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A BORDO DO PEDRO II - Francisco Benício dos Santos

Postado por Rilvan Batista de Santana 27/04/2017

A BORDO DO PEDRO II - Francisco Benício dos Santos
Foto: Google

O sol batendo em cheio sobre a vidraça da minha cabine dá-me o bom dia:
- Levanta-te preguiçoso.
Lembrei-me de meu pai.
Saudades... sempre as saudades apertando-me o coração, estrangulando-me a alma.
Passamos frente a Vitória.
A costa Sul ostenta-se eriçada de picos azuis, como se misteriosa fada a tivesse bordado à renda.
Belo, muito belo! Maravilhoso espetáculo.
Aviões passam velozes sobre o navio, como se fossem gigantescos albatrozes...
Atrás... ficaram as raias da Bahia.
Radiógrafo:
“Castro para Cel. Márcio”.
Saudades, lembranças, abraços. Isauro.
Dra. Nísia – Embaixada /acadêmica – Bordo Bagé – Viagem América.
Saudades muitas saudades abraços. Isauro.
O sol lançando labaredas de fogo brune a superfície marinha de tonalidades viláceas.
E os picos azulinos eretos para o céu de turquesa límpido, puríssimo, sem uma nuvem que lhe empane a beleza e a poesia.
O farol de São Mateus salta ainda lampejos fracos por entre a névoa da mataria costeira.
Os picos vão se sucedendo, eriçados e pontiagudos com a característica das costas sulinas.
Volto ao tombadilho e leio:
“Viagem pelo Pacífico” e vou ficando acamaradado com as cidades e particularidades desta região.
As moças:
- Francamente, estamos intrigadas com o senhor e com o seu mutismo.
- Não dança, não joga, não conversa. Precisamos traze-lo ao nosso convívio.
- Certamente que o farei com prazer e muito gosto, mas, é que me falecem os requisitos exigidos para uma convivência tão gentil e cativante; não danço, não jogo, não canto...
- Haveremos de ensinar-lhe tudo isto  e algo mais importante.
- Terei imenso prazer e serei discípulo atento.
Por enquanto leio apenas, depois, depois...
Desce a noite.
A lua surge do mar, redonda, vermelha, lançando sobre o negror das águas atlânticas réstias prateadas de uma luz macia e baça.
Ao sul, o cruzeiro estende os braços e piscam e piscam...
A via láctea ponteia o céu de focos de luz e, como uma esteira de prata, branqueia os espaços sidéreos.
Vênus e Marte surgem irmanadas, emparelhadas, ofuscadas e trêmulas com a claridade da lua que vai tomando conta do céu, escorraçando todos os planetas, constelações e estrelas, ficando solitária, iluminando a Terra, a sua companheira de jornada pelo infinito.
Um vento frio e gostoso passa sibilante e mansinho, fazendo correr um frescor agradável pelo corpo.
O jazz está na sala estrangulando o espaço e perturbando a quietude da natureza com a brutalidade de sua música canalha.
Bandos de corpos enlaçados passam bamboleando aos remelexos do samba e aos rufos do pandeiro malandro.
Bebedores e jogadores de pôquer estragam o organismo e as bolsas bebendo, jogando.
Eu cismo: admiro a beleza do céu e a inconstância do mar e o brilho da via láctea que como um pálio aberto cintila.  Francisco Benício dos Santos.

Fonte:
(AQUARELAS E RECORDAÇÕES Capítulo XXII)

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