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DE VINÍCIUS A VALDELICE - Antônio Lopes

Postado por Rilvan Batista de Santana 21/02/2017

DE VINÍCIUS A VALDELICE - Antônio Lopes

        
Vinícius de Moraes
(Google)
    A questão é tão antiga quanto o poema e o canto: letra de música é poesia? Para mim, é; para os que, de fato, entendem do assunto, não é. Manuel Bandeira (poeta que, desencantado com este mundo vasto e real, decidiu mudar-se para a imaginária Pasárgada) tinha “Tu pisavas nos astros, distraída” como o mais belo verso da língua portuguesa.

E agora? O texto de Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa, poderia ser inscrito em qualquer seleção de poesia – desde que Sílvio Caldas não fizesse a “bobagem” de lhe pôr melodia. É um poema romântico, todo versado em decassílabos, acentuação quase sempre na 3ª, 6ª e 10ª – algo parecido com um martelo agalopado.

Muitos outros autores da MPB atingem o mesmo grau de excelência de Orestes Barbosa: Noel, Tom, Vinícius, Belchior, Caetano, Antônio Maria, Gil, Paulo César Pinheiro, Dolores Duran, Cândido das Neves, Aldir Blanc, Chico Buarque – não há como esgotar a relação, pois riquíssima é a letra em nosso cancioneiro popular. 134 - COM O MAR ENTRE OS DEDOS Temos da simplicidade de Caymmi (“Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”) ao barroco do misterioso Otávio de Sousa (com aquele coração “pregado e crucificado sobre a rosa e a cruz do arfante peito teu”), de Rosa (melodia de Pixinguinha). Cada um pode fazer sua escolha, em meio a diferentes estilos e idades. Para mim, isso é poesia, pois tem o impacto estético da poesia. Chão de Estrelas, apresentada a Sílvio Caldas em 1941, assustou o músico. Ele achou que era impossível o público aprovar versos tão sofisticados, decassilábicos, acadêmicos, poema mais pra ser lido em livro do que cantado em serenata de balcão, janela e sacada. Mas foi convencido por Orestes a musicar tais paroles e gravá-las. Fê-lo com tal competência que a canção entrou na história da MPB como o “hino nacional dos seresteiros”, com mais de 40 regravações de artistas de variada estirpe, de Elizeth Cardoso a Roberto Carlos, de Nelson Gonçalves a Baden Powell, Carlos Alberto, Maurici Moura, Maysa e tantos outros. Para abonar minha modesta opinião, lembro à gentil leitora e ao ilustre leitor que “transformar” poesia em letra de música não se constitui, propriamente dito, em novidade.
Valdelice Pinheiro
(Arquivo)
Autores que, em princípio, nada pareciam ter com esse “plebeísmo” cantado por aí, tiveram seus versos musicados, às vezes até com grande aceitação: vêm-me à mente Drummond, Clarice Lispector, Florbela Espanca e o próprio Bandeira. ANTÔNIO LOPES - 135 Em discurso na Academia de Letras de Itabuna, o escritor Ruy Póvoas declamou o poema Retrato, de Valdelice
e Soares Pinheiro. O belo texto (em redondilha menor), rico de aliterações, parece pronto para receber música, talvez à espera de Marcelo Ganem: “O canto contido/ no centro do corpo/ o pranto pasmado/ perdido de dor...” 
         Penso que, musicado, o escrito poético não se apequena, não deixa de ser poético. Dando aval e fé a esta tese estão poetas de diversas tendências e idades, de Vinícius de Morais a Valdelice Pinheiro.

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