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LEMBRANÇA E ESQUECIMENTO - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 08/02/2017

LEMBRANÇA E ESQUECIMENTO

Meus amigos antigos da adolescência – hoje, na grande maioria, septuagenários, como eu - constantemente discordam e se exasperam com as reconstituições que faço de nossas recordações. Então vou tentar abordar o assunto lembranças, tomando como fonte o artigo “Nas Cercanias das Falsas Memórias”, da Professora Raquel Eloisa Eisenkraemer.

Vamos, logo de início afirmando que o caráter e personalidade de todos nós são moldados pelo conhecimento, isto é, pelas lembranças e esquecimentos que mantemos  e que constituem nossa memória. É o que permanece na memória que permite nossa interpretação do mundo, de nós mesmos e o modo como absorvemos, julgamos e atribuímos valor aos novos conhecimentos. Assim, podemos dizer que pensar é processar tudo o que temos arquivado na mente, para dar sentido a nossa existência.

Dada esta premissa como verdadeira, concluímos que não pode haver conhecimento e mais ainda; inteligência, sem a memória. Sem ela perde-se a capacidade de raciocinar, ou seja, entender e concluir todo e qualquer conhecimento adquirido. Enfim, perde-se a capacidade de discernimento e, portanto a inteligência. A perda de memória causada pelo Mal de Alzheimer demonstra estas afirmações. São sintomas dessa doença, a perda da capacidade de recriar o passado e, consequentemente, a conexão com as pessoas que conhecíamos e até com nós mesmos.

A memória é simplesmente a capacidade de ter, evocar e reconstruir lembranças. Recordar é um processo imaginativo frágil e sujeito a distorções. É perfeitamente natural muitas de nossas lembranças nos virem à memória sem total exatidão. Lembrar é uma reconstrução imaginária de experiências passadas, gerada a partir de algum detalhe de momento que aciona o processo de recordação. Dependendo de fatores como antiguidade, intensidade e frequência de uso, a lembrança vinda à mente, isto é, a fragilidade do que está sendo relembrado pode  conter poucos ou muitos esquecimentos.

Hoje a fotografia e filmografia permitem se transmitir um fato exatamente como ele é e assim fica gravado para a posteridade. Mesmo assim pode haver distorções de imagem, ilusões de ótica e campos escuros. Mas se isso acontece com a imagem dos fatos, podemos imaginar a distorção das simples lembranças, recriadas pela memória inexata como descrito acima. Essas distorções produzem “Memórias Paralelas”, imperfeitas em relação ao que de fato aconteceu.

Imagine-se como podem ser caóticas as distorções dos relatos e representações dos acontecimentos passados. Consideremos que tais distorções nos chegam desde épocas paleolíticas, passando pela escrita cuneiforme nas pedras, pelos papiros, manuscritos,  impressos e pinturas de todos os livros, revistas e jornais contendo documentos existentes em museus, pinacotecas, bibliotecas e livrarias. Sem falar das obras de arte, arquitetura, antropologia e paleontologia, ou seja, de tantas descobertas reconstruídas a partir de objetos incompletos.  Toda essa documentação vem com reproduções de fatos através do que foi lembrado sobre eles.

Assim, podemos inferir que todo o imenso acervo da cultura humana certamente criou inumeráveis “Memórias Paralelas” que permeiam nossas “Memórias Hereditárias”, “Memórias Coletivas” e outras abstrações. Note-se que estas “memórias abstratas”, estão colocadas no plural, pois são várias, dependendo de interpretações, posturas ideológicas, política, histórica, religião, humanismo, tecnologia e da má fé de quem as utiliza. Portanto o esquecimento e a inexatidão das lembranças dos fatos são importantes causadores do caos intelectual em que vive nossa moderna civilização. 
E por que não dizê-lo?: A inexatidão das lembranças e esquecimentos são causadores da fragilidade de nossas posturas pessoais, construídas com diferentes lógicas e ideologias, cuja resultante consideramos ser a “nossa sabedoria”.

Mas a Professora Raquel, em quem nos baseamos, segue sua tese nos transmitindo uma interpretação descritiva da memória categorizando-a por tipos. Deixemos, portanto as implicações históricas e sociológicas e voltemos à nossa fonte original.

Existem apenas duas Categorias de memória:
•             Declarativas, são as acessíveis à consciência, voltadas aos fatos, ideias e eventos.  Usualmente nos referimos a esta categoria, quando tratamos de “memória”.
o             As memórias declarativas variam conforme o modo como são adquiridas, da intensidade de sua duração e de acordo com a maneira como foram codificadas, armazenadas e a intensidade em que são evocadas. Diferem também  quanto ao tipo de esquecimento a que são sujeitas.
•             Não declarativas, são inconscientes e por isso imutáveis. Não são expressas por lembranças, mas por mudança de comportamento.

Há os Lapsos de memória: Erros de constituição da memória declarativa que são assim qualificados:
•             Erros Criativos: Inexatas,  as memórias podem conter tanto esquecimentos, como invenções. Ou seja, nossa imaginação criativa apaga ou fabrica, criando uma informação nova, diferente da original,
•             Memórias reprimidas: Estas ficam retidas na mente por causarem sofrimento, se e quando lembradas.
•             Memórias Falsas: Lembranças de eventos formados só em nossa imaginação, a partir de  “realidades” que nunca existiram. Surgem da combinação de várias recordações verdadeiras, ou baseadas no que lemos ou ouvimos dizer e inclusive de sonhos.

Em todos os casos categorizados acima, estamos tratando de processos verdadeiros de reconstituição da memória. Não vamos, portanto incluir aqui as Memórias Mentirosas, aquelas conscientemente elaboradas com a única intensão de enganar e tirar proveito da boa fé alheia. São engodos e não memórias e por isso não cabe analisá-las aqui.

Porém mentiras proliferam tanto em nossa civilização, que fica muito difícil identifica-las, separá-las da verdade, Além disso, para muita gente, é totalmente impossível viver sem mentir.

Mentir tem uso tão frequente e corriqueiro, que faz a gente até se envergonhar de ser honesto, como diria Ruy Babosa.

Mateus Cosentino
Sampa – 08.02.2017  
   


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