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O CARNAVAL DO PADRE - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 15/02/2017

O CARNAVAL DO PADRE

No segundo semestre de 1955, não sei por quais caminhos, meu irmão Mansueto, aos dez anos passou a ser “coroinha” na Igreja de Santa Generosa, da Vila Mariana. Eu tinha então doze anos e não lembro se ele lá chegou por vontade de mamãe ou por escolha do religiosíssimo Dr. Vicente de Barros Filho, Diretor de nosso Colégio Atheneu Brasil. Mas o importante é que ele passou a auxiliar as missas de fim de semana, juntamente com nosso amigo e vizinho José Ferreira da Cruz  da mesma idade dele.

Padre José, o pároco de Santa Generosa, era uma pessoa dedicada ao sacerdócio, que exercia com empolgação e competência, cuidando de todas as diversas congregações de leigos de sua igreja, ensinando catecismo, promovendo leituras de Bíblia, festas e eventos diversos e até teatrais e, claro, ministrava as principais missas.

Se bem me lembro, a mãe do Zé Ferreira era uma boa costureira e iria confeccionar o traje de coroinha do  seu filho. Nossa mãe pediu para ela que fizesse também a vestimenta para meu irmão. A foto que o próprio Padre tirou dos seus coroinhas ilustra o acontecimento.

Além de suas tantas expertises já citadas, o Padre José tinha algo de promoter. Ele tirou a foto dos novos coroinhas. Além do amigo e do irmão citados, nela há outros dois coroinhas. Estes, de famílias mais abastadas, compraram seus uniformes em lojas especializadas do ramo religioso. Isso foi o suficiente para colocá-los à frente na fotografia. Suas “saias” tinham o comprimento correto na altura dos sapatos, enquanto a dos outros dois mostrava até as canelas. Mansueto, meu irmão, muito obediente, quase se escondeu atrás do menino com o turíbulo, como recomendara o Padre. Entretanto Zé Ferreira não obedeceu, estava orgulhoso da farda feita pela sua habilidosa mãe e quis parecer por inteiro.


O orgulho de Dona Mariana,  nossa mãe, era outro. Era mostrar a todos seu filho ajudando o Padre José a rezar missa em Latim. Então ninguém em casa poderia faltar aos eventos coadjuvados por seu segundo filho. E com essa e outras acabei virando Cruzado e depois Apóstolo Eucarístico, participando com orgulho de todos os eventos da Igreja, com uma faixa azul no peito, que gostava de mostrar a todos.

Dois anos depois eu e Mansueto já éramos Congregados Marianos e então nosso maior interesse eram as menininhas da congregação Filhas de Maria. Relacionávamo-nos com elas baixo à rigorosa supervisão do pároco em procissões, missas, festas, esquetes de teatro, jogos de ping-pong, com a alegria da juventude, mas praticamente sem toques e “pensamentos pecaminosos”.

Mas, aos catorze anos me apaixonei por Zélia. Ela era tão bonita e tão cândida que sempre representava Nossa Senhora em nossos teatrinhos. Mas como poderia namorar uma criatura tão angélica? Até hoje ela não sabe do meu amor, embora houvesse vezes em que ela parecia alegremente desconfiar disso.

Padre José preocupava-se com seus paroquianos. Parecia que comigo tinha especial preocupação, acho que porque poucas vezes me confessava. No Carnaval de 1958 dos meus quase quinze anos, sua preocupação com meus pecados chegou ao maior nível. Pensei que talvez temesse minha perdição, mas vi que não era só a minha, preocupava-se com todos.

Então o Padre criou um “Carnaval Alternativo”. Convenceu seu Congregado preferido, a ceder um espaço na garagem do luxuoso edifício em que residia. Cedeu a “vitrola” da Paróquia e não sei como conseguiu alguns LPs com músicas de carnaval. Escolheu minha amada Zélia para coordenar e convidar Congregados e Filhas de Maria para o evento carnavalesco.

No sábado de Carnaval, cheguei à garagem foliã, onde já esperavam o dono da festa e Zélia, com tudo preparado para a “folia”. Nós três esperamos os outros por cerca de uma hora e ninguém mais apareceu. Eu e o morador do prédio quisemos suspender a festa, mas Zélia, fiel cumpridora da ordem do Padre José, insistiu em iniciarmos o “baile”, pois poderiam chegar outros foliões.

Nunca participei de um mico mais ridículo. Três jovens pulando ao som de músicas carnavalescas, sendo olhados por alguns moradores do edifício curiosos e assustados. E Zélia conseguiu manter esse martírio alegórico pelo longuíssimo tempo de uma hora, até que suados de tanto pular, resolvemos acabar com a festa.

Isso foi o fim. Meu amor por Zélia acabou, pois não acredito em “Nossa Senhora do Carnaval”.
Ela perdeu seu encanto e sua imagem angelical. Transformou-se em uma adolescente de mão suada, forçando uma alegria constrangedora. Acho que foi o fim até da minha religiosidade. Aos poucos fui abandonando a Igreja de Santa Generosa e deixando abandonado meu catolicismo.

Os bailinhos de sábado nas casas das menininhas más de famílias boas, eram muito melhores, mais “calientes” e promotores de namoricos. E os próximos Carnavais, passei nas inesquecíveis matinês quase familiares do Tênnis Clube Paulista, onde eu tinha o privilégio de ser protegido do Presidente Artur Reis, meu tio.           

Mateus Cosentino

Sampa – 15.02.2017

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