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ABOBRINHA FILOSÓFICA (Má Temática)

Postado por Rilvan Batista de Santana 12/04/2017

ABOBRINHA FILOSÓFICA
(Má Temática)

Em meu artigo da semana passada descrevi uma briga virtual com uma ex-colega de trabalho e “amiga” no Facebook. Era uma “abobrinha filosófica”, que chamei de “Má Temática”. Antes de publicá-la, dei uma busca geral em todos os meus arquivos. Faço isso sempre, porque tenho tantas coisas escritas e arquivadas em tantas pastas, que há a possibilidade de ter diversas versões do mesmo assunto e até uma mesma versão arquivada em diversas pastas.

Desta vez busquei por “abobrinha”. Apareceram dois textos de dieta alimentar, outros três que não tinham nada a haver, um texto escrito por um amigo e duas versões do assunto procurado. Um deles era uma esquecida versão dessa briga virtual, que em 2013, eu havia transformado em diálogo, para constar do meu conto “Armadilha”, no livro não publicado “Crime Nosso de Cada Dia”. Acabei não utilizando essa versão no conto, mas a deixei arquivada em uma pasta “Auxiliar”. Agora a estou postando neste meu blog, para demonstrar como se pode transformar em diálogo coerente uma correspondência grosseira como a publicada na semana passada. Boa leitura.

Cena: Casal em começo de namoro, sentado à mesa de um boteco, no centro da cidade.

- Floripes, estou achando que você não está se abrindo totalmente. Parece estar o tempo todo querendo esconder alguma coisa.

- Eu não mostro mesmo quem realmente sou para todo mundo.

- Por que, você tem medo de ser mal julgada?

- Não! Não me importo com o que pensam de mim, mas só mostro a parte de mim que vale a pena mostrar.

- Mas se você não se importa com os outros, por que você esconde a outra parte?

- Não é que esconda. Mas para quê vou mostrar minha metade que só eu entendo?  

- Mas você não é somente como se vê ou como quer ser vista. Os outros a veem de muitas formas diferentes.

- Você está querendo dizer o quê, Mário?

- Que ninguém sabe totalmente como realmente é. Nem para você mesma e nem para os outros.

- Ora cara, deixe de falar essas abobrinhas! Eu sou eu e estou cagando para a opinião dos outros.

- Então por que não se revela como realmente é para todos os outros?

- Não existe esse negócio de "outros". Pouco me importa como me veem! Somos seres únicos e insubstituíveis. Cada um com algo a acrescentar no mundo.

- Ora Floripes, isso é coisa que você leu em algum desses livros da autoajuda. Nós vivemos em sociedade e dependendo do modo como somos vistos, somos julgados...

- Sei muito bem quem sou e que lugar ocupo aqui. Não me generalize! E pouco me importam esses julgamentos. E li sim um monte de livros, mas nenhum ajudou nada.

- Mas são as outras pessoas que machucam, mancham nossa vida e nos fazem sofrer.

- Por isso mesmo digo que a outra metade só mostro para quem vale a pena.

- Então você está fazendo teatro. Está mostrando alguém que você não é. Isso não será enganar os “outros”?

- Seus estudos universitários tornam você um prisioneiro do passado, falando coisas do século passado, com teorias que já não existem mais, já esquecidas e mortas.

- Mas criatura; quem precisa provar que é diferente é porque não tem nenhuma autoestima, nem amor próprio, ou amor ao próximo.

- Se sua psicologia de botequim valesse, os psiquiatras morreriam de fome, com tantos bares que há por aí.

- Não acho que faltariam pacientes como você. Seus consultórios estariam lotados de gente necessitada de terapia pós-adolescente como esta sua, de metade escondo, metade mostro.

- Você está sendo agressivo e inconveniente, e a psicopata, a louca aqui sou eu, né?

- É que você insiste nessa tese psicopatológica, que denota falta de inteligência. Você é única sim, e acredita que ninguém lhe é semelhante e se esconde dos outros porque sempre se sentiu mal amada.

- Nossa! Não somos mais amigos? Ainda bem que ficamos de mal, assim me livro de seus comentários idiotas. Amor? Tenho de sobra daqueles que conhecem meu "outro lado", o verdadeiro.

- Eu também me sinto mais leve! Assim livro-me dos relatos dessa sua vida problemática que já estavam me enchendo o saco.

Ela levantou-se, colocou com raiva sua bolsa sob o braço e ia indo embora com ódio estampado no rosto. Deu dois passos em direção à rua, mas parou. Voltou até onde eu estava e vociferou:

- Se todos fossem iguais o mundo não seria perfeito. Viva a diversidade, viva as diferenças!  Você tem de respeitar as individualidades. Somos diferentes, pensamos e agimos diferentes. Não sou obrigada a concordar com tudo o que você pensa ou fala. Não sou mal amada e muito menos psicopata ou pré-adolescente! Sou maior que tudo isso e sei muito bem quem sou! Você não me conhece e nunca lhe dei liberdade para falar da minha vida como maldosamente falou. Quem é você para falar sobre a minha personalidade?

- Você não está sempre pedindo minha opinião?

- Mas nunca faltei com respeito. Não desrespeito a quem também me respeita. Diferentemente do que você fez comigo. Acredito que não estamos em tempos de ficar com briguinhas de escolinha primária! Temos coisas muito mais importantes para fazer. Aceitei sua amizade acreditando que você era uma pessoa do bem. Mas vejo que me enganei.

- Então tchau mesmo! Vamos atrás das coisas mais importantes que temos a fazer!

Levantei-me de imediato e quase a derrubei saindo. Em uma espécie de marcha dupla, saímos os dois, lado a lado, para fora do bar. Já na rua, ouvi a voz do garçom:

- Hei! Quem vai pagar a conta?

Ia dizer “pindura”, mas achei melhor voltar e pagar.

Enquanto voltava à lanchonete, minha irritação foi se abrandando, mas fiquei cismando: Como uma mulher tão vivida podia ter uma auto avaliação tão imperfeita, contraditória, superficial e até mesmo infantil.

Ao pagar a conta, percebi que, desta vez ainda tinha na carteira, a grana suficiente para mais uma cerveja.

- Ôh do norte, vou beber mais uma Cerpa, estupidamente gelada.

- Saindo mais uma meia Brahma, para meu estúpido amigo aqui!

Mateus Cosentino

Sampa – 12.04.2017

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