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ONDE FOI PARAR A TAL DA EMPATIA?

Postado por Rilvan Batista de Santana 03/03/2017

ONDE FOI PARAR A TAL DA EMPATIA?
publicado em sociedade por Juliana Santin

Onde foi parar essa tal de empatia, ou seja, nossa capacidade de nos colocar no lugar do outro? Se um homem como um morador de rua, cujos olhos gritam tão alto, já temos dificuldade em enxergar, imagine aqueles que são mais semelhantes a nós. Tenho a impressão de que temos uma dificuldade cada vez maior de simplesmente enxergar a pessoa que está à nossa frente e de tentar entender o que essa pessoa está passando, sentindo.




“Fiquei amiga do mendigo”, disse eu. “Pode riscar da sua lista das coisas a se fazer”, respondeu meu irmão. Esse pequeno diálogo, ocorrido outro dia com meu irmão, ao contar para ele sobre esse meu curto encontro com o morador de rua, fez-me pensar nessa questão da empatia. Estávamos eu e meu filho na cidade de São Paulo, dentro do metrô, em direção à rodoviária para voltarmos para nossa cidade. Estávamos com malas e bastante cansados, embora felizes.

O trem estava cheio e, sentado em nossa frente, onde estávamos em pé, estava um homem meio sujo, cheirando meio mal, descabelado, barbudo e desdentado, tentando conversar com as duas mulheres que estavam ao lado dele no banco. Elas simplesmente o ignoravam com cara de quem estava aturando aquela criatura desprezível ao seu lado no metrô. Ele, então, resolveu falar comigo. 

Perguntou-me de onde eu era, já que, segundo seu julgamento, eu não parecia ser paulistana.
No momento, tive que tomar a decisão sobre o que fazer. Responder a ele? Sair de lá e ir mais longe? Ignorar, como faziam as outras mulheres? Eu estava acompanhada de meu filho, que tem apenas 11 anos. Dessa forma, tenho uma preocupação muito grande com minhas atitudes, uma vez que certamente, meu filho se espelhará nelas. Eu sei bem que não adianta nada dizer a ele que “todos os seres humanos têm o mesmo valor, que as pessoas menos favorecidas economicamente também merecem nosso respeito, etc” e agir de forma que negue isso.

Sempre que passo por momentos desse tipo, em que tenho que servir de exemplo para meu filho em situações que envolvem algum tipo de conduta ética me lembro do imperativo categórico do Kant. “Ages somente segundo aquela máxima que possas a todo tempo querer que se tornasse uma lei universal”. Na minha visão, quando temos filhos, essa lei moral de Kant tem uma aplicação direta, uma vez que muito provavelmente nossos filhos tomarão nossas ações como uma lei universal, pelo menos, enquanto são crianças.

Dessa forma, sempre devemos nos certificar de que TODAS as nossas ações devem ser feitas de tal forma que aprovaríamos que fossem feitas por nossos filhos. É o tal do exemplo. Se você age de uma forma, mas não gostaria que seu filho agisse da mesma maneira e usa discursos contrários à sua própria ação, provavelmente suas ações dizem mais do que suas palavras. Assim, tive que tomar uma decisão por mim e por ele.

Nesse momento, resolvi, então, OLHAR para o homem que estava sentado na minha frente e parece que um limpador de para-brisas passou pelos meus olhos. Passei a enxergar exatamente o que estava à minha frente: um ser humano querendo ser visto como tal, tentando conversar com outras pessoas.

Respondi a ele que era do interior de São Paulo e o diálogo continuou. Ele me disse que achava que eu era gaúcha, pela minha aparência. Ele, por sua vez, era do Rio de Janeiro. Tinha se divorciado da esposa em 2005. Tem dois filhos adultos, ambos terminando boas faculdades. Ele, por infortúnios da vida, acabou perdendo o trabalho, “por culpa da prefeitura” e acabou tendo que viver na rua por um tempo. “Por isso, estou sujo assim. Mas eu tenho Deus no coração e sei que vou sair dessa”, disse ele, batendo no peito e sorrindo seu sorriso sem dentes.

