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LUZIA (Final)

Postado por Rilvan Batista de Santana 11/03/2017

LUZIA (Final)

...A conversa do vigário com seu pai deu em nada. Severino, o pai de Luzia, ficou furioso e disse para o vigário:

- Me admira o senhor dar ouvido a uma maluqueira desta.

- Severino, as coisas mudaram, não são mais com o nosso tempo.

- Para mim, não. Enquanto for vivo ela não sai da minha casa.

- Ela ia ficar trabalhando em casa de minha irmã. Ia ganhar mais do que aqui e ter um trabalho mais suave.

- Ela tem que trabaiar é comigo no roçado.

Depois deste dia, o relacionamento de Luzia com os pais ficou muito difícil. Não deixaram mais ela ir à vila. Começaram a pressioná-la para aceitar o Antonio como namorado. Luzia, para voltar a ter a liberdade que tinha antes, resolveu enfrentar o namoro. O Antonio era apaixonado por ela. Ela, porém, não lhe dava confiança. Apenas tinha um pouco de carinho por ele. Não desistiu da idéia de ir morar no Rio. Estava planejando sua fuga. Alice, uma companheira sua, ia voltar para lá por aqueles dias a fim de reassumir o emprego. Combinou de ir com ela. Acertaram tudo. Luzia tinha algum dinheiro e providenciou para comprar a passagem, deveria viajar na terça feira. Naquele sábado, depois de ajudar a mãe, chegou até a porta, olhou para o céu, olhou para o rio que passava em frente, viu as baronesas enfeitando as águas. As galinhas d’água passeando por cima daquele tapete lindo que mão nenhuma é capaz de bordar. Elas pulavam de folha em folha. Com muito cuidado para não machucar as flores que estavam desabrochando. Sentiu-se culpada. Foi até a beira do rio. Sentou-se em uma pedra. Chorou muito. Quase que se arrependeu. Mas foi apenas por alguns segundos. Saiu andando por dentro do rio. Parecia dar adeus e despedir-se daquela água tão gostosa. Criou-se na beira daquele rio, ora com um anzol tentando pescar alguma piaba, ora com o gererê a cata de camarão. Seu coração parecia partir-se ao meio. Realmente era assim que se encontrava naquele momento. Dividida. Uma parte dela ansiosa para partir. Sair para bem longe. Conhecer o Rio de Janeiro. Conhecer o Pão de Açúcar, os artistas do rádio. Namorar com os rapazes da Cidade Maravilhosa. Ganhar dinheiro. Outra parte dela estava presa àquela região. Seus irmãos, seus pais, principalmente sua mãe. Chorou mais uma vez.

O céu tão bonito, tão azul! O sol tão forte com os raios dourados confundia-se com os seus cabelos, como se quisesse presenteá-la na sua despedida. Ela passou as mãos pelos cabelos e os sentiu muito quentes. Pensou: como estão quentes os meus cabelos! Vou molhá-los. Sentou-se em uma pedra, passou a mão molhada no rosto e depois nos cabelos. Voltou para casa mais tranqüila. No caminho, encontrou Antonio que voltava do roçado. Ficou assustada ao vê-lo, parecia que ele estava adivinhando o seu pensamento.

- Luzia, você por aqui?

- Fui até a beira do rio. Tava muito quente.

- É, Tá um calor danado. Hoje é lua cheia. Vamos dar um passeio hoje à noite? Vamos ver a lua dentro do rio? É uma beleza.

- Tá certo. Passe lá em casa pro me pegar. Antonio estava ansioso. Luzia nunca tinha ido a um passeio à noite com ele. Sempre arranjava uma desculpa. Mas naquele momento, Luzia achou que devia compensá-lo. Era uma maneira de descarregar a sua culpa. Na hora combinada, lá estava Antonio, com a camisa mais nova. O cabelo encharcado de brilhantina, muito usada naquela época. Só que dado ao entusiasmo de parecer mais bonito, exagerou. Luzia também se fez bonita para agradar Antonio. Este quando a viu, exclamou:

- Que boniteza! Como você está linda!

- Vamos, senão fica tarde. O pai não quer que eu chegue tarde.

