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Os Mascates - Helena Borborema

Postado por Rilvan Batista de Santana 30/04/2017

Os Mascates - Helena Borborema

"Retalhos" de Helena Borborema
Itabuna (BA)
Até hoje não sei como a notícia chegava à minha casa. Não havia telefone, não havia rádio, nem propaganda de alto-falante; havia distância, mas a grande notícia vinha. Nunca perguntei como, por isso fiquei sempre na ignorância e ainda hoje é um mistério para mim. O certo é que ouvia minha mãe dizer: amanhã cedo vamos ver seu Gabriel, ele chegou. Esta frase para mim, menina, era como se me anunciassem uma visita ao céu. Eu vibrava de contentamento. À noite, ia dormir embalada na alegria do grande passeio que ia dar. Pela manhã cedinho, era acordada: “levante, está na hora!”. Que despertar maravilhoso eu sentia. Tínhamos de sair antes que o sol esquentasse, porque a caminhada era grande. Tomado o café, partíamos para o que eu considerava a grande aventura. Minha mãe comigo pela mão, a empregada com a minha irmã no braço, e um moleque para trazer os embrulhos. Da Rua Paulino Vieira, onde eu morava, até à Caixa d’Água, a esticada era grande. O sol ainda estava baixo. Íamos a pé, acompanhando a estrada de ferro. Logo no início, um grande empecilho: um alto pontilhão sobre o qual passava o trem. Aí parávamos e minha mãe ficava à espera de alguém que nos desse a mão e ajudasse uma a uma a pisar sobre os grandes e altos dormentes do pontilhão. Essa ajuda era fácil, porque a estrada era movimentada e nunca faltava um passante musculoso e prestativo. Vencida esta primeira etapa, a caminhada era feita sem tropeços, e eu adorando aquela aventura.

          Diversas casas se estendiam no alto do barranco que ladeava a estrada de ferro por onde passávamos. Esse trecho era chamado de Rua da Linha, por causa da linha férrea, e hoje corresponde à Avenida Ilhéus. A casa de seu Gabriel ficava mais adiante, na Caixa d’Água, então apenas uma ruazinha pouco mais além da atual Igreja de São Judas Tadeu. Enquanto andava, a minha alegria era pular sobre os dormentes e catar malmequer e florzinhas outras que cresciam no mato, ao longo do caminho. E assim, chegávamos à casa de seu Gabriel Bittar.

          A freguesia que aos poucos ia chegando, era recebida com toda a afabilidade pelo comerciante, no balcão da loja de tecidos que ficava na sala da frente de sua residência. Seu Gabriel, não sei se era sírio ou turco, tinha cabelos grisalhos, bigode, e fala com sotaque. As prateleiras estavam cheias de peças de tecidos que ele ia buscar diretamente em São Paulo. Ele vendia desde os tecidos de algodão, tricolines, algodãozinho, morim, cretones, até às mais finas cambraias de linho. Linho belga importado. Tudo ali era mais barato do que no centro da cidade. Uma cadeira era oferecida à minha mãe porque as compras eram demoradas, e ela, sentada, ia fazendo as suas escolhas. Metros e metros de tecidos para a roupa das empregadas, para panos de prato, lençóis, fronhas. Havia também boas toalhas de banho e de mesa prontas. Seu Gabriel também trazia bolsas de couro e outros artigos que estivessem em moda e lhe fossem encomendados.
 
          Na loja, nenhuma distração havia para mim, apenas ficava sentada num banco ao lado da parede, olhando a entrada e saída da freguesia com seus enormes embrulhos, e o puxa-estica dos preços na hora do pagamento. Feitas as compras, ficava às vezes a lista das encomendas que seu Gabriel devia trazer da próxima viagem a São Paulo. A volta para casa era feita obedecendo o horário do trem: muito antes que ele passasse e atendendo também ao sol, antes que esquentasse muito. Para mim, valia o passeio, que eu achava uma maravilha.

          Seu Gabriel não vendia sedas, estas eram compradas nas mãos dos mascates já conhecidos, vindos do Rio e São Paulo, que traziam para vender na cidade sedas puras lindíssimas, gazes as mais leves, rendas lindas para vestidos, perfumes franceses legítimos, vestidos prontos, meias finíssimas. Esses mascates eram dois lituanos, um de nome Maurício  e outro irmão de seu Elias Grimann, dono do Elite Bar, dois outros de origem russa e um libanês. Eram homens que se apresentavam bem trajados, de terno, gravata, pessoas tratáveis e que traziam as suas sedas em grandes malas de couro carregadas por um empregado. Alguns comerciantes, também de origem europeia, apareciam às vezes vendendo lindos casacos de peles, estolas de arminho e raposa ártica, casacos de astracã. Era um luxo que o clima da cidade não permitia. Mas que o dinheiro proporcionava às ricas senhoras da época, que tinhas nos cacauais o seu império.
 
          Também apareciam vendedores de joias, homens credenciados  que levavam em casas escolhidas as suas mercadorias para vender, bem como os japoneses que, vez por outra, apareciam vendendo bonitos colares de pérolas artificiais, outros vendendo brinquedos e ornamentos de sua arte, o origami.

