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DANTE MILANO E O LIRISMO SOMBRIO DE SUA POESIA - Eli Boscatto

Postado por Rilvan Batista de Santana 15/01/2017

DANTE MILANO E O LIRISMO SOMBRIO DE SUA POESIA - Eli Boscatto

Dante Milano foi um grande poeta que caiu no esquecimento, quase um desconhecido, pouco se fala dele, pouco se escreve sobre ele. Milano nasceu em Petrópolis no Rio de Janeiro em 16 de junho de 1899, filho do maestro Nicolino Milano e de Corina Milano, e faleceu em 15 de abril de 1991.

dante.jpg


Embora Milano não tenha tido educação formal, não pode cursar o Ginásio (equivalente hoje ao “segundo grau”), foi poeta, tradutor, escritor e escultor, e aos 14 anos foi trabalhar como assistente de revisão no Jornal da Manhã e no Jornal do Comércio. Aos 17 consegue emprego de revisor na Gazeta de Notícias, e conhece Pinto de Souza que lhe apresenta à literatura portuguesa, em especial à poesia de Camões, a quem ele homenageia em sua obra. Foi considerado por Drummond “um poeta de extraordinária qualidade”, mas dizem que era completamente arredio à fama. Publicou seu primeiro e único livro, Poesias, aos 49 anos, pelo qual recebeu o prêmio Felipe d’Oliveira de melhor livro de poesia do ano. Mas mesmo com a aceitação entusiasmada da crítica, manteve-se distante, e convidado a candidatar-se à Academia Brasileira de Letras, jamais aceitou.

inferno_canto_18.jpg O Inferno de Dante de Botticelli

Milano organizou em 1935 a “Antologia dos Poetas Modernos”, primeira antologia de poetas dessa fase. Trabalhou como tradutor, lançando em 1953 “Três Cantos do Inferno” de Dante Alighieri. Em 1988 publicou “Poemas Traduzidos de Baudelaire e Mallarmé e nesse mesmo ano recebeu o Prêmio Machado de Assis pela Academia Brasileira de Letras. Milano é considerado um dos poetas representativos da terceira geração do Modernismo, mas como disse o crítico Davi Arrigucci Júnior, “sua poesia é imune a cacoetes modernistas”. Segundo o poeta Ivan Junqueira que organizou uma coletânea de seus melhores poemas, “Dante Milano foi um marginal das correntes predominantes no seu tempo e embora fosse egresso do Modernismo de 1922, ele era na verdade anterior ao movimento modernista, e embora o apoiasse à distância, jamais se filiou ao movimento.”

Passa o tempo da face E o prazer de mostrá-la. Vem o tempo do só, A rua do desgosto, O trilho interminável Numa estrada sem casas. O final do espetáculo, A sala abandonada, O palco desmantelado. Do que foi uma face Resta apenas a máscara, O retrato, a verônica, O fantasma do espelho, O espantalho barbeado, A face deslavada, Mais sulcada, mais suja, De beijada, cuspida, Amarrotada Como um jornal velho. Máscara desbotada De carnavais passados. Esta é a nossa cara Escaveirada. Até que a terra Com sua garra Nos rasgue a máscara (poema “A Máscara”)

Um ponto de concordância entre seus críticos é quanto ao caráter desencantado, direto e lúcido de seus poemas, que remete àqueles aspectos sinistros da vida. Segundo o escritor e jornalista Paulo Mendes Campos, o pensamento de Milano é árido, um poeta antipoético, antilírico, o poeta do desespero.

No beco escuro e noturno Vem um gato rente ao muro. Os passos são de gatuno. Os olhos são de assassino. Esgueirando-se, soturno, Ele me fita no escuro. Seus passos são de gatuno. Seus olhos são de assassino. Afasta-te, taciturno. Espanta-o meu vulto obscuro. Meus passos são de gatuno. Meus olhos são de assassino.” (Poema “O Beco”)

Mas quem pode afirmar que não existe lirismo no desespero, nos labirintos mais sombrios do ser, nos desejos mais viscerais? É possível talvez dizer que a poesia de Dante Milano é de um “lirismo sombrio”, pela emoção implícita nas palavras, em sublimes imagens poéticas, conferindo-lhe uma musicalidade, uma vibração. Para alguns críticos, embora não tenham sido identificadas influências na poesia de Milano, ele teria uma marca em comum com Manuel Bandeira. Como Bandeira, teria refletido muito sobre a morte, a morte como destino do qual nenhum de nós escapa. É peculiar à poesia esse poder de nos assombrar, nos arrebatar.
inferno14p.jpg Ilustração de Gustave Doré - A Divina Comédia

 Como num louco mar, tudo naufraga. A luz do mundo é como a de um farol Na névoa. E a vida assim é coisa vaga. O tempo se desfaz em cinza fria, E da ampulheta milenar do sol Escorre em poeira a luz de mais um dia. Cego, surdo, mortal encantamento. A luz do mundo é como a de um farol... Oh, paisagem do imenso esquecimento. (Poema “Música Surda”)

O falso amor imita o verdadeiro Com tanta perfeição que a diferença Existente entre o falso e o verdadeiro É nula. O falso amor é verdadeiro E o verdadeiro falso. A diferença Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro? Se o verdadeiro amor pode ser falso E o falso ser o verdadeiro amor, Isto faz crer que todo amor é falso Ou crer que é verdadeiro todo amor. Ó verdadeiro Amor, pensam que és falso! Pensam que és verdadeiro, ó falso Amor! (Poema do Falso Amor)

Leitura recomendada: Melhores Poemas de Dante Milano de Ivan Junqueira



Fontes: 

www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=697 www.itaucultural.org.br/aplicexternas/...lit/index.cfm?...biografias. www.jornaldepoesia.jor.br/dante.html www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet241.htm

http://lounge.obviousmag.org/por_tras_do_espelho/2014/08/dante-milano-e-o-lirismo-sombrio-de-sua-poesia.html#ixzz4Vp5np06n


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