Saber-Literário

Diário Literário Online

A lenda de Zé Nick - MIRO MARQUES

Postado por Rilvan Batista de Santana 06/02/2017

A lenda de Zé Nick
MIRO MARQUES

Na cidade de Itabuna dos tempos idos, viveu um senhor por nome José Nick, um jovem de cor negra, descendente de tradicional família de pioneiros e desbravadores de Ilhéus. Mas muito se comentava entre os fofoqueiros da cidade que ele era mesmo oriundo de Nazaré das Farinhas e tinha o corpo fechado e muito bem preparado pelas famosas “titias”, autoridades superiores das seitas umbandistas do Recôncavo Baiano. Falava que desde mocinho José Nick, quando bebia umas pitiangas, envolvia-se em brigas com a polícia por praticar depredações em vendas, bares, bodegas, quiosques e casas de prostíbulos do baixo meretrício onde, quase sempre, estava enfiado até o pescoço.

MIRO MARQUES
Em 1910, após praticar uma desordem no brega do Cajueiro, Zé Nick foi perseguido por cinco policiais que tinham sido avisados da baderna que ele estava praticando naquele lugar e quando o chefe da equipe da PM lhe deu voz de prisão, o jovem crioulo se deitou e se arrastou pelo chão e em fração de segundos passou a rasteira em toda a milícia, deixando todos machucados e feridos, enquanto ele, Zé Nick, saiu ileso. Depois desta briga, por determinação do comandante da PM, José Nick passou a ser procurado vivo ou morto, sendo obrigado a se retirar da região sul. Nas caladas da noite Zé Nick tomou um transporte fora da zona urbana e caiu fora. Foi visto passando em cima da carroceria de um caminhão lá no antigo povoado da Coréia. Desta vez ele foi morar no Rio de Janeiro onde serviu o Exército, se graduou sargento e participou das Lutas do Contestado, distinguindo-se por “atos de bravura”, o que lhe valeu a graduação de terceiro sargento do Exército Brasileiro.

Em 1919, o sargento José Nick retorna a Ilhéus e se faz fazendeiro por intermédio de uma merecida herança deixada pelos seus pais. Uma vez proprietário de terras, de roças de cacau e portador do distintivo de sargento na farda verde oliva do Exército do Brasil, José Nick vai se fazer mesmo de rogado para aterrorizar o Sul da Bahia. Praticando desordens, arruaças, espancando os mais fracos por motivos fúteis e ainda desrespeitando as autoridades que pretendesse repreendê-lo, na região de Rio do Braço, constituindo-se ai um verdadeiro terror para todos os moradores daquela região. Criou fama de valente e em todas brigas que tinha com a polícia feria sempre, sem entretanto, nunca ter sido ferido. Daí dizerem por todos os cantos da cidade que ele tinha mesmo o corpo fechado contra bala.

Em 1921, o delegado de polícia local, Dr. Armando Freire, teve a petulância de enfrentá-lo, cara a cara, dando-lhe voz de prisão. E sabe se lá porque, Zé Nick obedeceu sem a menor resistência. Todavia, sua permanência na cadeia foi muito curta. Com auxílio dos policiais que faziam a vigília especial à sua cela, que se borravam de medo do negrão, Nick conseguiu escapar para sempre. Entretanto, os seus guardiões argüiram, como justificativa, que José Nick envultou e passou por eles por meio dos seus poderes sobrenaturais.

José Nick, a partir daquele dia, passou a viver foragido da polícia aparecendo, de quando em vez, sempre de noite, em casa de alguns parentes para lavar as roupas e comer uma comidinha caseira quentinha, até que num domingo, dia 13 de março de 1927, ele resolveu ir a casa de um parente de nome José Scher, em Brejo do Almada, quando em completo estado de embriaguez, discutiu com este seu primo e tentou matá-lo, ferindo-o gravemente na coxa de uma das pernas.

Naquele momento, dois dos empregados do Sr. José Scher, indo ao socorro do patrão e encontrando Zé Nick caído ao lado, bêbado em demasia, tentando recarregar o seu enferrujado clavinote, os dois empregados usando machado e foice deram um golpe em seu pescoço e chacoalharam a cabeça com o olho do machado. Contam que mesmo com a cabeça espedaçada e o cérebro fragmentado fora da cuca, Zé Nick, continuava batendo o coração.

Então, um dos seus assassinos arrancou-lhe da própria cinta o punhal e cravou-lhe no lado esquerdo do peito e aí o negro José Nick entregou a alma ao Criador. Foi assim que José Nick partiu para o além, deixando em perfeita paz toda uma região Sul da Bahia…

Esta é mais uma das muitas histórias contadas pelo escritor José Dantas de Andrade em seu circunstancioso livro Documentário Histórico Ilustrado de Itabuna…

 * Miro Marques é escritor historiador e radialista







0 comentários

Postar um comentário

Recomende este blog!!!

Postagens populares

Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas)

"Divulgando Trabalhos Literários (Livros,Contos, Crônicas e Poesias)"

Minha lista de blogs

bookmark
bookmark
bookmark
bookmark
bookmark

Diário Online

Diário Online
rilvan.santana@yahoo.com.br

Perfil

Perfil
Administrador

Estatística Google (Visualizações)

Google Tradutor

PARCERIAS

Bookess

ABL

R. Letras

DP

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.

Links de livros, crônicas, contos, cartas, etc.
Tecnologia do Blogger.