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Quem foi frei Ludovico?

Postado por Rilvan Batista de Santana 13/02/2017

Quem foi frei Ludovico?

Giuseppe d’Anton Franco Ghelli, nome secular do frei Ludovico, nascido na cidade toscana de Livorno (Itália), a 26 de julho de 1773, era filho de Anton Francesco Ghelli e Maria Videdomini, de quem recebeu uma educação voltada para os valores religiosos.
Influenciado pelo clero da sua cidade de origem, através do padre provincial Micheangelo do Santo Sepulcro, foi admitido na Ordem dos Frades Menores Capuchinhos a 8 de outubro de 1794, aos vinte e um anos de idade, no Convento de São Pulciano. Como principiante da congregação, foi transferido de imediato para a localidade de Pistoia, onde exerceu funções de noviço conforme rezavam as normas da constituição e o tempo previsto pelos mandamentos da sua confraria.
Três anos após ter iniciado a vida religiosa, Giuseppe Ghelli proferiu, em 1797, os votos perpétuos, tornando-se um adepto da ordem dos Frades Menores Capuchinhos, tendo recebido o nome religioso de Frei Ludovico de Livorno, segundo a tradição cristã católica, que vigorava em todas as suas Ordens. Em 1803 concluía integralmente os seus estudos, tornando-se apto para o exercício do sacerdócio. No ano seguinte, foi qualificado como mestre ou mentor de um grupo de jovens religiosos neo-professos, no Convento de São Lourenço.
Entre 1804 e 1805, frei Ludovico continuou preparando-se para uma nova dimensão de vida. Solicitou à cúpula de sua Ordem para que fosse indicado para o exercício missionário em terras do “Novo Mundo”. Essa a razão da sua chegada à região sul da Bahia.
Aliado à pregação dos princípios do cristianismo, o frei procurou exercer junto aos Camacan e aos aldeados das Ferradas trabalhos de agricultura, artesanato, construção de pontes e estradas. Além dessas atividades, exerceu outras funções como vigário, enfermeiro, médico e, principalmente, conselheiro e mediador.
No período oitocentista, passaram por estas terras alguns cientistas franceses em expedições, dentre eles H. Perret, que obteve valiosas informações sobre características étnicas e antropológicas dos Camacan, fornecidas pelo missionário de Livorno, que era um observador atento dos hábitos e costumes dos seus catequizados. O resultado desse contato foi a produção de vários artigos publicados no periódico O Crepúsculo, de Salvador. No artigo “Aldeia do Bom Padre”, publicado nesse jornal (1846), ressaltou Perret, com minúcias, as realizações missionárias do capuchinho como diretor da aldeia de São Pedro de Alcântara e o seu trabalho de apaziguador dos índios que habitavam as matas da região limítrofe à aldeia de Ferradas. Perret também observou em seu trabalho o valioso empenho de frei Ludovico enquanto agente promotor da paz e boa convivência entre os Pataxó e os Botocudo, também conhecidos por Camacan. Nem só de aceitação foi a presença de frei Ludovico junto ao aldeamento das Ferradas e às populações indígenas. Épocas desfavoráveis permeadas por épocas de bonança colocaram à prova a serenidade e a tenacidade do frei, no que se referia à sua capacidade de amar o próximo.
Por volta de 1816, o trabalho missionário produzia bons frutos. Para a aldeia de São Pedro de Alcântara foram transferidos, do aldeamento de Nossa Senhora da Conceição do Almada, treze famílias de índios Green, e atraídos mais cento e vinte famílias de Camacan que foram todas catequizadas e se tornaram a população do sítio. Mais tarde, uma epidemia de febre amarela alastrou-se por toda a região, fazendo vítimas, o que assustou os indígenas, que fugiram para os sertões. Ferradas ficou quase despovoada. Frei Ludovico não se deixou abater, procurou reorganizar a aldeia através de nova atração dos índios que estavam dispersos nas matas que circundavam as bacias dos rios Cachoeira e Pardo. Novamente os trabalhos manuais e catequéticos foram desenvolvidos fazendo com que a
aldeia fosse repovoada. Frei Ludovico enfrentou sérias dificuldades para repovoar a área, devido à política duvidosa do
governo provincial e embaraços de outros gêneros como, por exemplo, a falta de recursos financeiros e segurança.
A defesa do aldeamento contra as incursões dos índios “incivilizados” também foi alvo da preocupação do missionário. Mesmo com todos esses problemas, o missionarismo capuchinho na Comarca dos Ilhéus ia gradativamente se consolidando.
Entre os anos de 1825 a 1855, a aldeia de São Pedro de Alcântara das Ferradas cresceu bastante em termos econômicos. Isso se deveu ao auxílio do frei Francisco Antônio de Falerna, que, sob o comando de Livorno, trabalhou respaldado pelo Governo Provincial e implantou novas culturas, tais como a do cacau, café e outros produtos agrícolas. “Neste período calculava-se a sua produção em 20.000 pés de cacau e outro tanto de café, além do cultivo do arroz e da mandioca. Ocupava uma légua de terra não
demarcada que, provavelmente, já começava a ser invadida” . A partir de então, Ferradas tornou-se a missão mais importante da Comarca de Ilhéus. Alguns fatores contribuíram para tal posição: econômicos, localização geográfica e estratégica, ou seja, por estar relativamente afastada do litoral e, da vila de Ilhéus, apenas a 8 léguas. Tornou-se a aldeia referencial para outros aldeamentos da região, tendo em vista o trabalho missionário do capuchinho de Livorno e seus sucessores.
Além de São Pedro de Alcântara, frei Ludovico, em seu trabalho missionário, dotou a localidade de capelas, represas, estradas, pontes e cemitérios. Ensinou à população do lugar a trabalhar com artesanato, olaria e em lavouras para a própria subsistência.
Ao sistematizar as missões em regiões sul-baianas, o frei estava colaborando com o governo provincial no processo de desbravamento, de expansão da cultura “do branco” e, consequentemente, deixando a “semente” para futuros assentamentos de povoados e vilas. Para evangelizar os Pataxó e os Camacan, frei Ludovico teve que palmilhar lugares lúgubres, inóspitos, habitados por animais e répteis venenosos.
Durante trinta e dois anos de ação missionária, o frei Ludovico trabalhou com a comunidade dos Camacan e Pataxó, onde fixou o seu “quartel general”, tornando a aldeia de São Pedro de Alcântara o maior centro de difusão missionária da região meridional da Província da Bahia, de 1816 a 1848, lutando, persistentemente, pela conversão dos gentios, em benefício dos quais gastou toda a sua energia e saúde.
Cansado, doente e quase cego, em razão das duras práticas da catequese nas missões capuchinhas, o religioso de Livorno ausentou-se da aldeia das Ferradas ao término de 1848 e fixou residência em Salvador, no velho Hospício, onde veio a falecer aos setenta e seis anos de idade, dos quais cinquenta e cinco dedicados à vida religiosa e ao exercício missionário. Faleceu em 27 de dezembro de 1849.

Do livro: "De Tabocas a Itabuna" - Maria Palma Andrade e Lurdes Bertol Rocha.


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