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TEMPO DE AGRADECER - Fábio Congiu

Postado por Rilvan Batista de Santana 07/12/2016

TEMPO DE AGRADECER
publicado em musica por Fábio Congiu

Fim de ano, época de colocar os fatos na balança. Não raramente, uma análise dos últimos 12 meses apresenta resultados pouco satisfatórios. Para a cantora Maria Bethânia, no entanto, o saldo de cinco décadas de carreira se resume em duas palavras: abraçar e agradecer. Algumas características e posturas da intérprete baiana – como o absoluto respeito aos seus ideais – podem explicar seu sentimento de gratidão diante da vida e inspirar quem anseia por mudanças

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Quando completou 50 anos de carreira, Maria Bethânia selecionou um tema específico para celebrar a marca: a gratidão. A escolha da cantora revela alguém em paz com sua história e, a despeito dos inevitáveis percalços, satisfeita com sua caminhada, convicta de seus caminhos. Em tempos de fim de ano, porém, não seria ousadia afirmar que poucas pessoas, ao realizar um balanço dos últimos 12 meses, teriam uma sensação de conforto quanto aos próprios passos como a artista baiana demonstra ter com as últimas cinco décadas. O “obrigado” da intérprete – mote do show comemorativo Abraçar e Agradecer, ora perpetuado em DVD – vem, tendo a crer, de pensamentos e atitudes característicos de seu temperamento e de sua postura: o respeito aos seus ideais, o entendimento de dom como missão e a consequente alegria de fazer o que faz.

Para festejar uma longeva carreira que começou com a artista, ainda menina, aos 17 anos, deixando Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, para substituir Nara Leão, no Rio de Janeiro, na primeira peça teatral de protesto contra o Regime Militar do Brasil – o espetáculo Opinião –, Bethânia não preparou um show de sucessos, retrospectivo – para deleite dos fãs –, nem selecionou um repertório completamente inédito, musicalmente arrojado, de modo a apontar novos horizontes. Escolheu “apenas” interpretar canções e textos que, de alguma maneira, lhe possibilitassem expressar suas ideias e, principalmente, agradecer à música e comemorar a vida. Seguiu estritamente sua apurada e – por que não dizer? – inviolável intuição artística.

Aliás, seguir suas certezas, por menos lógicas ou claras que possam parecer, foi uma constante ao longo de toda a trajetória da cantora. Nos anos 60, por exemplo, em plena efervescência de movimentos artísticos como a Tropicália e a Jovem Guarda, ela não hasteou nenhuma bandeira e rechaçou todos os rótulos em alta na época; mais tarde, no auge do reconhecimento mercadológico, após se tornar a primeira mulher a vender mais de 1 milhão de cópias no Brasil, Bethânia rompeu uma série de discos de sucesso com Ciclo, um álbum totalmente acústico em meio aos sons eletrônicos emergentes na década de 1980; já nos anos 2000, diante de um cenário social cada vez mais urbanizado, barulhento, acelerado e envaidecido pelas novas tecnologias, a artista voltou seu olhar para o interior e passou a produzir CDs minimalistas, quase silenciosos.

Essa convicção e essa fidelidade permeiam todo o repertório de Abraçar e Agradecer, tal qual a entrega de Bethânia ao seu dom. Não por acaso, ela abre o espetáculo com a bela Eterno em Mim, de Caetano Veloso, uma declaração de amor não só à pessoa amada, mas também à música. Somente a voz devotada da artista consegue harmonizar um roteiro tão eclético, que vai da roqueira Gita, de Raul Seixas e Paulo Coelho, à sertaneja Eu, a Viola e Deus, de Rolando Boldrin; da sofisticada Dindi, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, à popular Folia de Reis, de Roque Ferreira; da entusiasmada Alegria, de Arnaldo Antunes, à melancólica Silêncio, de Flávia Wenceslau. E para cumprir sua missão, Bethânia cerca-se sempre de músicos virtuoses, junta-se a grandes diretores, cenógrafos e iluminadores, ensaia mais de 40 dias antes de estrear um show e não tolera falhas técnicas ou imperfeições sonoras. Seu canto deve chegar ao público puro como a natureza o criou e cuidou de lapidar.

Se não compreendesse seu talento como a missão de sua vida, dificilmente a entrega da artista ao seu ofício seria tamanha e lhe daria o prazer que transparece dar, a ponto de Bethânia querer louvar tudo. O dom da vida, a espiritualidade, a natureza, o dia a dia, as amizades, a imaginação, a música, o palco, a voz, o público... Até mesmo seus defeitos: “Agradecer aos amigos que fiz e que mantêm a coragem de gostar de mim, apesar de mim”, como frisa no texto de abertura do espetáculo, o mesmo em que, à certa altura, ela se mostra ciente de um descontentamento generalizado nos tempos atuais e ressalta (ou ensina): “Agradecer ter o que agradecer.”

Maria Bethânia está feliz com seus 70 anos de vida e cinco décadas de carreira, enquanto muitos de nós não conseguimos nos equilibrar com as vitórias e as derrotas de 12 meses recentes. Mais do que bens concretos ou sorte, talvez nos falte mesmo uma fé verdadeira em nossos propósitos e sonhos e, consequentemente, satisfação em cumprir com nossos afazeres – sejam eles pessoais, sejam profissionais. Ou nos falte "simplesmente" – na verdade, aqui se encontra o maior desafio – lançar mão de um olhar mais generoso, resiliente, menos maniqueísta, e de uma sensibilidade mais apurada, que permitam a cada um assimilar melhor os motivos diários para abraçar e agradecer.


Fonte:http://obviousmag.org/olhar_das_coisas/2016/maria-bethania-abracar-e-agradecer.html#ixzz4S8YxKpg8


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