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COMO A CENSURA À LIBERDADE DE EXPRESSÃO NAS UNIVERSIDADES TEM AMEAÇADO NOSSO FUTURO?

Os casos de censura nos campi universitários americanos têm sido cada vez mais frequentes, a ponto de se criarem em vários os “locais seguros”, onde os estudantes podem finalmente dizer o que pensam sem (tanto) receio de retaliação. Esse clima de censura tem criado uma polarização cada vez maior que inviabiliza um debate civilizado, ameaçando o futuro da própria liberdade.

É o que defende Greg Lukianoff em Unlearning Liberty. O autor reconhece que o politicamente correto tem muito a ver com isso, e que as ideias conservadoras correm mais risco de censura atualmente, apesar de constatar que o risco vem de todas as posturas ideológicas.

O que torna o livro mais interessante é que Lukianoff é um democrata acima de qualquer suspeita, defensor do ambientalismo e de várias causas “progressistas”, como o casamento gay, o aborto e a legalização das drogas. Trabalhou para a ACLU, é colunista do The Huffington Post, ganhou prêmios com colegas de esquerda e nunca votou no Partido Republicano na vida, ou seja, tinha tudo para ser mais um a apelar para as táticas que estão impedindo os verdadeiros debates no mundo moderno.

Mas prefere defender a liberdade de expressão, por entender que sem ela, as demais liberdades estarão ameaçadas. Mesmo que, para tanto, precise condenar especialmente seus companheiros de causas. Tal postura é louvável e merece aplausos, além do reconhecimento de que há vida honesta na esquerda, disposta a debater de forma séria os temas complexos e delicados de nossa sociedade.

Segundo o autor, “Nos campi universitários de hoje, os alunos são punidos por tudo, desde uma leve sátira, escrever histórias curtas politicamente incorretas, até ter a opinião ‘errada’ sobre basicamente qualquer tema quente, e, cada vez mais, por simplesmente criticar a administração da universidade”.

O livro traz diversos casos comprovando isso. Mas nem é preciso mergulhar em cada um deles: basta pensar que até as prestigiadas Yale e Harvard já censuraram coisas tão ridículas como citar F. Scott Fitzgerald, enquanto outras aderiram aos “espaços seguros”, uma confissão de que o restante dos espaços não são seguros.

Nunca tantos americanos foram para universidades, e nunca elas custaram tão caro. Ao mesmo tempo, isso não tem produzido um ambiente mais saudável para debates. Ao contrário: de forma perversa, esses recursos todos ajudam a proliferar uma burocracia nos campi que servem para controlar mais tal censura, e os debates se mostram mais burros.

Os administradores das universidades conseguiram convencer os alunos a aceitar a tese de que a liberdade de expressão é inimiga do progresso social, e que permiti-la seria o mesmo que aplaudir a KKK, endossar a xenofobia ou o preconceito. A punição às opiniões dissidentes acaba encorajando a tendência humana de se fechar em “câmaras de eco”, ou seja, adotar um viés de confirmação das ideias preconcebidas e se cercar apenas daqueles que já pensam da mesma maneira.

“Eu acredito que três décadas de censura nas universidades nos fez todos um pouco mais idiotas”, afirma sem rodeios Lukianoff. O uso de rótulos que atacam as supostas intenções malignas dos adversários tem sido muito comum, e acaba funcionando: muitas vezes basta alguma ideia ser rotulada de “conservadora” para ela ser rejeitada por muitos, como se essa fosse uma razão legítima para tanto. No fundo, essa é uma entre tantas outras táticas para encerrar o debate de ideias, tanto nas universidades como fora delas, pois o que se passa nesses locais que deveriam ser os bastiões do livre debate repercute em toda sociedade.

Lukianoff, citando o livro Coming Apart de Charles Murray, reconhece ainda que há uma divisão física cada vez maior entre as elites “liberais” e o povo, e que isso produz uma hegemonia do pensamento, que pode ser alimentada pela tecnologia também. As pessoas mais educadas se fecham em círculos sociais e ficam isoladas do convívio físico e cultural com os demais cidadãos, o que reforça suas ideias preconcebidas.

Há uma pressa cada vez maior em se fazer julgamentos e chegar a conclusões, sem a devida reflexão ou busca por informações. Vivemos em “tempos de certezas”, alega o autor, algo que nos remete a uma guerra religiosa, com muitas cruzadas e fiéis, e poucos heréticos e céticos de cada lado. Blindados contra opiniões diversas, esses grupos se tornam mais polarizados e seguros de que estão do lado certo. O fanatismo é a consequência.

A censura nas universidades estaria por trás dessa tendência. Não é preciso censurar todos os alunos, nem mesmo a maioria. Bastam alguns casos para que o clima seja eficaz para calar os dissidentes. É o que os advogados chamam de “the chilling effetc”, quando alguém abre mão de um direito como a liberdade de expressão por medo de alguma sanção legal, um efeito em cadeia que funciona por observação. Se as pessoas acreditam que há o risco de punição por simplesmente dar sua opinião, a maioria não se dará ao trabalho de abrir a boca, para não correr tal risco. Com o tempo, as regras que criaram esse silêncio ficam entranhadas na cultura.

Passa a ser mais fácil e mais seguro conversar apenas com quem pensa de forma parecida, para evitar problemas. Poucos se dão ao trabalho de debater com os que divergem, especialmente os mais barulhentos. Esses passam a acreditar que estão certos mesmo, já que quase ninguém rebate seus pontos de vista colocados de forma agressiva ou até histérica (a turma CAPS LOCK, que existe da esquerda à direita no espectro político).

Que isso esteja acontecendo onde o debate deveria fluir com mais naturalidade é mesmo bastante preocupante. São as pessoas mais educadas da elite que têm se fechado mais em grupos estanques e extremistas, fechando-se para o contraditório e as ideias que desafiam seus dogmas. O senso crítico vai desaparecendo aos poucos, assim como o senso de humor.

Outro efeito perverso é uma compreensão rasa e incompleta das questões importantes da sociedade e do mundo, pela simplificação de tudo e a rejeição a priori das outras formas de se encarar tais questões. O instintivo para nossa mente é se rebelar quando pensa que pode estar equivocada, e superar essa resistência natural defensiva requer constante e rigorosa prática de desafiar nossas opiniões saindo da zona de conforto.



Por fim, e talvez o mais importante, a censura no campus representa tanto uma ameaça imediata quanto uma ameaça a longo prazo para todas as nossas liberdades, não apenas porque a liberdade de expressão é crucial para qualquer outra liberdade, mas também porque ensina aos alunos as lições erradas sobre viver livremente.

Os valores, hábitos e práticas que lhe permitem viver e funcionar em uma sociedade livre são coisas que você deve ser ensinado. Apesar da veneração do termo “liberdade de expressão” na América, a importância da expressão livre não é nem óbvia nem intuitiva. Foi a exceção na história humana, não a regra.

Para Lukianoff, a sociedade está desaprendendo a liberdade, e muito por culpa das universidades, que deveriam ser o porto seguro contra esse ataque. E uma nação que não é educada na liberdade não será capaz de preservá-la por muito tempo, e sequer saberá quando ela estiver perdida. A América poderá acordar América Latina um dia e nem se dar conta, graças ao esforço de censura das universidades. A desgraça seria responsabilidade da elite pensante, o que é no mínimo irônico.

Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal


Rodrigo Constantino
Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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