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Entrevista: filho de Teori Zavascki denuncia ameaças após delação

Postado por Rilvan Batista de Santana 22/01/2017

Entrevista: filho de Teori Zavascki denuncia ameaças após delação - Rodolfo Costa

Francisco Prehn Zavascki, filho de Teori, disse que prefere crer que a tragédia foi apenas um acidente. Mas pede que o poder público e todas as autoridades responsáveis investiguem as causas da tragédia que matou outras quatro pessoas


Não era fácil para Teori Zavascki, morto em acidente aéreo na última quinta-feira, ser ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Sobretudo, ser o relator-geral da Operação Lava-Jato, que desvendou o bilionário esquema de corrupção na Petrobras. “A vida dele era basicamente trabalho. De manhã e de noite, estava sempre envolvido com o trabalho”, diz o advogado Francisco Prehn Zavascki, 36 anos, filho de Teori. A pressão ficou ainda maior quando ele assumiu a relatoria da operação, ficando responsável pela homologação das delações da Odebrecht. Para segurança própria, o ministro deixou de frequentar restaurantes e outros ambientes que gostava. “Teve que ficar mais recluso”, afirma o herdeiro.

A apreensão em relação ao trabalho realizado no centro do poder do país era partilhada em desabafos a amigos e familiares. “Uma frase que ele sempre dizia para quem dizia querer trabalhar em Brasília ou fazer qualquer coisa na capital era: Brasília não é para amadores”, ressalta. Em luto, Francisco reluta em acreditar em teorias da conspiração envolvendo a morte do pai. Prefere crer que a tragédia foi apenas um acidente. Mas pede que o poder público e todas as autoridades responsáveis investiguem as causas da tragédia que matou outras quatro pessoas. “Seria terrível ter um juiz, seja de qual instância for, assassinado, pagando com a vida por causa de um processo”, afirma.

Embora tivesse um semblante fechado e sério, natural para quem tinha tantas responsabilidades, Teori era um homem muito apegado à família e aos amigos. Torcedor do Grêmio, amava jogar bola e não abria mão de fumar um bom charuto. “Uma coisa que pouca gente sabe é que ele era boleiro. Quando mais jovem, jogava muita bola. E sempre foi muito brincalhão. Na intimidade, era muito debochado”, conta Francisco. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Correio.

A morte de Teori pode, de alguma forma, esfriar a Operação Lava-Jato?

Eu acho que, no mínimo, haverá um retardamento da Lava-Jato. E, isso, em um momento crucial.

Mas o senhor acredita que a operação vai parar?

Acho que não. Parar não vai. Dependerá muito de quem será o próximo relator da Lava-Jato. Do rumo e do ritmo que vai tomar. E eu acredito que pode haver até mudanças importantes, dependendo de quem assuma o processo.

O senhor acredita que quem assumir no lugar de Teori terá a mesma competência à frente da relatoria da Lava-Jato?

Espero que sim. O que se perde ali é o conhecimento e todo o estudo do meu pai ao longo desses dois, três anos, nos quais ele estava à frente dos processos. Esse arquivo mental se foi com ele.

Ele relatou para a família ter sofrido ameaças durante a condução do processo da Lava-Jato?

Eu mesmo, particularmente, já sofri várias ameaças por conta da Lava-Jato e das decisões dele. Ameaças mais leves, menos leves. Muito por rede social, telefone, e-mail e tal. Isso meio que virou até rotina para nós.

Como era para a família lidar com essa rotina?

Procurávamos seguir a vida normalmente, tentar não dar tanta bola. Mas, claro, que chateava bastante e deixava todo mundo, muitas vezes, apreensivo com o que poderia acontecer. De repente, alguém poderia tomar alguma atitude mais radical, um lobo solitário querer fazer Justiça com as próprias mãos. Não se sabe o que se passa na cabeça das pessoas.

Em algum momento Teori reforçou a segurança pessoal?
Não. Ele vinha mantendo a segurança normal dele. Não teve reforço.

E a família reforçou?
Nem tinha segurança.

O senhor acredita na hipótese de sabotagem?

