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O POETA, SEGUNDO ELIAS CANETTI - Raul C. de Albuquerque

Postado por Rilvan Batista de Santana 12/01/2017

O POETA, SEGUNDO ELIAS CANETTI

publicado em literatura por Raul C. de Albuquerque

“Tudo, porém, já passou. Fosse eu um poeta, teria necessariamente podido impedir a guerra.”

“A literatura pode ser o que for, mas uma coisa não é – assim como não o é a humanidade que ela ainda agarra: a literatura não é algo morto.”
(Canetti, 2011, p. 312)
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Elias Canetti, escritor italiano e Nobel de Literatura de 1981, é o tipo de nome que fica numa seção muito especial da história da literatura ocidental: aqueles que se destacaram tanto na teoria literária quando na prática da literatura.

Nesse sentido, seu livro “Auto de Fé” é estupendo, uma magnum opus inquestionável, mas aqui tratarei de um discurso que ele apresentou em Munique, em 1976: O ofício do poeta.
E é curioso fazer notar desde já que a palavra “Poeta” não foi usada deliberadamente como sinônimo de escritor por metonímia ou por convicção literária, mas porque Canetti queria realmente se referir a essa casta de sonhadores.

(Além disso, se quisesse falar sobre escritores em geral, poderia ter escrito “schriftsteller”, mas preferiu usar a palavra “dichter”, que significa “poeta” em sentido estrito.)

Canetti inicia o discurso falando sobre o vocábulo “Poeta” e deixa claro que ele revestiu de certa soberba, de modo que muitos poetas preferiam (e ainda preferem) apresentar-se como “alguém que escreve”. Acontece isso, porque, como veremos adiante, ser Poeta é carregar também um fardo, é também ter uma missão.

Mas, apesar de poucos se apresentarem como poetas, os Poetas nunca deixaram de existir e, melhor, nunca deixaram de escrever.

As divagações de Canetti no discurso partem de um verso anônimo escrito antes do início da Segunda Guerra que dizia o seguinte: “Tudo, porém, já passou. Fosse eu um poeta, teria necessariamente podido impedir a guerra.” Seria o Poeta alguém tão importante a ponto de impedir uma guerra?

Por trás da soberba inicial da frase, há, na verdade, um espectro de fracasso que se apresenta com mais vigor na primeira parte da frase: “Tudo, porém, já passou.” No entanto, vê-se fracasso também na segunda parte, uma vez que o poeta parece não ter cumprido sua função. Mas, que função?

“Dever-se-ia ainda acrescentar que foi por meio de palavras [...] que se chegou a uma tal situação que a guerra tornou-se inevitável. Ora, se as palavras tanto podem, por que não se haveria de impedir com elas a guerra? [...]

Portanto, um poeta seria alguém que tem as palavras em alta consideração; [...] que as arranca de seus postos para, então, tornar a assentá-las com desenvoltura ainda maior; que as interroga, apalpa, acaricia, arranha, aplaina, pinta.”


É tendo consciência da atividade performática da linguagem, do aprender a fazer coisas com palavras, que o Poeta entende sua responsabilidade. Como escreve Octavio Paz (2012, p. 191), também escritor e Nobel de Literatura, “as palavras do poeta, justamente por serem palavras, são suas e são dos outros. [...] A palavra poética é histórica em dois sentidos complementares, inseparáveis e contraditórios: no sentido de constituir um produto social e no de ser uma condição prévia à existência de toda sociedade.”

É por essa dualidade impensável entre a historicidade e atemporalidade das palavras poéticas que o Elias Canetti define a função do poeta: ele é o guardião das metamorfoses. E é-o em dois sentidos.

Inicialmente, o Poeta é guardião das metamorfoses passadas. Quem hoje escreve guarda também as palavras de Homero, de Ovídio, de Byron, de Shakespeare, Camões, Gregório de Matos, Bandeira, Neruda, Pessoa, até os contos imemoriais das primeiras civilizações.

Mas os poetas são guardiões da metamorfose não só no sentido de preservadores, também do sentido de agricultores. Sim, os poetas além de guardarem, também cultivam a metamorfose. E “num tal mundo, que poderia caracterizar como o mais cego de todos os mundos, parece de fundamental importância a existência de alguns que, apesar dele, continuem a exercitar o dom da metamorfose.” 

Sendo assim, os poetas, por menos que assim queiram ser chamados, são guardadores e reprodutores das metamorfoses. E as metamorfoses são aprendidas nos mitos: podemos ver Ulisses, no fim de “Odisseia”, como o herói travestido de mendigo, metamorfoseado; ou Édipo, outrora filho abandonado, então rei, por fim cego e desgraçado; ou Zeus, que sempre se metamorfoseava para despertar amor nas mulheres mortais.

Por fim, vale lembrar que “o poeta está mais próximo do mundo quando carrega em seu íntimo um caos.”  Assim, explicam-se as palavras (e o caos encarnado) de Cecília Mereilles: “não sou alegre nem triste, sou poeta.”

****


Bibliografia utilizada [e sugerida]
CANETTI, Elias. A Consciência das Palavras. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. São Paulo: Cosac Naify, 2012.



Fonte:
 http://lounge.obviousmag.org/a_razao_singular_do_segredo/2015/01/o-poeta-segundo-elias-canetti.html#ixzz4VXG9TdOc


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