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EU, DANIEL BLAKE: QUANDO O SISTEMA MATA -Fernanda Villas Boas

Postado por Rilvan Batista de Santana 21/02/2017

EU, DANIEL BLAKE: QUANDO O SISTEMA MATA
publicado em cinema por Fernanda Villas Boas
Filme dirigido por Ken Loach, “Eu, Daniel Blake”, que lhe garantiu a segunda Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016 nos acorda para a estupídez da burocracia e a gradativa pobreza do capitalismo.
 
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Este filme de Ken Loach (2016) vai direto no seu coração, e sem que você perceba cria uma enorme empatia com Daniel Blake (Dave Johns) um viúvo que, aos 59 anos, sofreu um AVC e é posto de licença médica. A trajetória segue o ponto de vista ideológico e humanista através do herói popular, muitas vezes, tão parecido conosco. Nossas fraquezas e nossas forças vão sendo expostas na ferida de Daniel. Embora os médicos não o liberem para voltar ao trabalho, uma vez que ainda está enfraquecido fisicamente, o outro setor da burocracia estatal, a que lhe garante o pagamento da pensão, insiste que ele pode voltar e deve também procurar trabalho.

Ao procurar os benefícios do Estado que lhe concedem uma forma de subsistência, vê-se preso a uma burocracia injusta e constrangedora. Teve licença médica pelo AVC sofrido, já que ele continua frágil para exercer uma profissão fisicamente exigente. A burocracia estatal na Inglaterra insiste que ele pode voltar e deve também procurar trabalho. Estamos diante de Oewell quando previu em seu Big Brother, um aparato que dominaria toda a sociedade tornando-a autômata, com deveres a cumprir e falas já decoradas, perdendo completamente qualquer traço humano. Todos têm atitudes erradas diante dos problemas e ao invés de resolver, eles prendem a pessoa em, diversos departamentos que nada resolvem e a questão se alastra.

Durante uma espera numa repartição da Segurança Social conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira de duas crianças a precisar de ajuda urgente, que se mudou recentemente para Newcastle (Inglaterra). Daniel e Katie, dois estranhos cujas voltas da vida os deixaram sem forma de sustento, vêem-se assim obrigados a aceitar ajuda do banco alimentar. Da necessidade básica humana nasce uma forte amizade entre os dois e as crianças de Katie. Preso num labirinto burocráticos, Daniel afirma sua sabedoria de homem simples, compondo um emocionante protagonista que nos cativa a primeira vista, por sua empatia e sensibilidade. Katie e seus dois filhos estão literalmente passando fome, dependendo dos chamados “bancos de alimentos” e Daniel se aproxima delas como uma forma de se fazer útil, passa a frequentar a casa da amiga, ajudá-la com as crianças e fazer pequenos consertos já que ele é um carpinteiro.

Daniel tem um olhar positivo dentro de um sistema ligada ao acesso limitado de procura pública, mentindo e humilhando Daniel que vai criando defesas e se conscientizando de que ninguém fará nada por ele. Desesperado picha uma parede enorme do prédio público com suas palavras: “ I, Daniel Blake.......e vai preso. Todo e qualquer ato é reprimido, e sua pressão se mistura às dores de Katie a quem ele orienta paternalmente. O desenvolvimento da personagem o faz valente e mais consciente da realidade, quando diz: quando você perde o auto respeito, você se acaba.” A fala dupla e sem humanidade acordam Daniel que observa os demais, entre os quais Katie que perde seu abrigo público por uma goteira e é através de Daniel que ela passa a confiar na vida e no ser humano. O filme é um aviso. Daniel somos todos nós, escravos de um sistema corrupto, organizado para nos dar zero chances. A desumanização vinda dos sistema burocrático espelha ideologicamente os objetivos do governo. A vida insossa e crua das repartições, secretarias e outros órgãos públicos que capricham em sua estupidez maquinal. Daniel morre, mas com sua morte morremos um pouco. Mesmo corretos, mesmo sinceros, afetuosos, esperançosos, morremos a cada dia num banheiro público tentando negociar nosso direito de viver como gente que somos.


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