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DOMINGO NA MOOCAMateus - Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 22/02/2017

DOMINGO NA MOOCA

Domingo de manhã. O taxi já estava parado diante da nossa porta. Eu e meus irmãos esperávamos o grito de mamãe: “O taxi taí”! Papai fechava o Estadão e completava a ordem: “Vamo, vamo, vamo”. Eu e meus três irmãos, nos levantávamos do sofá e íamos em fila, para nossos lugares determinados no carro. Mamãe já se ajeitava no banco traseiro com Maristela de um aninho, no colo. Papai, já sentado ao lado do motorista, esperava Márcio (3 anos) ir sentar no seu colo para fechar a porta. Eu (11) esperava Mauro (7) e Toninho (9) entrarem no carro, para me acomodar e fechar a porta traseira. Todos rumo à Mooca!
 
Era o ano de 1954, quando íamos de 15 em 15 dias, visitar nossos avós maternos no sobrado da Rua Almirante Brasil. Sempre era festa o almoço a lá italiana; repleto de comida, risadas e discussões à mesa na sala de jantar. Era uma mesa redonda e enorme, cabiam quase todos, exceto as crianças que comiam em outra mesa menor na cozinha.

Ali, éramos servidos antes dos adultos e, além da comida, recebíamos o carinho das tias Nega, Maria e Rosa, as gêmeas e da caçula Cleide, a que mais fazia festa conosco. Raramente estava ali o tio Tico, que, sempre aos domingos, ia namorar. Vovô Leone esperava todos se sentarem para ocupar seu lugar à mesa. Vovó Filomena mantinha vago o seu lugar, pois não conseguia parar de trazer pratos, travessas, copos e talheres.

Com oito, às vezes nove, italianos à mesa era praticamente impossível não haver discussões, A primeira sempre era para fazer vovó se sentar. Às vezes havia uma disputa entre as mulheres para atender ao choro da nossa irmãzinha. Sempre se brigava por falta de um copo, uma faca ou outro talher esquecido. O que nunca se esquecia era o guardanapo de papai, o único que tinha um.

Depois do almoço as mulheres iam todas à cozinha para lavar e guardar as louças do almoço. Riam muito, brigavam muito e uma sempre encontrava um motivo para choramingar. Vovô subia a escada silencioso e ia tirar um longo cochilo em seu quarto. Papai sentava-se na poltrona e passava a tarde lendo seu jornal. Tia Nega era a única que o interrompia para perguntar coisas sobre o seu novo trabalho bancário. Papai tinha um alto cargo no Banco do Commércio e Indústria, onde trabalhava há 18 anos, desde seus 29.

Eu e meus irmãos íamos brincar ora no quintal atrás da casa, ora no jardinzinho à frente, Só eu e Toninho tínhamos autorização de ultrapassar o portão e ficar na calçada da rua. Geralmente lá aparecia uma vizinha da minha idade e ficávamos conversando. Ela foi batizada com o sobrenome da artista de grande beleza, Gene Eliza Tierney. O sucesso do filme “Laura” no ano que a menina nasceu motivou a mania italiana de dar nome astros do cinema americano aos filhos.

Quando na escola quis contar vantagem de que tinha uma namorada na Mooca, minha turminha duvidando quis saber o nome dela. Quando disse; Tiérne (carregando no “é”) a risada foi geral. Aos 11 anos, nenhum dos meus amigos jamais havia escutado um nome tão estranho. Nenhum deles tinha ouvido falar da famosa atriz de “Laura”, filme com mais de 10 anos. Nem eu.

Mas ao acordar no domingo em que íamos à Mooca, eu já ficava pensando em Tiérne e em nossas conversas infantis. Toninho sempre estava junto, mas ficava quietinho, só ouvindo. Após alguns fins de semana, nossos encontros após o almoço já haviam se tornado habituais.

Porém eu não sabia que isso estava causando certa animosidade da turma da Rua Almirante Brasil. Eram uns seis moleques “oriundi” que nunca permitiram que eu e Toninho jogássemos o futebol de rua com eles, embora  também nunca impedissem de olharmos eles jogando. Até se esmeravam em demonstrar que eram bons jogadores. Nunca os vi com Tiérne, parecia até que eles nem a conheciam. Por isso nunca tive nenhum receio de ficar com ela na frente deles. Tanto assim que foi uma surpresa para mim, descobrir através deles o “espírito da Mooca”. Ali todas as meninas eram de quem morava lá. Qualquer um que viesse “de fora”, era um estrangeiro invasor, em se tratando das meninas do bairro.

Em alguns domingos notava que eles passavam à nossa frente, enquanto conversávamos, hostilizando-nos com cara feia. Só passavam, sem nada dizer, todos olhando diretamente para mim. Nem entendi quando eles passaram a não deixar meu irmão e eu assistirmos sua pelada de rua. Foram hostis, nos ameaçaram: “Que é que vocês querem aqui? Querem apanhar?" Fomos embora sem entender o porquê.

Certo domingo, depois que Tiérne entrou em casa. Os seis “ragazzi”, chegaram devagarinho em nossa direção e nos cercaram até ficarmos com as costas nas grades do jardim. Toninho, prudentemente correu pra dentro de casa. Eu lá fiquei, não por enfretamento, mas achava que como sempre eles só me olhariam feio e iriam embora.

Mas agora parecia diferente. Eles, como bons “mafiosos”, sempre respeitavam a garota, mas naquele momento ela não estava lá. Então começaram a me provocar com desafios me chamando para briga, Não gritavam, mas asperamente diziam seus desafios e cada vez chegavam mais perto de mim. Quando já estavam na distância de um soco e com o punho pronto para socar minha cara, gritei:

- Mãnheeeeeeeeee!

Não ficou um! Fugiram todos. Filhos de mães italianas sabiam que elas já vinham batendo, antes mesmo de saberem o que estava acontecendo. “Mama mia” sumiram da minha vista e minha mãe nem ouviu meu apelo.

Quem saiu de casa foi vovô Leone. Não por ter ouvido meu berro, mas porque estava na hora de ir ao bar da esquina, para tomar sua dose dominical do conhaque de alcatrão e mel São João da Barra. Servido, ele dava um gole “pros Santos”, uma bicota pra mim e sistematicamente dizia:

- Esses espanhóis estão estragando a Mooca.

É que tia Rosa estava namorando um jogador argentino do Juventus, de quem ele não gostava e que vinha em casa todo domingo no final da tarde.

Mateus Cosentino
Sampa – 22.02.2017



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