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A VILA- Helena Boraborema

Postado por Rilvan Batista de Santana 24/03/2017

A VILA - Helena Borborema

 Era uma tarde de princípios de março de 1907, quando os cavaleiros apearam num largo descampado, no coração da vila, às margens do rio Cachoeira. Bem em frente um sobrado senhorial se erguia, cheio de imponência e simplicidade ao mesmo tempo, como simples e cheio de dignidade era o seu proprietário, Coronel Firmino Alves. Nesse sobrado, residência da família Alves, hospedou-se por alguns dias o Dr. Lafayette, passando depois para uma casa de hospedagem na Rua da Areia, mandada construir pelo próprio coronel e destinada aos hóspedes distintos, geralmente homens de letras que para aqui  vinham a seu convite. As refeições eram feitas na pensão do seu Osório.
Helena Boraborem
 No dia da chegada, juntou-se ao cansaço da viagem uma situação tormentosa: a longa caminhada a cavalo tinha produzido no novato viajante, na parte do corpo em contato com a sela, uma enorme esfoladura e, como naquela mesma noite o sobrado encheu-se de gente, os amigos, familiares e correligionários do Coronel que lhe vinham trazer as boas-vindas, o advogado – o primeiro que chegava à Vila – era apresentado a todos. As apresentações se davam amiúde, e assim cada vez que se levantava e se sentava a roupa grudava e desgrudava da esfoladura provocando-lhe verdadeiro suplicio.
Assim chegou o Dr. Lafayette de Borborema à nova Vila de Itabuna, trazendo, como capital a sua mocidade, seu idealismo e vontade de trabalhar
Na véspera da chegada tinha havido um conflito (na hoje Avenida do Cinquentenário) com mortos e feridos.

 Realmente a terra não era de forma alguma pacata. Ao contrário, o perigo espiava em cada beco. Cada árvore podia ser uma tocaia. A média era de um crime de morte por dia; atiravam de emboscada, atiravam a esmo  para experimentar a arma, cujo alvo era qualquer pessoa   que no momento passasse ou estivesse ao alcance da mira. Eram os jagunços, os clavinoteiros apaniguados de seus patrões. Rara era a pessoa que não trazia consigo uma arma.
 Na vila, como no interior, além dos jagunços, havia os inspetores de quarteirão, exibindo tanto uns quanto outros suas armas brancas e de fogo, curtas ou compridas, um facão à cintura, uma repetição ou clavinote e uma pala sobre os ombros. Havia sido instalado o Termo da Vila de Itabuna, porém nenhuma garantia havia para o cidadão.
 Mas apesar dessa turbulência, a vila fazia sentir que as suas raízes estavam fincadas em solo ubérrimo, onde o progresso não tardaria a brotar com a mesmo pujança e vigor dos frutos de ouro. As ruas não eram niveladas nem as casas tinham alinhamento, mas o comércio já era desenvolvido. Pelas ruas lamacentas, tropas conduziam mercadorias e cacau. Chovia com muita frequenci a e à noite caía sempre muita neblina. Não havia luz elétrica e as ruas eram muito escuras. A mata ficava próxima e à tardinha, quando a brisa soprava, espalhava-se pela vila o cheiro do cacau secando ou fermentando nas roças por perto.
 A pequena população ordeira que na vila mourejava parecia ter uma têmpera de aço. Nem jagunços nem violências, nem insegurança abatiam o ânimo daqueles titãs. Parecia que o  perigo era um desafio à sua audácia; cada vez mais eles se apegavam à terra e o que é mais interessante – a amavam.
 Do solo fértil brotava a riqueza. Os grãos escuros e amargosos do cacau eram ouro, era a fortuna que crescia e dava “status”, era o poder.
 Aos poucos a vida social de Itabuna foi se estruturando; gente trabalhadora, ordeira, ia se estabelecendo nas mais diversas atividades. Eram artífices, trabalhadores braçais, profissionais liberais, comerciantes, agricultores que chegavam e iam se integrando. Todos com vontade de trabalhar, progredir e fazer a grandeza da terra. Esse grupo cresceria e com ele a vila de Itabuna.

(LAFAYETTE BORBOREMA – UMA VIDA, UM IDEAL)

Autora: Helena Borborema



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