Saíram abraçados. Luzia queria ao menos, naquela noite, fazê-lo feliz. Parece que conseguiu. Passearam ao longo do rio. A lua parecia ter sido encomendada. Com todo o seu encanto, derramava raios de luz sobre aqueles jovens. Tentava assim fazer um milagre. Um milagre de amor: encantar Antonio aos olhos de Luzia. Fazer dele o seu amado. Mas, coitada da lua! Não pôde realizar o milagre.

- Não sei como tu pensou em deixar a nossa terrinha, disse Antonio, olhando com muito amor para sua amada, que não lhe correspondia.

Luzia, pela primeira vez, se emocionou. Pôde constatar naquele momento, quanto ia maltratar o pobre coitado. Mas, nem assim, se arrependeu do que havia planejado. Ficou firme. Desmanchou-se em ternura. Sentados em uma pedra, próximo ao rio, ela colocou a cabeça dele no colo. Com muito carinho, passava as mãos pelos cabelos encharcados de brilhantina. Nem se preocupava de lambuzar as mãos. Trocaram beijos. Ela percebendo que as manifestações de carinho estavam aumentando, tratou de fugir.

- Vamo nego, o pai deve está com o olho na estrada. Deixaram o rio. A lua, porém, os acompanhou, tentando mais uma vez abrandar o coração de Luzia. No meio da estrada, Antonio deu um abraço cheio de paixão que foi correspondido pela sua amada. Continuaram abraçados até em casa. Severino estava na porta esperando pelos noivos. Não ficou nada satisfeito. Não reclamou. Disse apenas para Luzia:

- Entra pra dentro, menina, sua mãe e seus irmãos já estão dormindo. Boa noite, Antonio. Amanhã nós tá lhe esperando.

- Inté manhã, seu Severino.

- Inté amanhã, meu fio. Vá com Deus.

Antonio foi para casa muito contente. Luzia, pelo menos, naquela noite, fizera-o feliz. Ela, no entanto, estava triste. Não conseguiu dormir. Estava muito ansiosa.

Naquele domingo, Antonio foi almoçar em casa da noiva. Durante o almoço, marcaram o casamento. Deveria ser daí a dois meses. Antonio saiu da casa de Luzia muito contente. O pobre não podia avaliar o que lhe aguardava. Luzia foi dormir cedo. No outro dia, iria à cidade, já havia avisado ao Antonio. Desta vez, levou uma sacola cheia de roupa. Ficou o tempo necessário para tomar conhecimento de tudo sobre a viagem. Deveria ser daí a dois dias. Voltou o mais rápido possível. Na hora que Antonio chegou do campo, Luzia foi esperá-lo. Voltaram conversando e ela avisou-o que precisaria voltar à cidade. Ele concordou, pois confiava na noiva. Não podia imaginar nunca o que ela estava planejando. Na véspera, ela quase não dormiu. Mesmo assim levantou cedo. Antes de sair, fez o café e encheu os potes d’água. Sua mãe perguntou-lhe:

- Pruquê este madrugueiro, menina?

- Tenho que chegar bem cedo, vou voltar cedo.

- É mesmo, fia. Faz bem, mode não aborrecer Antonio.

Chegou rápido em casa de Alice. Antes da hora, as duas já estavam na parada do ônibus. Apesar de estar realizando um desejo muito antigo, ia com o coração despedaçado.. Chorou a viagem toda. Sua amiga reclamava:

Não sei por que motivo você chora tanto.

- Estou com pena da mãe. Fui muito má. Não sei como pode fazer tanta maldade. E o pobre do Antonio?

- Agora não adianta mais. Vamos pra diante. Foi isto que fizeram. Seguiram em frente. Rumo à Cidade Maravilhosa. Chegaram às 12 horas. Nesta época, a Rodoviária era na praça Mauá. Luzia, nesta altura, já não chorava. Os olhos muito abertos assombrados, admirava aquele cinema ao vivo em sua frente.

- Vamos, muié, pegue a sacola. Vamos pegar o ônibus.

- Outro ônibus? ! Já tô cansada de tanto andar de ônibus.

