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Velho Braga, caçador de melancolias - Hélio Pólvora

Postado por Rilvan Batista de Santana 18/04/2017

Velho Braga, caçador de melancolias -  Hélio Pólvora

Diziam os antigos autores de máximas que quem semeia ventos colhe tempestades. O cronista Rubem Braga, o velho Braga de Cachoeiro do Itapemirim, saiu à cata de ventos e recolheu melancolias, conforme está numa de suas crônicas e Carlos Ribeiro utiliza como título de sua tese de mestrado em Teoria da Literatura (Ufba).
 
A julgar apenas por essa atitude, Rubem não foi tão contemplativo quanto faz crer. Também se pôs em campo. Saiu, em outro exemplo, com a Força Expedicionária Brasileira para narrar-lhe os feitos na campanha da Itália - missão jornalística cumprida à risca. Homem de jornal, desde a adolescência, quando colaborou numa folha de menor importância e dela saltou para o Diário de Minas, Rubem jamais se desligaria das redações. No jornal, escrevendo crônicas e reportagens, forjou a sua identidade profissional. No jornal permaneceu até à véspera da morte, sempre escrevendo, quase sempre cronista. Mesmo na condição de colaborador, o jornal era-lhe uma segunda natureza, o prolongamento da casa - e talvez a própria casa.

É natural, porque, sendo ele essencialmente cronista, o jornal haveria de ser o seu manancial. Carlos Ribeiro comprova, neste Caçador de Ventos e Melancolias, que a crônica advém do folhetim (este, por sua vez, um derivado do feuilleton), em meados do século XIX, estampados todos eles em jornal. O advento da sociedade industrial, lembra ele, criou necessidades de comunicação e leitura, além de formar um público pequeno-burguês que dispunha de vagares e ócios. O que eram tais folhetins, nos quais afadigaram-se autores de porte, como o nosso Machado de Assis, o romancista Balzac narra em Les Illusions perdues.
 
A crônica, tal como a conhecemos e praticamos hoje (registro de estados de ânimo, comentários sobre fatos do cotidiano, banal matéria biográfica ou densa página de cunho existencial), advém dos faits divers, aquelas colunas de prosa leve e solta, tantas vezes leviana, do jornalismo diário ou semanal. Nasce para morrer logo, como as cigarras, atiçada pelos estios que a condenam ao efêmero - mas, se suplanta as circunstâncias, conduzida por um cronista-escritor, vinga como gênero literário.
 
Sei que alguns críticos negam-lhe o status de gênero, aferrados que estão a uma teoria de gêneros literários que a fusão atual dos gêneros já mandou para as urtigas. Felizmente, ao escrever não pensamos nos críticos, nem a eles nos dirigimos. O conto literário, que gozou, como a crônica, das oportunidades da leitura breve e rápida, graças à difusão dos rodapés e das revistas (na Europa, uma affluent society expandiu as oportunidades de ensino), passou por evolução assemelhada, mas ainda é olhado de banda, principalmente por editores.

O velho Braga foi cronista, de ponta a ponta do seu leque, tal como Dalton Trevisan foi contista. Dois casos singulares. Tal exercício contínuo fez com que se ouvisse a crônica e o conto com maior atenção e lhe dedicassem espaço nos jornais. Se não fixou o gênero, porque, entre nós, tem antecessores ilustres, como João do Rio, Medeiros e Albuquerque, Olavo Bilac, Humberto de Campos e, naturalmente, Machado, o cronista do Cachoeiro reforçou-lhe o alento. Já por isso mereceria homenagens.

Mas talvez Rubem, cronista visceral, estivesse esquecido, ainda que passados somente uns dez anos do seu falecimento, não fossem circunstâncias de meio e de época. Cada vez que utilizamos esses termos, os formalistas da obra pela obra, inimigos da historicidade e, provavelmente, saudosistas da turris eburnea, se eriçam. Mas não haveria escritor, por mais talentoso, que se desse ao luxo de menosprezar a conspiração dos fados. São esses fados, as circunstâncias históricas, que os situam na esquina adequada. Há que estar na esquina certa, na rua certa e no tempo exato, e com vontade de abrir portas. José Lins do Rego, cujo centenário de nascimento transcorreu há pouco, escreveria hoje o Ciclo da Cana-de-Açúcar?

Rubem Braga pertenceu a uma geração de esperançados que não tardaram a se desiludir. Considero esta geração atual mais vulnerável, porque, perdida a esperança, e toda a esperança, restou-lhe o medo. Ainda podia apanhar, o Rubem, nos seus campos de centeio, algumas alegrias, alguns lampejos de beleza fugaz. Hoje, recolhemos melancolias fundas e também corpos inanimados. Hoje, Rubem teria motivos dobrados para ser o que dele diz Carlos Ribeiro - “melancólico e envelhecido, inadequado ao seu tempo e lugar”.
 
