Saber-Literário

Diário Literário Online

ESCREVO, LOGO EXISTO.

Postado por Rilvan Batista de Santana 22/03/2017

ESCREVO, LOGO EXISTO
Prefácio de “Fragmentos de Mim – Cartas e Crônicas de Uma Vida”

Levei um susto, outro dia. Fundi em minha cabeça dois escritores; Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Foi um momento de distração em que ficaram indiferenciados, no confuso arcabouço de minha mente cansada, o Mestre Guima e o Mestre Graça. Minas e Alagoas; Sagarana e Vidas Secas. Ambos são tão diferentes, mas têm até as mesmas iniciais; G. R. Isso ocorreu porque estava lendo as Primeiras Estórias, de Guima e, na mesma época fui com a família, ao SESC Pompéia para ver a mostra comemorativa dos 110 anos de Graciliano.


Foi apenas um susto, logo passou. Prontamente recoloquei as coisas em ordem em minha cabeça. A gravata borboleta em Mestre Guima e os seis cigarros sobre a escrivaninha de Mestre Graça. A confusão aconteceu enquanto estava campeando os espalhados fragmentos desarrumados que compõem a encadernação deste “livrinho”. Mas o quê têm os dois mestres com isso? Muita coisa e nadinha de nada, ao mesmo tempo. Ambos servem-me bem como paradigmas representando a gama de  todas as influências que tive na vida, a começar por mim mesmo. Graça escreve como gostaria de escrever e Guima como nunca haverei de escrevinhar.

Na tarefa de me passar a limpo, mergulhei em uma espécie de confessionário e fiquei surpreso com coisas que escrevi e das quais não tinha lembrança alguma, como também com outras recolhidas de diversos autores que me marcaram tanto que quase achava estar revendo textos meus. O resultado de tudo que recolhi, colocou-me em grande confusão, pois descobri não me lembrar de algumas coisas que fui, enquanto lembro de outras que nunca fui como se verdadeiramente houvessem sido.

Pelo menos entendi minhas influências e também porque “influenza” é nome para uma doença de febre forte. Nesse sentido o livrinho é uma "inventação de moda"; é o "juntamento" de coisas ansiadas, ensaiadas e jamais terminadas, que normalmente se joga fora, como os lenços de papel úmidos de uma febre mal curada.

Não sei exatamente o que me move a coletar os fragmentos escritos pelo meu caminho. Muitas pessoas que conheço não entendem porque tenho guardado tudo o que escrevo, sem jogar praticamente nada no lixo, mesmo que alguns textos não mereçam outro destino. Há mesmo, entre eles, os que demonstram como não se deve escrever. Mas são minhas marcas deixadas para contar que vivi e me lembrar de mim mesmo e de coisas que esqueci. E quando volto para tirar a poeira da surpreendente quantidade de "coisarada" que escrevi no passado, aproveito para, digitalizar os textos e reescrevê-los. Faço isso e, sem lhes tirar a originalidade, fico passando a limpo o que vivi até agora, respeitando o tempo e idade do que está escrito.

Mas ao longo dos cinquenta anos de poesias, contos, crônicas e cartas ainda me reconheço. Encanta-me gostar e concordar com a maioria das coisas que revejo. Nesse exercício, até livrei-me da ideia de que já fui muito melhor ou de já ter sido pior. Hoje, talvez escreva melhor, mas o que fica evidente é que o viver foi tornando, aos poucos, diferente o foco da minha atenção e, principalmente do modo de sentir as coisas.

A vida tem necessidades que vão se sobrepondo aos anseios emocionais e obrigando a privilegiar outros objetivos de vida. Mas, como um pano de fundo, o ideal deve ser mantido como um norte, pautando sempre nossas ações. Corromper-se é viver contrariando as crenças e objetivos idealizados na juventude. Sei que muitas vidas se estragam por abandono não desejado e pela dureza que o viver pode impor. Mas defendo o não abandono da utopia, porque se ela nunca se concretiza por estar sempre no futuro a nossa frente, ela também nos auxilia a manter um caminho de retidão e fidelidade a nós mesmos. Tenho sido sempre fiel a mim mesmo, o adolescente dessas primeiras páginas nunca morreu, assim como um ideal nunca deve morrer. E se não servirem para mais nada, estas páginas, frequentemente visitadas por mim, tiveram a função de me ajudar a ter coerência de conduta em todos os meus passos do caminho vivido.

Nesse livro não estão minhas poesias, já constantes em outras encadernações. Nem a ficção de meus contos, ainda por rever. Juntei cronologicamente todas as cartas e crônicas que encontrei, sem grandes pretensões literárias. As cartas obviamente tiveram seus leitores, as crônicas não. Estas geralmente eram escritas para um público imaginário que nunca tive. Todo escritor precisa ter leitores, mesmo que apenas em sua imaginação, pois é “para eles” que escreve.

Por isso preocupo-me em dizer a esses “leitores utópicos”, que algumas passagens podem não ser do agrado de uma ou outra pessoa, mas nunca escrevi para mascarar os fatos e, afinal, todos somos passíveis de cometer enganos, gafes, micos e deslizes de corpo e alma. O quê me faz recolher tudo o que já escrevi na vida, é a certeza de nunca ter feito nada de tão ruim ou vergonhoso de quê me arrependesse.

Nesta verdadeira “sagarana” de minhas “primeiras histórias” de vida, já não me surpreende mais a confusão de autorias. Sou o resultado de tudo o que li, tenha entendido ou não, tenha gostado ou não. O fato é que vivi escrevendo, logo, comprovando que existo.

Mateus Cosentino

Sampa – 27.09.2012

0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Tecnologia do Blogger.