Saber-Literário

Diário Literário Online

POLÍTICA E MISÉRIA - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 26/04/2017

POLÍTICA E MISÉRIA

E por falar com um amigo sobre o fim do Coronelismo, acabamos nos aprofundando nesse assunto maçante de donos do poder, populismo, miséria  e ideologia. Concordávamos que era preciso priorizar o combate à miséria da parcela do povo que vive em situação de pobreza crônica, sofrendo e passando fome. Concordamos também que era preciso acabar com os “robins hoods invertidos”, que roubam dos pobres e os falsos “antônios conselheiros”, esses novos coronéis demagogos que trazem migalhas aos necessitados e enganosas promessas de fartura, criando esperanças e o sonho de viver com um mínimo de dignidade.
 
Após alguns argumentos e contra-argumentos, percebi que estávamos mantendo uma interminável discussão, concordando com a doença diagnosticada, mas discordando da profilaxia de tratamento. Esse tipo de porfia deixa de lado o fato causador da discussão, para cair no lamaçal da abstração. É deixar de lado a solução prática do problema, para cair na tentação de teoriza-lo através da imposição de ideologia.

Percebendo isso, parei o rumo da conversa com a citação de uma entrevista que li no jornal. O repórter perguntou ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: “Professor, por que o PSDB se opõe tão fortemente ao PT, se ideologicamente os dois partidos são tão semelhantes"? Respondeu FHC: “Não brigamos por ideologias, mas pelo poder”. A resposta é surpreendente, mas correta. Se o objetivo é o poder, nem importa a ideologia. Em geral os políticos objetivam o poder, enquanto, para eles, o povo carente é apenas o tema de um discurso demagógico para atingir suas metas eleitoreiras.

Eis aí a essência da “demagogia do poder”: A fragilidade e carência econômica do povo sempre foram estimuladas pelos donos do poder, através de um canto de sereia, com promessas de acabar com a escassez da parcela miserável de uma população que não tem nem condições básicas de sobrevivência familiar. Pois, ante a miséria, apenas as necessidades primárias ocupam suas mentes. Apenas importa a premência de trazer para casa o “pão de cada dia”. Como há de ter aí alguma prioridade, a ideologia, a ética ou a moral?

Claro que é preciso eliminar a ignorância, educar e instruir o povo para dar valor a essas necessidades abstratas não básicas e identificar a bandidagem de colarinho branco para acabar com ela. Mas como preocupar-se com isso, quando é preciso usar todos os esforços para manter cheias as barrigas miseráveis e verminosas da família? Como educar quem não tem o quê comer?

O Brasil é um país pobre. Conforme dados de 2015, cerca de metade da população (46%), ou seja, 95.000.000 de pessoas têm uma renda familiar de até CR$1.356,00. Isso equivale a 22.500.000 de famílias, com um máximo de CR$ 321,00 para cada membro do domicílio. E mesmo com 84% da população vivendo em zonas urbanas o grau de escolaridade é tão baixo que 75% da população mal sabe ler. Isso significa que mais de 150.000.000 de brasileiros são analfabetos funcionais.

Estes números demonstram que combater a miséria não é apenas um ato de compaixão. Deixam claro também que dar oportunidades a essa parcela carente da população é uma necessidade econômica. Essa metade de brasileiros consome entre 3% e 10% do que se produz no mercado Portanto, instrução, emprego e melhores condições de vida não são lutas de quem “gosta de pobre” e nem de quem tem uma “ideologia esquerdista”. A eliminação da miséria é a única via para transformar o nosso Brasil em uma nação desenvolvida e livre da carga da ignorância e dos desvalidos.

Mas em meio às classes mais abastadas da elite e da classe média, muito atrapalham as atitudes de ódio aos menos favorecidos. Por medo ou ignorância, essas minorias confundem a necessidade de acabar com a pobreza, com a pretensão de acabar com os pobres. 

Aliás, foi este tipo de atitude que me estarreceu e motivou a concluir este artigo. Fiquei horrorizado ao deparar em um blog com o seguinte texto:

“Sou classe média alta e ganho CR$ 8.000,00 e odeio os pobres que ganham Salário Mínimo e acham que estão podendo. Confesso que tenho muito ódio e raiva dessa gente pobre ridícula que não tem onde cair morto e adora comprar as coisas no crediário das casas Bahia, curte assistir Ratinho, Sônia Abraão, perdem tempo vendo BBB e frequentam o Pastor Valdomiro. Tenho nojo dessa gente porca que come churrasco grego na rua e arrota caviar”!

Surpreso, quis pesquisar quanta gente pensa assim. Evidentemente não obtive essa quantificação. Muitos pensam, mas não confessam. Temia que tais posturas fossem predominantes “na elite reacionária paulista”, mas o preconceito é mais abrangente, é nacional. Tanto é assim que na busca de “quem odeia os pobres" encontrei um artigo no Site Pragmatismo Político, que reporta algumas posturas preconceituosas publicadas por “dondocas” cariocas. E, após elas, o site conclui:

“O que incomoda a elite não é a perda de direitos, mas de privilégios. Esses privilegiados têm horror em imaginar encontrar o filho do motorista estudando na mesma faculdade que o dele, ou encontrar sua manicure fazendo compras naquela que era a sua loja preferida. (...) Não muda nunca a ideia de ‘apartheid’ social que enche os olhos da classe média alta brasileira, incomodada em ter de respirar o mesmo ar, dividindo-o com segmentos miseráveis e marginais da população”.

O ódio social ou político demonstram a ignorância daqueles que têm medo, não têm argumentos e nem razão.

Mateus Cosentino

Sampa  – 26/04/2017


0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Perfil

Perfil
Antônio Cabral Filho - Escritor e coadministradores

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

Patrono

Patrono
Machado de Assis

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Tecnologia do Blogger.