Eu não quero acreditar. Prefiro acreditar que tenha sido realmente um acidente. Não tenho como dizer que sim ou que não. Tem que se investigar muito, e investigar de forma séria, a fundo. A Polícia Federal, o Ministério Público, o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos). Fiquei sabendo que a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) também estará presente nas investigações. Então, acho que é importante para o país esclarecer tudo. Seria terrível ter um juiz, seja de que instância for, assassinado, pagando com a vida por causa de um processo. (O acidente) foi uma coincidência e tanto, não foi?

O seu pai falava algo sobre Brasília? Às vezes, reclamava de ficar na capital?

Especialmente depois do início da Lava-Jato, ele passou a se sentir muito sozinho em Brasília. Parou de frequentar restaurantes e tal. Teve que ficar mais recluso. Mas uma frase que sempre dizia para quem queria trabalhar em Brasília ou fazer qualquer coisa na cidade era: “Brasília não é para amadores. Tome cuidado. Aqui não é para amadores”.

Ele chegou a manifestar opiniões sobre o processo de impeachment?

Comentava as preocupações normais, mas nada de específico. Só preocupação com cada um de nós. Comentou com os amigos que fim levaríamos, qual seria o rumo. Mas nada muito especial.

Quem foi Teori Zavascki? O que o senhor tem a dizer sobre ele?

É um cara que venceu na vida e conseguiu realizar seus sonhos. Teve uma infância muito pobre e, com base no estudo e no esforço, chegou onde chegou. Ele é, acima de tudo, um vencedor.

O que diria sobre a trajetória profissional dele?

Acho que ele sempre teve vocação para o direito, especialmente para a magistratura, com erros e acertos, o que é normal de todo ser humano. Mas ele sempre tentou fazer aquilo que achava que era certo, independentemente do sacrifício pessoal que representaria e dos interesses que, eventualmente, poderia ferir. Acima de tudo, ele tentou fazer o que acreditava que era o correto.

Ele teve alguma parcela de influência na sua opção em seguir a carreira de advogado?

Na verdade, a escolha foi mais uma influência da minha mãe, que é advogada, do que propriamente do meu pai. A escolha pelo direito é dos dois, com certeza. Mas acabei optando pela advocacia mais por influência materna do que paterna.

A perda dele para a família é irreparável. E para o Brasil, o que a morte dele representa?

Acho que nós perdemos um juiz que tinha na cabeça todo esse processo supercomplexo, que é o da Lava-Jato. Ele estava com toda a estratégia montada para, muito em breve, no início de fevereiro, homologar as delações (da Odebrecht) e dar seguimento às investigações. Com a morte dele, acho que o país dá muitos passos atrás no combate à corrupção.

Como era a rotina de seu pai?

Em Brasília, ele morava sozinho. A vida era basicamente trabalho e trabalho. De manhã e de noite, sempre envolvido no trabalho. Quando vinha para Porto Alegre, procurava se desligar do trabalho e curtir os filhos, os netos, e se sentar com os amigos. Ter realmente um momento de relaxamento.

Então ele era uma pessoa muito ligada à família?

Sim. Bastante. Procurava sempre reunir a turma aqui quando chegava.

Com que frequência ele viajava para Porto Alegre?

A cada 15 dias, três semanas.

Como será o velório?

Será realizado neste sábado, na sede do Tribunal Regional Federal, onde ele começou a carreira como magistrado. O enterro será ao fim da tarde.

Quais as melhores lembranças que tem de seu pai?

Uma coisa que pouca gente sabe é que ele era boleiro. Quando mais jovem, jogava muita bola. Eu me lembro muito de jogar com ele, dele jogando. Era o centroavante do time.

Que time era esse?

O time da família. Os amigos próximos vinham aos fins de semana. Ele jogava muita bola. Sempre foi bom jogador. Também sempre foi um sujeito muito brincalhão. Na intimidade da família e com os amigos, era muito debochado e brincalhão. Se você deixasse o seu na reta, já era. Se alguém deixasse a bola quicando, já era.

Era torcedor do Grêmio, correto?

Sim, fanático. Foi em muitos jogos do Grêmio. Até em pela segundona.

Teori comentava sobre planos para o futuro?

Ele tinha a expectativa de se aposentar em dois ou três anos e de voltar para Porto Alegre. Esse era o projeto dele. De repente, advogar, não sei exatamente o que faria. Mas queria voltar para cá e ficar com a família.

O que ela amava muito, além da família e dos amigos?

Fumar um charuto sossegadamente.

Fontes: Yahoo / Correio Braziliense

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