Mas, se o poeta é fingidor, o cronista também finge. Há nas atitudes sombrias dos cronistas, e nas suas “filosofias pardas” (a expressão é de Benito Perez Galdós), uma certa pose. Uma espécie de simulação irônica que não escapa à análise de Carlos Ribeiro, quando menciona, em Rubem, “a ironia manejada contra si mesmo” - atitude herdada de outros cronistas e que, por conseguinte, parece fazer parte da poética do gênero. De qualquer modo, a moldura de época foi favorável ao velho Braga, que contou com a conjuração da amizade. Carlos Ribeiro enumera alguns de seus muitos amigos, como Bandeira, Drummond, Otto Lara Resende, Houaiss, Portela, Antônio Cândido, José Paulo Paes. Deles partiu a crítica de boca que teceu em torno da obra de Rubem o acolhimento unânime. E Ribeiro atesta que ele é pouco estudado, mas seus livros retornam em novas edições.

A confraria de espírito já não funciona com a naturalidade daqueles tempos. Poetas, cronistas, contistas e romancistas travam hoje a sua guerrinha de Brancaleone. É mais difícil, certo, mas nem por isso deixa de chover poesia, em lufadas ou aguaceiros, deixa de cair em pancadas a chuva de contos e crônicas. Regurgita o nosso lirismo nas canaletas, e nem sempre há ouvidos disponíveis.

Dois aspectos neste correto estudo sobre Rubem Braga merecem atenção: o leve tratamento do aparato teórico que, em teses universitárias, costuma enfastiar; o empenho de Ribeiro em acompanhar a história. Ele sabe que o texto não brota por geração espontânea, e então, para fazê-lo mais expressivo, vai fincando marcos econômicos, políticos e sociais. Nesse balizamento que tanto ajuda a emoldurar o velho Braga, vemos que a lírica bracarense está atrelada a um tempo e suas circunstâncias, há nela um “compromisso visceral com a realidade social do tempo em que viveu”.

A verdade que Rubem Braga buscou extrapola do texto jornalístico, é a verdade ficcional do instante revelador. Assim entende o ensaísta, assim entendemos nós. Ele é um transfigurador da realidade, não para deformá-la sectariamente, nem substituí-la, senão para recriá-la.
Crônicas que a alguns desavisados poderiam parecer contos, como “Lição de Inglês”, “A Borboleta Amarela”, “Eu e Bebu na Hora Neutra da Madrugada” e “Um Pé de Milho”, em que o cronista dialoga com o seu risonho demônio, atestam a sua necessidade de trabalhar uma composição em circuito fechado para melhor refletir o que Virginia Woolf chamava de “estados de consciência”. Braga não praticou a escrita artística, como o seu conterrâneo José Carlos Oliveira (o Carlinhos de Oliveira citado pelo ensaísta), que sob este aspecto lhe foi superior. Não quis escrever bem e bonito, com uma densidade intencional; desejou apenas tocar no nervo.

Carlos Ribeiro formula votos para que o seu livro estimule “a pesquisa de outros escritores que exerceram e exercem a crônica no Brasil”. Faz ele bem. Após os nomes dito nacionais, estão alinhados os da Bahia, entre os quais me vejo incluído. Só não julgo pertinente a distinção, que também foi feita por Aramis Ribeiro Costa em recente resenha na revista Iararana, ainda mais quando eu e outros, confessadamente baianos, publicamos livros de crônicas no eixo Rio-São Paulo. Iniciei-me como cronista em 1962, com A Mulher na Janela, editado no Rio de Janeiro, onde assinei crônicas no Shopping News (tiragem dominical de cem mil exemplares), em revistas, no Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Diário Carioca. No mais, é louvar também o aspecto gráfico e a revisão de Caçador de Ventos e Melancolias, devidos aos cuidados de Flávia di Garcia Rosa, da Edufba, e desejar que o velho Braga de Cachoeiro do Itapemirim continue a chamar os ventos.



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Hélio Pólvora – (Itabuna, em 1928 – Salvador, 26 de março de 2015) foi jornalista, cronista, crítico literário, crítico de cinema e escritor brasileiro.
Conquistou prêmios literários de nomeada, entre os quais os da Bienal Nestlé de Literatura, anos 1982 e 1986, para contos (1.º lugar), e mais os prêmios da Fundação Castro Maya, para o livro Estranhos e Assustados, e Jornal do Commercio, para Os Galos da Aurora. Assina cerca de oitenta traduções de livros (ficção romances, contos e ensaios). Visitou a Colômbia, Estados Unidos e Alemanha, a convite oficial, e conhece bem, além do Brasil, a Europa Ocidental.
Membro da cadeira 29, da Academia de Letras da Bahia, membro também da Academia de Letras do Brasil, ocupou a cadeira 13, tendo como patrono Graciliano Ramos, e membro da Academia de Letras de Ilhéus.  Wikipédia.


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