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RECEITAS DE BOLO E VERSOS DE CAMÕES

Postado por Rilvan Batista de Santana 19/04/2017


Ao entrar em 1968, na Faculdade Filo USP, o trote era participar das concorridas assembleias diárias. Calouro, não muito afeito a discussões político-ideológicas, passei algum tempo querendo saber quem era de direita e quem era de esquerda. Demorei muito para entender que todos eram socialistas festivos, brigando pelo poder e com argumentos muito parecidos e acalorados.

RECEITAS DE BOLO E VERSOS DE CAMÕES


Perguntando aos veteranos, acabei sendo informado sobre as tendências dos participantes. Havia desde os ortodoxos seguidores do partidão até os combativos trotiskystas e maoístas. Usavam chavões próprios de cada facção, mas não pareciam estar disputando nenhuma primazia ideológica.
F:\MC_05)_PublicTextosBLOGs\07 IlustraçõesPublicadas\2 IlustrInventeModa\2017\Y70419Receitas de Boo e Versos de Camões.jpgTateando no proselitismo de uns e outros, procurei me posicionar entre os mais moderados. Logo fui convidado para uma reunião em uma “célula” onde tentaram me convencer da força da classe estudantil como “conscientizadora” do operariado e, portanto que tínhamos de tomar a frente para ajudar os proletários a enfrentar o domínio explorador da elite burguesa. Perguntei incrédulo, onde estavam as armas da classe estudantil, para enfrentar o exército. Olharam-me estranhamente, mas não me deram nenhuma resposta.

Entretanto, embora houvesse muita festividade acadêmica, uma grande parte dos companheiros era composta de idealistas utópicos de verdade. Tanto era assim, que nos anos seguintes alguns, foram presos e até mortos, na estúpida e politicamente equivocada luta armada contra a ditadura.  

Era o ano do famigerado AI5, o cala boca autoritário. Fui testemunha de passeatas, mortes em frente ao edifício da Rua Maria Antônia e  briga contra os direitistas do Mackenzie. Consegui ver a estupidez dos meus colegas engajados e juntei-me aos que medrosamente se escondiam nas sombras, ou simplesmente se calaram.

Escapei de maior envolvimento, porque aos 26 anos já tinha maior vivência que a maioria dos meus colegas, seis ou sete anos mais novos que eu. Meu comportamento de aparente neutralidade, juntado ao fato de frequentar as aulas noturnas de paletó e gravata – traje exigido no meu trabalho -  fizeram-me suspeito de ser reacionário. Vivíamos em ambiente de atividades clandestinas e cotidiano medo, portanto todos mantinham um cuidado excessivo com tudo o que parecesse suspeito ou simplesmente diferente. Mas eu, como muitos,  apenas saí de banda, saí de leve, antes que o DOPS me carregasse.  

Levou muito tempo para “a esperança substituir o medo” que acostumei a sentir. Mais tempo até que os 21 anos  de duração da ditadura. Hoje, quase 50 anos depois, deixei de lado meus temores e consigo novamente defender minhas ideias e ideologias... nas Redes Sociais da Internet.

Nem seria mais viável começar a ser um ativista aos 74 anos de idade. Meu tempo de “práxis” já passou. E mesmo que ainda tenha forças para lutar, minhas convicções esbarram em um grande desencantamento com todos aqueles que assumiram o poder e, para alcançar seus objetivos nobres ou inconfessáveis, usam o critério de que os fins justificam os meios. Eis um maquiavelismo com o qual jamais concordei.

Passamos 21 anos de um período obscurantista, onde apenas líamos receitas de bolos ou versos de Camões nos jornais censurados pela ditadura. A famigerada censura assim se justificava: “Impedir a publicação de notícias sobre a corrupção era parte da estratégia de segurança nacional” e assim impedia que muitos escândalos sequer chegassem aos cidadãos comuns.

Desse modo, a maioria dos meus idosos contemporâneos desconhece o que realmente acontecia naqueles tempos de chumbo, em que eles viveram sem tomar conhecimento dos fatos censurados e escondidos. Alguns, oportunistas ou desavisados,  são os  nostálgicos da ditadura. São idosos como eu, ou jovens que não viveram naquela época, achando  que o no tempo do autoritarismo militar não havia corrupção.

Entretanto hoje podemos tomar conhecimento, através de livros, sites e jornais, da corrupção que então havia. Podemos até saber que o  General Geisel utilizou a corrupção existente na ditadura militar como uma das justificativas para iniciar a abertura política. Disse ele: “Porque a corrupção nas Forças Armadas está tão grande, que a única solução para o Brasil é abertura”.

Muitas histórias da ditadura ficaram submersas e somente com a volta da democracia estão podendo ser contadas para quem quiser saber e quem não quiser se manter na ignorância dos acontecimentos desse triste período de equivocado autoritarismo, gerador da igualmente equivocada luta armada.   

Por outro lado, os tempos são outros e é hora é de rever, sem parcialidade ou sectarismo, o nosso passado recente. Se se acabaram os anos de chumbo, acabou-se também aquele antigo socialismo, que hoje ainda persiste apoiado em figuras de um populismo ultrapassado.  

E temos também que redirecionar nossas memórias tendentes a enaltecer e mitificar em demasia nossa juvenil participação política do passado. O historiador Boris Fausto nos ajuda, relembrando que:

“Quando se fala das passeatas da UNE, dos protestos, imagina-se que os estudantes estavam todos se movendo. Não é bem assim. Na verdade, nós que nos mobilizávamos, nós que atacávamos a ditadura, sempre fomos uma minoria”.

E eu, em particular, devo sempre informar que minha mobilização foi quase nenhuma. Sempre fui apenas um intimidado ouvinte, atento e interessado, exemplo de uma geração politicamente perdida.

Mateus Cosentino
Sampa – 19.04.2017

NOTA POSTERIOR: Este texto daria um bom combate ante as prováveis controvérsias que os amigos poderiam ter. Entretanto as redes sociais me ensinaram que ninguém mais aceita discutir ideias. Ninguém mais sabe debater sem ofensas e exclusão da amizade. E como sempre se criam mágoas, irei ficar só “curtindo” e aplaudindo a louvável lógica da construção das teses que porventura vierem a me contradizer. Tenho tão poucos amigos e não os quero perder. (Lei da Amizade Virtual.)

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