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Viuvez, Divórcio e Liberdade - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 02/02/2017

Viuvez, Divórcio e Liberdade.


Certa vez, na sala de espera do meu cardiologista, duas mulheres conversavam na poltrona de frente à minha, atrapalhando o preenchimento das palavras cruzadas que eu estava fazendo. Suas vozes me desconcentravam e também me obrigavam a ouvir trechos entrecortados  da conversa das duas “senhorinhas” de meia idade. Ao que me foi dado entender, uma delas era viúva recente e estava se lamentando da falta que sentia do falecido, principalmente dos abraços e beijos que constantemente trocavam.


A outra queria aconselhar, mas enchia-se de cuidados sobre o quê iria dizer. Quando me levantei para entrar na sala do médico, ainda consegui ouvir um “me desculpe, não me entenda mal, mas acho  que você precisa de companhia masculina...”. Quase parei na porta do doutor para escutar a  resposta ao conselho. Entrei, mas ainda deu para captar o “mas ainda amo...” Quando saí do consultório elas ainda estavam lá, agora conversando sobre outras coisas. Acho que olhei meio insistentemente para as duas, que certamente confundiram meu olhar de curiosidade com alguma outra coisa.

Voltando para casa, no metrô, veio à minha lembrança um filme com Jack Nicholson cujo nome nunca recordarei. Logo no início do filme, o personagem voltava a sua casa após o enterro da sua esposa. Indo ao banheiro, uma espécie de sentimento de liberdade contra a imposição da mulher de convencê-lo a urinar sentado para não molhar fora do vaso, o fez urinar de pé e propositadamente regando tudo à sua frente. O filme inteiro foi uma busca de libertação sem objetivo definido, terminando num choro de quem parecia estar confuso com seu futuro e sentindo-se solitário, saudoso do seu recente passado perdido.

Certamente estas coisas tomavam conta dos meus pensamentos porque há apenas dois dias atrás havia ido visitar Mirian, uma amiga de longa data que inesperadamente para mim, acabava de se divorciar. Esperava encontra-la triste e pesarosa, mas a encontrei, alegre e sorridente. Ante minha surpresa, ela enfática declarou: “Acordei”!

Eu não ia muito com a cara do seu marido, um sujeito cheio de si, ríspido e que também me via sem muita simpatia. Entretanto não atinava o porquê da separação, após tantos anos de matrimônio aparentemente bem resolvido. Ela riu muito da expressão “aparentemente bem resolvido”. Ao parar de rir, olhou-me de um jeito sério e, pedindo desculpa, disse não esperar de mim, “uma pessoa inteligente”, julgar um relacionamento apenas pela aparência. Então começou a contar o que chamou ironicamente de “verdade por trás das aparências”.

- “Fui maltratada, ofendida e achincalhada, a ponto de me sentir como um verme. Pela imensa dedicação aos  meus filhos, por 20 anos de minha vida submeti-me quase em condição de escrava, a um machista controlador que me fez sentir como se fosse a escória do mundo. Só isso!”

Vendo que eu estava pasmo, silente e sem me mexer, ela continuou.

- “Mas acordei ainda a tempo de me sentir merecedora de respeito e consideração. Reuni forças para me separar e demonstrar capaz de desenvolver uma nova vida descente e produtiva. É assim que me sinto agora: Liberta!”

Tenho uma amiga advogada em causas da Vara Cível que constantemente me conta motivos de divórcio inimagináveis e mais de uma vez me informou que a maior concentração do número de separações ocorre por volta dos 30 anos de casamento, quando os filhos já estão criados e independentes dos pais. Entretanto, aquela conversa reveladora com Miriam deixou-me impressionado com o incrível contraste existente entre a aparência e a realidade de uma relação matrimonial.

São muito claros os indícios de que principalmente o divórcio, mas também a viuvez causam uma sensação de alívio e liberdade e a busca de independência. É certo que depois de um período de querer “cair na gandaia”,  os “novos solteiros” (principalmente os homens) acabem escolhendo nova parceria.

Entretanto para as mulheres que se dedicaram ao lar e a serem mães exemplares, nem sempre essa sensação redunda em real autonomia e simplesmente ficam sem saber o quê e como fazer. Há exceções é claro, porém entre a fase libertina e a nova decisão de vida, geralmente acontecem muitos enganos e desenganos. Também muito sofrimento, permeado ou não de saudades ou arrependimentos, complicam a tomada de decisões. Além disso, a presença da família, filhos e netos dificultam aos “descasados” viver suas “novas vidas” plenamente libertos e felizes.

Para ambos, mulheres e homens, quanto maior tenha sido a infelicidade do matrimônio rompido e, principalmente, quanto mais jovens e mais instruídos estiverem ao se tornarem viúvos ou divorciados, mais facilmente se tornarão livres, independentes e felizes condutores de sua própria vida.

Sou bem casado há 45 anos e não tenho a vivência da separação conjugal. Mas o conhecimento adquirido sobre o assunto me leva a pensar que o sentimento do amor perdido – mesmo que o amor tenha se exaurido – vem frequentemente visitar viúvos e divorciados, como um fantasma do passado, atrapalhando a realização da nova liberdade, independentemente sexo, idade ou instrução.


Enviado por e-mail por Mateus Cosentino
Sampa – 01.02.2017



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