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ZOMBANDO DO PARNASIANISMO

Postado por Rilvan Batista de Santana 17/03/2017

ZOMBANDO DO PARNASIANISMO

Na segunda metade do Século XIX, a literatura francesa vivia um momento especial em que os posicionamentos no campo literário, surgiam nos cabarés de Paris, através de grupinhos rebeldes, inovadores e talentosos, constituídos por jovens intelectuais e bem humorados estudantes. Cada agrupamento  trazia suas propostas, muitas delas sérias e bem fundamentadas, mas combativas e belicosas com discordâncias gerando muita confusão com vasto uso de ácida ironia, de alegre zombaria e até mesmo do escárnio.

Foi nessa época confusa que surgiu o “Parnasianismo”, herdeiro do Romantismo, mas se opondo a ele. O nome da nova escola poética foi inspirado pelo Monte Parnaso, localizado na Grécia e onde a mitologia fazia crer que nele abitavam nove Musas, lideradas pelo deus Apolo.

O movimento surgiu quando trinta e sete jovens poetas compuseram as normas do movimento, participando em três tomos de antologia chamados de “Parnaso Contemporâneo”. O primeiro deles foi publicado em 1866, inaugurando uma nova estética de poesia. Mas trinta anos antes disso, Théophile Gautier, já havia esboçado e fundamentado as raízes dessa nova estética em seu prefácio da obra “Mademoiselle de Maupin”.

A escolha do nome Parnasiano, por si só, demonstra um ideário de trazer de volta a perfeição poética formal, sempre perseguida na Antiguidade Clássica da Grécia. Opunha-se, portanto ao complacente sentimentalismo do Romantismo e à literatura engajada e utilitarista que também  surgia então. Para não estender demasiadamente estas considerações, tentaremos resumir as principais características parnasianas:

•          Arte pela arte: Buscar o Belo, a poesia só tem valor por sua beleza e perfeição estética.
•          Objetividade: Privilegiar a realidade em oposição ao sentimentalismo exacerbado.
•          Impessoalidade: Abordar temas universais em oposição ao individualismo romântico.
•          Racionalismo: Descrição precisa, lógica e complexa de cenas e objetos da natureza.
•          Rigor estético: Dar preferência ao uso de linguagem e vocabulário corretos, usar rimas ricas, metrificação rigorosa e dar preferência ao soneto.
•          Valorização da cultura clássica: Utilizar temas da mitologia e cultura da antiguidade grega.

A escola parnasiana teve a importância histórica de uma verdadeira epopeia. Desde seu nascimento foi amplamente adotada pela maioria dos grupos literários de seu tempo. Mas logo foi abandonada por membros dissidentes que fundaram o Simbolismo. Em cerca de uma década alguns poetas parnasianos estavam entregues a um academicismo decadente.

Por outro lado, até hoje os cânones e poetas do Parnasianismo, são seguidos total ou parcialmente por muitos poetas contemporâneos do mundo todo. Entretanto essa grande escola poética foi fortemente criticada e ridicularizada desde a publicação do primeiro tomo do Parnaso Contemporâneo.   

Naquele tempo em que a zombaria e o escárnio funcionavam como “cimento social”, ou seja, como crítica destrutiva e mortal, um dos grupos formados no cabaré Le Chat Noir, contestou jocosamente a primeira publicação parnasiana. Publicaram, eles também, no mesmo ano de 1866, seu manifesto, repetido em duas outras edições paralelas nos mesmos anos em que foram publicados os outros tomos do Parnaso Contemporâneo.

O responsável pelas edições, Paul Arène e outros poetas, tentaram “cimentar” o parnasianismo através textos de  humor mordaz espelhando as teses e a estética parnasiana. Chamaram ironicamente sua obra de “Parnassiculet Contemporânea”, que parodiava com zombaria as publicações do Parnaso Contemporâneo.

Acredito que será de grande valia deixar aqui para análise de quem aqui a lê, a tradução não literal feita “sob risco e responsabilidade” minha. Trata-se do “Aviso” introdutório, escrito  pelo citado editor da crítica:

“O editor da Parnassiculet Contemporânea, para evitar o tropeço dos curiosos e não quebrem o nariz no corredor Charentonneau, precipitando uma correria com louvável entusiasmo, acredita ser seu dever colocar nesta introdução um lampião que esclareça um pouco as trevas e dê a explicação, em poucas linhas bastante nítidas, evitando que fiquem ininteligíveis as poucas páginas, que ele ora publica a seu próprio risco e responsabilidade.

