca mais viam nem o pai nem a mãe. Miriqui batia nos meninos com o cacete e mandava que eles cantassem: “canta, canta, meu surrão, se não te dou com o meu bordão”. “E ele pagava gente grande?”, perguntei medrosa, pensando em meus pais. “Às vezes, quando encontrava”, respondeu a narradora, muito séria. É evidente que esta história me apavorou. Logo visualizei a figura horrível de Miriqui, velho, magro, de barbicha, com o cacete na mão e o saco para esconder os meninos. E o sertão, o que era? Era um lugar longe, muito longe, todo cinzento, sem casas, uma espécie de túnel por onde Miriqui passava com o enorme saco, andando, andando, e os meninos chorando, sem nunca mais voltar para casa, explicou-me a ama.
 
          A pedagogia da minha ama Antonia era a do terror e surtiu certo efeito. Mas talvez, devido ao bem querer de que eu era cercada, logo esquecia a terrível  história e, quando recomeçava uma das minhas cenas, a ameaça me alertava: ”Vou chamar Miriqui!”. A teimosia acabava de imediato.

           Um dia, à tardinha, estava bem tranquila, brincando com minhas bonecas num canto da sala. Era a hora de meu pai voltar para casa. De repente ouvi um vozerio na rua, bem perto, palavras alteradas. Trepei numa cadeira e fui espiar da janela. Alguns curiosos se dirigiam para a esquina próxima, quando, acompanhando com atenção a movimentação do grupo, dei de olhos com uma cena terrível: um velho alto e magro, negro, de barba comprida, com um saco nas costas e um cacete na mão, esbravejava e rodopiava sobre o passeio. Não sabia eu que o velho era um bêbado contando bravatas. Diante de tal figura, só podia pensar em Miriqui. Sim. Era ele verdadeiro. O que aquele espetáculo produziu no meu espírito naquele momento de pavor, podia ter deixado marcas no meu sistema nervoso. Estava vendo o Miriqui em carne e osso. Lembrei-me que o meu pai ia chegar e, sem nada saber, ia passar perto de Miriqui, que logo o pegaria, jogaria no saco e o levaria para o sertão, de onde não mais voltaria. Miriqui ia pegar meu pai! A imagem que formei foi de terror. Entrei em crise de choro e gritos de desespero tão forte, que não sei como esse abalo emocional não me deixou marcas para o resto da vida.

         Talvez a presteza com que minha mãe me abraçou e as suas palavras de segurança me protegeram. Na mesma hora, meu pai foi chegando, trazendo paz ao meu espírito de criança. Esse episódio foi tão traumático que nunca se apagou da minha memória. Ainda hoje revejo claramente a minha figura pequena da janela olhando a cena, com o coração aos pulos e os meus gritos de terror. Felizmente, a infância cercada de amor e a afetividade e segurança em que vivi, fizeram com que a pedagogia maluca da minha bem intencionada ama perdesse o seu efeito. Fizeram-me compreender que o terrível Miriqui não existia e a sua lembrança, hoje, só me faz achar engraçado o episódio quando penso nas meninas bobas do meu tempo, pois aquele Miriqui que aterrorizou  não só a mim como a outras crianças do passado, não creio que hoje merecesse nenhuma credibilidade ou temor da meninada, tão acostumado está o mundo com o contato diário e normal com os seres terríveis e perigosos dos filmes com que a TV nos presenteia diariamente. A figura de um Miriqui para qualquer criança, hoje, seria completamente ridícula e desacreditada.

           Mas, se um imaginário Miriqui foi arquitetado na minha infância para meter medo a crianças teimosas, hoje, infelizmente, o mundo está cheio de Miriquis reais que foram nascendo com a maldade humana, os desajustes sociais, o desemprego, a ausência de Deus nos corações, os péssimos programas  e enredos da TV e do cinema, verdadeiras fábricas de Miriquis. Dia a dia estão sendo clonados pela impunidade, e aí estão eles, espalhados nas cidades, nas ruas, nos ônibus, nas casas, estradas, encontrados a cada instante e por todos os lados, fazendo vítimas. O Miriqui da minha infância, que me atemorizava, nunca existiu, a não ser na minha mente infantil, produto de histórias inventadas, mas os de hoje são perigosos porque reais. O surrão que carregam está repleto de drogas, maldades, e saem eles por ai à cata, não de crianças teimosas,  mas de qualquer pessoa que se enquadre na sua mira, jovens, pais de família, todos aqueles de quem possam tirar proveito ou dar expansão aos seus instintos cruéis. Em lugar do bordão, carregam revólveres e metralhadoras. Com sua maldade, vão deferindo golpes mortais no corpo, no patrimônio dos que vão encontrando pelo caminho. E de maldade em maldade, de crime em crime, lá se vão eles medonhos, amedrontando, trilhando os túneis cinzentos da vida.
Fonte:

 (“RETALHOS”)

Helena Borborema

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