E esse tal de “Seu Moço”, “com ar de gente marcada, mas o coração sem espinho”, como diz a canção, afinal de contas, queria o que de mim? Apenas ser visto como ser humano e conversar. Ele não estava me assaltando, nem me assediando, nem pedindo dinheiro. Nada. Seus olhos gritavam para mim apenas que o enxergasse como ser humano.

O psiquiatra Flávio Gikovate, dizia que a empatia é se colocar no lugar do outro, mas não como se colocássemos a nossa alma no corpo do outro, porque isso invariavelmente leva a um erro. Assim, se eu quisesse tentar entender como se sente o morador de rua, mas pensando com a minha cabeça, com a minha vivência e minha alma, certamente erraria. Temos que tentar entrar na cabeça do outro “sendo” o outro mesmo, como um hacker, disse o Gikovate.

Agora, veja só, se um homem como esse, cujos olhos gritam tão alto, já temos dificuldade em enxergar, imagine aqueles que são mais semelhantes a nós. Tenho a impressão de que temos uma dificuldade cada vez maior de simplesmente enxergar a pessoa que está à nossa frente e de tentar entender o que essa pessoa está passando, sentindo. Assim, temos a tendência dessa falsa empatia, de nos colocarmos com nossa alma na pele do outro e soltamos pérolas como “eu no lugar de Fulano”... Isso leva a erros muito grandes de julgamento, porque não é você no lugar de Fulano, mas sim, Fulano no lugar de Fulano.

Quantas vezes não nos pegamos bufando dentro de um táxi, porque aquele ser que dirige o carro ao qual estamos pagando apenas para nos levar a nosso destino resolve puxar papo conosco. É como se víssemos esse ser como uma peça a mais do carro, um algo mecânico, algo que deveria “se colocar em seu lugar” e saber qual o seu papel: dirigir o carro.

Parece exagero, mas se o mendigo sujo, desdentado e descabelado passa a fazer parte do cenário do metrô, quantas não são as pessoas que passam a fazer parte do “cenário” para nós e que nem sequer nos damos conta de que são pessoas, com tudo o que vem junto nesse pacote, ou seja, dores, amores, alegrias, tristezas, sonhos, segredos...

Rubem Alves escreveu uma crônica sobre a bondade, em que usa a palavra solidariedade. “A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. Acontece assim: eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo (...). Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável, esse sentimento imaginado se aloja junto dos meus próprios sentimentos”. Ele diz que é assim que nasce a bondade.

Pois eu acho que, como tudo na vida, essa é uma via de mão dupla. No momento em que vi o “semblante já bem castigado à custa de muita ‘pedreira’” desse Seu Moço que encontrei no metrô, algo mudou em mim, minha visão se ampliou. Eu consegui realmente desbloquear uma conquista, marcar um “check” na minha lista de coisas a se fazer antes de morrer, como disse meu irmão, mas não foi ficar amiga de um mendigo, mas sim, ampliar minha capacidade de enxergar o ser humano que existe na pessoa que está à minha frente.

Se agora eu consegui enxergar com algum esforço um ser tão gritante, dei um passo a mais em direção a enxergar seres humanos com suas dores e suas histórias que passam pela minha frente todos os dias e que eu, fechada na minha concha, no meu ego, na melhor das hipóteses consigo dizer “eu no lugar dele”...

Como diz também essa linda canção que citei ao longo do texto, chamada Seu Moço, da cantora Anna Ratto, “fiz escola com Seu Moço, escola de dança da vida”. Obrigada, Seu Moço, que possivelmente nunca mais encontrarei em toda minha vida, mas que conseguiu me transformar em uma pessoa um pouquinho menos cega, um pouquinho mais solidária, um pouquinho mais humana.

 
JULIANA SANTIN
Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.






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