Sabemos do estardalhaço, desproporcional ao mérito, que recentemente trinta poetas de todos os tipos de perucas, promoveram com um volume de novos versos apresentados ao público como a expressão da máxima da poesia contemporânea.

Note-se que escrevemos trinta poetas, ao invés de trinta e sete, desejando deixar fora de nossa crítica alguns velhos. Por que diabos inclui-los! Então que os meninos do coro façam com que a algazarra atrás do altar, permaneça! Mas sob os cânones!

Uma meia dúzia de outros poetas, justamente escandalizados com essa enorme pretensão de transformar seus mais humildes irmãos em Apolos, concorda que os primeiros chegados deram à luz a um ratinho pequenininho, gritando tanto como se estivessem em trabalho de parto a empurrar um monte grego.

As nove ou dez peças de poesia ali lidas, todas igualmente notáveis por sua beleza e sua incoerência, sob a melhor crítica, constatam que o mais engenhoso e mais convincente fato trazido pelo grande volume que publicaram, é que apenas são exatas cópias fotográficas da natureza.

Além disso, eu o editor do Parnassiculet Contemporânea sou daqueles que pensam não ser um pequeno detalhe que virá a dar toda a importância em matéria de literatura, querendo introduzir ao público os múltiplos incidentes de parir o monte do Parnaso. Assim, introduzo inicialmente um conto intitulado: Hotel du Dragon-bleu, onde se  reconhecerá o eco de certos capítulos da Jeune France de Théophile Gautier, encontrado nesse grande volume, como reflexo da literatura abracadabrante de uma época  já tão longe de nós, mas que eles querem considerar  uma nova Renascença e de certo modo seu retorno à moda. Entretanto a Jeune France não passa de uma Decadente  Badalação Literária, onde poetas,  frequentemente escrevem, em seu próprio livro, pastiches, cópias literárias  antigas, tão esquecidas como os anciões turcos, ou de quem nem se lembra mais, como um Carnaval Romântico que se encerra após trinta anos.

O editor da Parnassiculet Contemporânea não ousa esperar que esta sua crítica espiritual, possa revitalizar os espartanos, que embriagavam seus escravos hilotas para evitar a embriaguez de suas crianças.  Na eficácia do resultado em torno do Romantismo, que eles pretendem obter, haverá mais ambiciosos do que culpados. No entanto, como há alguns entre eles, aparentemente mais dotados de sanidade que outros, existe a possibilidade de se rejeitar o suas roupas bizarras de Babin, vestidas para não serem usadas por todos e se compreender finalmente que é melhor ser original em francês que ridículo em sânscrito.

Dito isto, com toda a doçura que se deve ter, ao conversar com essas pessoas tendentes á loucura, o editor da  Parnassiculet Contemporânea silencia-se, não tendo mais nada a dizer.

O Editor.”

Com sua Parnassiculet Contemporânea o grupo zombeteiro conseguiu irritar profundamente os poetas parnasianos e até mesmo fazer alguns se bandearem para o Simbolismo. Entretanto, hoje em dia os críticos bem humorados são praticamente desconhecidos e ignorados, ao contrário do parnasianismo, ainda muito reconhecido e lido, mesmo que muitas vezes por orientação obrigatória de professores nas escolas. Mesmo este que lhes escreve procura adotar o rigor estético dos parnasianos em  suas poesias, apesar de não seguir tão fielmente os temas propostos.

A propósito, recentemente em entrevista na televisão, ouvi na voz do nosso grande poeta Ferreira Gullar, o contundente autor do contemporâneo, engajado e brilhante “Poema Sujo”, uma demonstração de aceitação  da “arte pela arte” adotada pelos parnasianos. Disse ele, ao final da entrevista: “A poesia é só arte, não serve pra mais nada, não é útil como um paletó, nem como um sapato”. 

Mateus Cosentino
Sampa – 15.03.2017

OBS.: O Parnasianismo no Brasil teve seu maior momento na metade do Século XIX e até a Semana de Arte Moderna de 1922. Aqui, seus maiores expoentes foram: Olavo Bilac, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira (a “Trindade Parnasiana”), Francisca Silva e Vicente de Carvalho.

      

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