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ARRELIA E ZÉ TRINDADE - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 02/03/2017

ARRELIA E ZÉ TRINDADE

No instante em que meus pensamentos vagavam ainda saudosos do primeiro amor ausente, a campainha da porta tocou. Fui atender. Era o carteiro trazendo uma carta, “Ao jovem Mateus”. Desta vez meu primo respondeu depressa, pensei. Mas, antes mesmo de pegá-la, consegui ver a escrita de atrás do envelope... Tremeu minha mão, minha visão se embaçou. Era dela!

Estupefato pelo inesperado, fiquei imóvel com a carta presa entre minha mão e a do carteiro. Ele logo largou o envelope e se foi. Não conseguia nem organizar os pensamentos. Finalmente, sentei no degrau da escada. Minhas mãos trêmulas, mal podiam suster a carta, não atinava como abri-la. Então respirei fundo... e...  a abri.

Meus olhos não podiam distinguir claramente os caracteres escritos. Porém, mesmo com certa dificuldade e as mãos geladas, a li. Terminava assim: “De sua sempre amiga”.

A carta fez passar um filme em minha mente e uma inesperada lágrima correu pela minha face. Sorri ao percebê-la, enxuguei-a e voltei para dentro de casa com o firme propósito de responder a carta.

Havia apenas dois meses - era janeiro de 1.959 - passáramos férias de verão com a família em São Vicente. Ela também. Em certa manhã, foi ela quem primeiro me viu e me escolheu. Nem a tinha visto quando se aproximou de mim entre as ondas de mar calmo. Iniciou o papo, depois que furei uma terceira onda.

Na mesma noite levei-a ao bailinho na casa de amigo. Ela adorou minha turma. Fomos então passear de mãos dadas na Praça da Biquinha. Eu nunca havia namorado ainda e também para ela era a primeira vez. Aos quinze anos, seu único propósito era se divertir nas férias e eu era o cara errado para isso. Levava-me muito mais a sério aos dezesseis anos do que agora. Mesmo assim, alegremente passamos a semana entre praia ensolarada e inocentes passeios noturnos.

No final de semana marcamos, junto à turma toda, um encontro  na matinê de domingo. Como cada um pagava a sua entrada, nos  encontraríamos “dentro” do cinema. Cheguei muito tarde e nunca atinei por que decidi não procurar ninguém e assistir sozinho a parte final do filme estrelado por Arrelia e Zé Trindade.

Quando ao final do filme as luzes se acenderam, vi o meu melhor amigo com o braço sobre os ombros dela. Fui até lá. Todos se assustaram ao me verem. O amigão, num reflexo, retirou o braço. Muito sereno e sério cumprimentei-os, informei-os calmamente que continuaria no cinema, para ver o início do filme na sessão seguinte.

Depois ela ainda me procurou. Ignorei-a. Mas agora iria escrever  uma resposta à sua primeira carta. Comecei e rasguei diversas vezes a primeira linha. Um turbilhão de pensamentos deixava minha mente confusa. Queria fazê-la sofrer, desejava demonstrar o erro que ela havia cometido. Mas, subitamente, toda essa ebulição estancou dando lugar ao fluir de um sentimento a tanto reprimido e comecei a escrever com a voz da paixão:

“Ao ver você partir, invadiu-me uma permanente inquietação de angústia! E esta é a primeira vez, em meus dezesseis anos de vida, que uso tal palavra. Claro, conhecia o significado, mas jamais havia sentido sua existência em mim mesmo”.


Parei aí. Estava começando uma carta melosa de um primeiro amor perdido. Mas pareci a mim mesmo que estava sendo um chorão. Então, virilmente conclui ser melhor fazer-me de frio e formal e escrevi um texto assim:

“Mariazinha. Eis-me aqui tentando responder sua carta, sem saber o quê dizer ou como dizê-lo. Quase não nos falávamos, quando estávamos um diante do outro, imagine agora, quando estamos  a dois meses de nosso último encontro em São Vicente. Tenho ido, de vez em quando, à casa de minha prima, Bel. Lá tenho sempre encontrado a nossa turma. Ninguém sabe que lhe escrevo, mas se soubessem também mandariam beijos e abraços. Quanto a mim, espero continuarmos sempre amigos”.

Enviei-a considerando conveniente seu protocolar. Foi o ponto final adequado, foi o término do reinado da primeira garota com quem namorei realmente. Foi o primeiro e o mais rápido namoro que tive. Durante uma semana, passeamos de mãos dadas e trocamos beijinhos até o desencontro na matinê. Naquele mesmo domingo ela partiu para sua cidade natal.

Depois dessa troca de cartas, nunca mais pensei nela com o exagero do primeiro sentimento de amor perdido. E muito menos lamentei a ausência da “sempre amiga”.

Entretanto aquela minha atitude cinematográfica de galã traído, quando as luzes iluminaram o cinema, impressionou muito a todos. Tanto que, passados esses dois meses, Aparecida, testemunha do fato e irmã daquele meu “melhor amigo”, já começava a ser minha segunda namorada.

A outra consequência da minha heroica atuação naquela matinê, é a lembrança de que, após o ocorrido, assisti novamente ao filme até o fim. Os dois maiores comediantes de então, fizeram graça o tempo todo, enquanto fiquei sem dar uma única risada e nem mesmo um simples sorrisinho de canto de boca.

Mas o quê mais me admira é lembrar tão claramente de tudo isso, após se passarem quase sessenta anos... O quê nunca se esquece? O primeiro amor ou o primeiro “ornamento capilar”?

Mateus Cosentino
Sampa – 01.03.2017


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