- Você quer ir de pé? É longe, disse Alice, rindo de sua amiga. Depois de Alice ter chegado a seu destino, tratou de levar sua amiga na casa onde Luzia ia trabalhar. Deixou-a aí, e foi cuidar da vida. Luzia, depois de ter conversado com sua patroa, entrou para o quarto onde deveria dormir. Enfrentou a realidade. Chorou. Sentiu saudades do quarto onde dormia. Pobrezinho, mas muito melhor do que aquele. Era bem maior. Tinha uma janela que vivia sempre aberta. Olhou para as paredes daquele pequeno cubículo, não tinha janela. Tinha um basculante que ela não conhecia. Subiu na cama para descobrir o que havia em frente. Deu com a parede cinzenta do prédio vizinho. Sentou-se na cama e chorou.

- Meu Deus, que arrependimento! Se meu pai me perdoasse, voltaria para casa. O que vai ser de mim?

Resolveu arrumar a roupa no pequeno armário do quarto. Ainda com a porta fechada, deitou-se e adormeceu. Acordou com a patroa chamando:

- Você não quer tomar banho? Tome banho e depois coma alguma coisa. Deve estar muito cansada. Hoje não, precisa fazer nada. Amanhã a gente conversa. Temos tempo bastante.

Luzia ficou animada. Tomou banho. Era a primeira vez que tomava banho de chuveiro. Mas não disse nada. A patroa mostrou-lhe como abrir a bica. Não quis comer. Deitou-se e dormiu profundamente.

Enquanto isso, os seus pais depois de procurarem em todos os lugares, foram até a delegacia. Deram queixa. Queriam que o delegado providenciasse a volta de Luzia. Nada conseguiram, Luzia era maior de idade. Severino quis culpar o vigário. Saiu reclamando da Igreja:

- Se o senhor não tivesse dado atenção, ela não tinha feito o que fez. É isto que dá muita leitura. Não pensei que minha fia fizesse uma coisa desta com nós. Nunca mais quero botar os óio nela.

Quem mais sofreu foi o Antonio. Fazia pena vê-lo. Não falava com ninguém. Cabisbaixo. Fumando o seu cigarrinho de palha, olhava para o céu, como se este pudesse informar alguma coisa. Se fosse hoje, diríamos que estava deprimido. Naquela época, não se falava em depressão. E Antonio não tinha tempo para isto. Cedo, com a foice no ombro, seguia para o campo. Chorava às escondidas. Era feio um homem chorar. Nas noites de luar, ia sozinho para a beira do rio. Ali sentado onde tinha estado com Luzia algum tempo atrás, tendo como companhia a lua, curtia a sua dor. A lua também chorava com ele. Mas ele não via as lágrimas dela. Ela estava muito distante. Antonio, porém, compreendia que os seus sentimentos eram percebidos pela rainha da noite. Consolava-se ao pensar nisto. Não sabia fazer poesia. Mas dentro dele havia muita poesia. Naquele momento, olhava para a lua refletindo sua luz dentro da água. Lembrava-se da última noite, quando com Luzia admirava aquela mesma lua. Não havia ninguém ali, por isso pôde dar vazão aos seus sentimentos. Chorou muito. Chorou como uma criança. Como foi bom chorar. Sentiu-se leve. Voltou para casa bem melhor. Triste, mas confortado.

O tempo passou. Antonio aos poucos foi superando o sofrimento. Casou-se, teve filhos. Tentava ser feliz e fazer sua companheira feliz. Mas sempre tinha a lembrança de Luzia presente em sua memória, e naquele dia esta lembrança estava mais viva.

Luzia ao enfrentar a morte não teve medo. Não estava só. Um grupo de pessoas conhecidas veio visitá-la naquela madrugada: seu pai, seus avós e alguns amigos. Pôde perceber que estava partindo para bem longe dali.

Nos momentos de lucidez, rezava muito. Lembrava daquilo que aprendera nas aulas de catecismo, em sua terra, quando menina. No seu encontro com a morte sentiu-se lúcida. Rezou. Apesar de ter perdido a voz e não pronunciar nenhuma palavra, em seu pensamento veio as palavras pronunciadas pelo Cristo na hora da morte. “Em vossas mãos entrego o meu espírito”.

Deus, que é Pai e justo, recebeu realmente o seu espírito. Naquele momento, ela foi escolhida pelo Criador. Quando as suas vizinhas chegaram, há muito não estava ali, apenas o seu corpo deformado pela fome e sofrimento estava ali presente.

