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REFLEXÕES SOBRE A VELHICE - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 18/01/2017

REFLEXÕES SOBRE A VELHICE

Outro dia me aborreci com uma sobrinha, muito ciosa de sua aparência física jovem e bem torneada, apesar de já cercar os quarenta anos. Além de preocupar-se consigo mesma e ter horror a imaginar a própria velhice, também quer ver todos seus conhecidos “saradões”. Enviou-me um vídeo onde uma velhinha octogenária dançava na rua junto ao seu jovem par, com disposição de uma contorcionista maluca de circo. A minha querida sobrinha ainda mandou uma mensagem: “Só é velho quem quer.”

Meu primeiro impulso foi dar uma resposta raivosa, do tipo; “velho agindo como jovem é ridículo, patético e esdrúxulo”. Mas desisti, mesmo estando cansado de ser obrigado a ver os velhos serem tratados ridiculamente pela mídia. Os modelos de velhos ou são esbeltos senhores grisalhos envolvido nos braços de uma linda “tiazinha”, ou demonstram energia para acompanhar as brincadeiras dos netinhos. Com muita simpatia e carinho tratam os idosos como verdadeiros panacas.

A TV os mostra em alegres festas, bailando, correndo, batendo recordes aos 105 anos de idade, ou consumindo todo tipo de remédios, desde analgésicos até energéticos, ou de recuperadores da flora intestinal até fraldas geriátricas. Ninguém quer ser velho, então há muitos remédios para evitar isso, ou muita malhação para evitar os remédios. E, em todos os casos, avisam para consultar os médicos antes de tomar ou fazer qualquer coisa.

Nesta época de crise e desemprego há muitos idosos contribuindo na renda familiar, com o peso de sua mixa, porém constante aposentadoria ou com empréstimos consignados, com baixas taxas de juros. Entretanto, há um número muito grande de velhos hoje em dia e não se pode negar que eles têm sido uma carga pesada para o sistema previdenciário. Mas quem tem que mudar é a Previdência e isso é um problema mundial na nossa aldeia global.

Certamente os governos encontrarão alguma forma, ou fórmula para equacionar nossa culpa por estarmos vivendo mais. Mas tenho para mim que uma das soluções é parar de tratar folcloricamente os velhinhos e dar a eles (a nós) motivação para continuar a serem produtivos na terceira idade. Muitos não terão esta disposição por doença, mas a grande maioria tem saúde para isso. Nem precisa ser necessário trabalhar 8 horas por dia e 40 horas por semana. Nem é conveniente dar a eles atividades com esforço físico. Mas motivados a continuar produzindo poderão complementar sua remuneração, desonerando os recursos governamentais. Sei lá, isto me parece uma boa ideia.

Entretanto, atente-se para a ênfase que estou dando a “motivar” os idosos e não impor a eles obrigações que não têm condições de saúde para cumprir. Mas considero que há muitos idosos que ficariam felizes em continuar a dar sua contribuição ao sistema produtivo. Porém insisto, eles têm que ser reconhecidos pelo valor do conhecimento que têm e não serem tratados com o folclore mediático e popular de hoje em dia.     

Este assunto me entristece muito, não por mim que, graças a Deus, tenho a vida bem equacionada. Mas pelos tantos para os quais a aposentadoria é um verdadeiro “pé na cova”, equivalendo  a uma sentença de morte. Os muitos que vão para casa, depois de décadas de trabalho, ficam sem fazer outra coisa que ver na televisão, seus contemporâneos serem tratados como tristes palhaços de circo.

Termino por dizer que cronologia não é a medida correta para medir a capacidade de trabalho humano. E se o trabalho que demanda esforço físico pode ser limitado no tempo, o trabalho intelectual não. Talvez valha a pena citar alguns exemplos famosos na utilização de suas capacidades psíquicas:

•             Bach ao envelhecer escreveu suas obras classificadas entre as mais belas.
•             Beethoven idoso e surdo superou a si mesmo compondo seus derradeiros quartetos.
•             Cora Coralina teve seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, publicado em 1965, quando já tinha 76 anos de idade. 
•             Galileu, aos 72, produziu sua obra máxima, Os Diálogos das Ciências Novas.
•             Immanuel Kant, octogenário, escreveu Pela Paz Perpétua, um ensaio que passou à história.
•             José Saramago,  aos 73 anos laçou o seu mais famoso livro, Ensaio sobre a Cegueira e aos 76 anos foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998.
•             Laplace tinha 79 anos quando finalizou a Mecânica Celeste.
•             Michelangelo projetou a cúpula de São Pedro com mais de 60 anos e esculpiu a ‘Pietà Rondanini’ com quase 90 anos.
•             Miguel de Cervantes já contava com  70 anos quando completou o Dom Quixote.
•             Rembrandt passava dos 60 quando pintou seus quadros mais importantes.
•             Ticiano pintou ‘A Batalha de Lepanto’ com mais de 92 anos de idade.
•             Tomaso di Lampelusa, no final da sua vida, aos 67 anos,  escreveu ‘O Leopardo’, seu único romance,

É pouco ou quer mais?


Enviado por e-mail: Mateus Cosentino

Sampa – 18/01/2017

1 Responses to REFLEXÕES SOBRE A VELHICE - Mateus Cosentino

  1. MELHOR SER ANOSO, ESTAR NA VELHICE, DO QUE ESTAR MORTO.
    JOÃODEPAULA.:

     

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