          Assim, as famílias ricas de Itabuna podiam se dar ao luxo do bom e do melhor sem precisar viajar para comprar, porque a fama do dinheiro da cidade atraía comerciantes que queriam fazer bons negócios.

          Outro vendedor que frequentemente aparecia na cidade era o mascate de rendas de bilros ou de almofada. Aqui chegava, vindo do Ceará e Sergipe, o Norte como chamavam na época. Esse mascate ia de casa em casa, carregando grande valise de couro numa mão, e na outra um volumoso embrulho amarrado por grosso barbante. O seu comércio constava de peças de bonitas rendas, largas ou estreitas, com elaborados desenhos, confeccionadas pelas artesãs do “Norte”. Além das peças de rendas, traziam também, feitos com bilros de almofada, panos para decoração de móveis dos mais variados tamanhos e formatos: compridos, ovais, redondos, quadrados. Panos para bandeja, ricas toalhas de mesa e colchas. Ao lado das rendas, vinham também toalhas de tecido, bordadas à máquina no chamado “ponto batido”, nos mais lindos coloridos, com motivos de frutas e de flores. Tinha desde as chamadas toalhas de chá até as grandes para banquetes. Trabalhos primorosos como só as mãos treinadas das rendeiras nordestinas podiam confeccionar. Dos mascates do Nordeste, hoje poucos ainda circulam na cidade.

          Mas o comércio de Itabuna não era só isso. Além do cacau, principal fonte econômica do Município, a cidade vivia também do seu grande, forte e permanente comércio de tecidos, calçados, presentes e artigos outros, sem falar nas grandes casas de ferragens como a dos senhores Nicodemos Barreto e Júlio Sergipano, grandes armazéns comerciais como os do Sr. Astério Rebouças, João Franco e outros. As lojas de tecidos eram sortidas de artigos finos e variados, e muitas outras havia de tecidos populares. “O Crisântemo”, do Sr. Francisco Benício, era casa conceituada e uma das mais antigas; o ”Parc Central”, do Sr. Carlos Maron; a “Casa Stella”, o “Beija Flor” – um misto de armarinho e loja de brinquedos -, a “Casa Brasil”, dos irmãos Kauark; a loja do Sr. Augusto Andrade, de grande conceito e artigos variados, inclusive para presentes, eram conhecidas. O Sr. Francisco Fontes tinha também grande loja de tecido popular. A cidade possuía ainda boas livrarias, como a de seu Guedes e a “Agenciadora”, esta mais de artigos escolares. Boas farmácias atendiam à população, com  a “Drogaria Azevedo”, do Sr. Benigno Azevedo, grande e sortida, que atendia não só à cidade como aos distritos, e ficava numa das esquinas da hoje Avenida do Cinquentenário, naquela época rua J. J. Seabra. Nessa mesma rua, duas outras farmácias eram muito procuradas: a “Caridade”, do Dr. Nilo Santana, e a de seu Tourinho. O doutor Nilo reservava um dia da semana para aviar, de graça, receitas para os pobres que o procuravam.

          O comércio de Itabuna era ativo. Iniciado com os sírio-libaneses e sergipanos, foi enriquecido e cresceu com o trabalho de muitos outros comerciantes que se empenharam, como até hoje, pelo progresso da cidade. Aqueles mascates vinham apenas complementar com seus artigos de luxo importados, suas sedas puras, perfumes, peles, o que faltava para o requinte das pessoas mais endinheiradas. Até costureiras de alta-costura abriram aqui suas casas, como madame Débora e madame Pepita, procuradas pelas senhoras da sociedade. Além destas, havia ainda o ateliê da senhora Adélia Campos, bem instalado, com uma vitrina, e que atendia a uma grande freguesia. Este ficava na Rua Paulino Vieira, numa esquina bem em frente da atual Perfumaria Clipper.

          Com os requintes que o dinheiro então proporcionava, a vida social e cultural de Itabuna foi movimentada. Aqui chegaram a se apresentar, no teatro do Cinema Elite, grandes companhias teatrais, como as de Procópio Ferreira, Joracy Camargo e Alma Flora. Declamadoras como Margarida Lopes de Almeida aqui apresentaram a sua arte. Euríclides Formiga Lotou o recinto do teatro do Cinema Elite.
Exposições de pintura, como a de Santa Rosa e outros; de fotografias artísticas, como a de Brasilino Nery; cantores, violinistas e pianistas de destaque aqui se exibiram, nos salões do Itabuna Clube, demonstrando que a sociedade de Itabuna vivia realmente uma “era de ouro”. A arte deleitava a sociedade que  anos atrás podia gozar desse privilégio de assistir a belos espetáculos.

          Esse era um tempo de Itabuna rica, cuja fama ia além dos seus limites e se espalhava por todo o Estado e vizinhanças, no auge dos cacaueiros de frutos-de-ouro. Itabuna de uma época que dá saudades, mas que já passou.  Helena Borborema


Fonte: “RETALHOS”


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