Enquanto as pessoas discutiam e planejavam o que fazer, Luzia resolveu dar um passeio, rever as amigas. Foi até a sua terra. Todas com filhos já crescidos. Luzia sentou-se na pedra em que costumava ficar. Teve vontade de comunicar-se com elas, mas não foi possível. Pensou tanto que conseguiu transmitir a uma das amigas o seu desejo.

- Gente parece que vi Luzia ali, sentada naquela pedra. Quem sabe não morreu! ? Luzia saiu dali e foi até a sua casa. Avistou sua mãe bastante envelhecida, cheia de netos. Ficou feliz em saber que ela estava bem. Depois resolveu procurar Antonio. Ele ia saindo para o roçado. Achou graça quando o viu com uma mulher e os filhos. Resolveu puxar-lhe os cabelos como costumava fazer.

- Maria, você puxou meu cabelo?

- Tá doido? Eu não. Tô tão longe de você.

- Credo. Senti o cheiro de Luzia. Será que morreu?

Luzia resolveu voltar para o Rio. Ria e ria muito ao constatar a confusão que todos faziam em torno de sua morte. As suas amigas lamentavam:

- Coitada! Morreu tão só! Como vamos enterrá-la? Josefa lembrou-se de avisar ao antigo vigário que, durante alguns anos, pagara sua luz, todas as vezes, que era cortada. Atualmente Luzia vivia no escuro. Nunca mais achou quem lhe pagasse a conta de luz.

O padre assim que soube do ocorrido providenciou o enterro. Ali, junto ao corpo, celebrou a missa em sua memória. Na homilia foi muito feliz. Em sua mensagem disse:

- Meus amigos tenho certeza que a nossa amiga descansa junto ao Pai. Aquela, que viveu durante 6 anos sem a luz dos homens está sendo iluminada pela luz divina. Peço-lhe, Luzia, que me perdoe e, aí junto a Deus, peça perdão também por mim. Pela minha omissão. Nunca mais a procurei. Não sabia o que era feito de você. Interceda junto ao Pai por todos nós. Que sejamos iluminados pela luz da fé. Que a luz elétrica não atrapalhe a luz interior. – “Vós sois a luz do mundo”, diz o Cristo. Esta luz da qual o Cristo fala é a luz interior, é a luz que está dentro de nós. Precisamos mantê-la acesa. Os homens não podem cortá-la. Não custa dinheiro. Luzia, apesar da loucura, não deixou que ela se apagasse. Esta missa é por ação de graça. Ela não precisa mais de nossas orações. Peça, Luzia, que os homens que ainda não conseguiram ter esta luz acesa em seu interior, que a tenham agora. Que sejam iluminados. Só assim, poderão aliviar o sofrimento de nossos irmãos. Quantas ‘Luzias’ existem precisando de um pouco de conforto. Dê-lhes um pedaço de pão.

Luzia, ironizando, disse: - Precisei morrer pra ser lembrada.

Você ainda depois de morta foi lembrada, Luzia. Há aqueles que morrem como viveram, no anonimato.

- “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”.

Mas, voltando à terra de Luzia. Sua visita, depois de morta, causou confusão. Pensando no que acontecera naquela manhã, Antonio foi até a casa de D. Antonia, mãe de Luzia.

- Tarde, D. Antonia.

- Tarde, meu fio. Vamos cume um feijãozinho?

- Não, brigado. Maria tá me esperando. Vim té aqui porque aconteceu umas coisas esquisitas comigo.

- Que foi, meu fio? Conte logo.

- Quando ia pra o roçado, senti alguém puxá meu cabelo. Acho que era Luzia. Era como fazia pra me assustar. Penso que morreu e veio-me avisá.

- Sabe que hoje de manhã, parecia que tava aqui em casa. As menina, no rio, também parecia que viram mia fia.Vieram té qui me contá. Agora vem você com esta conversa. Acho que morreu memo. Agora só vou vê mia fia depois que morrê.

Ficou triste. Pensativa por alguns minutos. Depois olhou para o céu e disse:

- Deus lhe dê o céu!

- Amém! Respondeu Antonio.

Do Livro O CORAÇÃO NÃO ENVELHECE de Marília Benício dos Santo

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