Saber-Literário

Diário Literário Online

SÁBADO VAZIO Há 57 anos - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 30/03/2017

SÁBADO VAZIO
Há 57 anos

Hoje é sábado, dia nove de abril de 1.960, mais ou menos vinte para as nove da noite. Um final de sábado vazio como tantos outros passados e a passar para além destes meus dezesseis anos de vida. Nada tenho para fazer e isso é uma chatice. Quero fazer algo. Vou então escrever tudo o que passar pela minha cabeça.

Estou na sala de visitas de casa, sentado no meu cantinho preferido do sofá, A pequena sala está toda desarrumada e barulhenta. Estão aqui, sem se importar comigo, a maninha Maristela e Glorinha, uma coleguinha dela, duas menininhas de quase sete aninhos. Acaba de chegar o Márcio, do alto de seus ainda oito anos. Os três fazem tanto barulho que não sei se meus pensamentos poderão se concatenar e se transformarem em escrita. Bem, vou fazer o possível para esquecê-los...

Desisto! Nem comecei a tentar! O barulho incrível dos meus irmãozinhos cortou o desencadeamento de ideias que vinha começando a desenvolver. E, ainda por cima, tudo piorou porque o “tempo” aqui em casa “escureceu”. O outro mano, o Mauro (12), já fez mais uma das suas e mamãe está nervosa, incitando papai para que “arranque a cinta e dê  umas boas cintadas nele”.

Estou em uma casa com exatamente oito pessoas, incluindo a mim mesmo. Entre elas, apenas papai e mamãe são adultos. Uma multidão junto a mim e estou sozinho! Não é difícil compreender. Cada um se ocupa com suas coisas e ninguém parece perceber minha presença. Não sou invisível, mas totalmente silencioso. Não digo uma palavra, não mudo de posição, exceto pelo o movimento da minha mão escrevendo.  Sinto-me só no meio de um furacão. Uma pequena multidão alegre e nervosa. Estou só e tristonho, sou o diferente na minha própria tribo.

Entretanto aparentemente as coisas estão melhorando. O Márcio e a Glorinha já saíram da sala. Após arrumá-la, Maristela também saiu. Ainda ouço a voz do Márcio agudamente cantando. Na sala de jantar as vozes abafadas de uma conversa entre mamãe e Maristela. Lá, papai tenta assistir a televisão onde começam as “Reportagens Esportivas”. Já deu para ouvir que o meu Palmeiras está vencendo o América de Rio Preto. Chineizinho acaba de fazer o segundo gol.

Então vou tentar retomar o fio da narrativa. Não, ainda não vai dar. O Mauro está assobiando alto para fazer pirraça, após levar um “cascudo” de mamãe. Creio que hoje ele não escapa, vai apanhar mesmo. É bom, ele está pedindo...

Xi! a Maristela, Márcio e agora também o meu irmão Toninho, vulgo Tonny (15), estão todos aqui na salinha. Não estão brincando, estão quietos, mas mesmo assim me atrapalham.

Já ando meio cansado de ser como sou. Ando fazendo muito esforço para mudar. Gostaria de me tornar um outro Mateus, bem diferente deste que sou. Sou quieto, quase não falo, sou tristonho, pensativo e... tímido! Nunca saem de minha boca palavras de baixo calão. Até saio de perto quando as ouço dizer. Assim é o Mateus de sempre.

Mas seria possível mudar? Tento, mas quando consigo me sinto superficial,  procurando fingir outra realidade, somente para  me libertar do meu usual modo de ser. Entretanto esse comportamento novo de me passar por “outro eu”, está convencendo alguns, mas não todos. Quem  me conhece bem, não se deixa enganar. Sabem que na essência continuo o mesmo quieto, calado, tristonho, pensativo, tímido... enfim, o Mateus de sempre.

Meus velhos amigos me demonstram a evidência de que o melhor meio de se conhecer o caráter de uma pessoa, não é simplesmente observar sua superficialidade. Uma pessoa pode conhecer outra por mais de cinquenta anos e não compreendê-la. Entretanto ao analisar a obra de um artista, qualquer pessoa, mesmo não o conhecendo pessoalmente, não terá a mínima dificuldade em compreendê-lo em seus mais incompreensíveis atos. Assim acontece quando a obra de um artista é uma doação tão verdadeira e profunda, que expõe a alma de seu autor. E quanto mais intimista a arte, mais verdadeiro é o artista. De nada vale o talento de quem não tem sinceridade em sua obra.

Estou mesmo ficando doido. Escrevo cada besteira! Mas acho que não posso ficar ainda mais maluco. Já sou suficientemente louco! Minha consciência me diz isso constantemente. Porém, certamente tenho uma consciência tão louca quanto eu!

Vou parar de escrever por aqui. Já fiz algo, meu braço cansou de escrever, estou curioso para ler o que escrevi, estou com sono e estou tristonho!

Por que minha amada Aparecida tinha que ir passar o fim-de-semana em Poços de Caldas?






Mateus Cosentino
Sampa – 09.04.1960

0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

THE END

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Perfil

Perfil
Antônio Cabral Filho - Escritor e coadministradores

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

Patrono

Patrono
Machado de Assis

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Tecnologia do Blogger.