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SOMOS E SEREMOS COMO NOSSOS PAIS

Postado por Rilvan Batista de Santana 07/12/2016

SOMOS E SEREMOS COMO NOSSOS PAIS


“Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais”.
        Belchior

Há muitos anos atrás comecei a utilizar o e-mail para fins profissionais na empresa em que trabalhava. Depois, passei a usá-lo também para me corresponder com amigos e parentes. Ainda faço isso e esse meu relacionamento eletrônico pode ser mensurado através de centenas de contatos guardados nas nuvens do servidor.

Mas enquanto permanecia no quase “obsoleto” e-mail, foram surgindo as redes sociais, aplicativos e tantas coisas mais. Minha curiosidade de entrar nelas era detida pela insegurança de operar essa mídia mais “moderna”. Mas aos poucos, comecei a receber insistentes convites de iniciar amizades na rede. Eram parentes, amigos e surpreendentes amizades perdidas na memória do passado longínquo. Superei a natural resistência e entrei nas redes.

Foi um verdadeiro choque cronológico. Graças ao aparecimento de centenas de “amigos dos meus amigos”, vi-me instantaneamente participando de um “admirável mundo novo”. Em meio aos poucos amigos contemporâneos, mergulhei em uma avalanche de jovens e pós-adolescentes surgindo na tela do meu monitor com formação  cultural, estilos, interesses, habilidades tecnológicas e visão de mundo absolutamente inesperados. Entretanto, após o choque inicial, comecei a entender, depois a aceitar e finalmente a gostar da nova turminha.

Porém o impacto foi tão grande que um dia acordei sonhando que conversava com um jovem muito sábio, um guru juvenil que me ouvia com gentil complacência. Eu lhe dizia:


- A experiência não se transmite, só conseguimos transmitir o conhecimento. Repassamos o quê aprendemos através dos meios midiáticos. Temos que aprender lendo, ouvindo e vendo toda a riqueza técnico-cultural existente nos documentos e nos diversos meios de comunicação. É isso o que faz o conhecimento caminhar e a tecnologia correr. Mas a experiência de vida de cada um começa ao nascer a partir do zero. Cada um de nós repete infinitamente as mesmas emoções, sentimentos, medos e alegrias já passados e repassados pelos que vieram antes de nós. A civilização se reinicia na cabeça de cada recém-nascido

O balanço afirmativo de cabeça do meu sapientíssimo jovem interlocutor, mal disfarçava o sorriso compreensivo ante a criatura senil e obsoleta que lhe falava.

Este sonho, produto da minha traumática experiência na Rede Social me relembrou que o simples fato de estar na terceira idade não nos torna nem um pouquinho mais sábios. A provecta idade, pela grande quantidade de tempo vivido, apenas nos permite adquirir maior conhecimento que as gerações mais novas ainda não conseguiram obter. Eis a única e grande vantagem que os muitos anos de vida nos trazem.

Todo mundo sabe disso. Mas navegando pela Internet uma coisa ficou muito clara para mim. Uma grande parte do que sabemos, não tem a menor importância nestes dias atuais. Uma parte significativa dos nossos conhecimentos tecnológicos não tem mais nenhuma aplicação. São coisas tão arcaicas que só servem para provocar risos e surpresa às novas gerações. E, além disso, essa carga ultrapassada de conhecimentos obsoletos nos dificulta o aprendizado das mutantes inovações técnicas, principalmente nas áreas eletro eletrônicas. Nestes setores, libertos de nossas informações inúteis, impúberes crianças da mais tenra idade são mais sábias do que nós. Aquelas dotadas de boa vontade até tentam nos ensinar, mas perdem a paciência com nossa inexplicável dificuldade de entender o quê é absolutamente claro para elas.

A velocidade das novidades tecnológicas e a lentidão como a “velharada” consegue absorve-las, está acabando com o papel de mentor, de conselheiro e guru que os mais idosos possuíam desde as tribos pré-históricas. 

A tecnologia transferiu o foco dos interesses para a juventude. Assim como nós damos pouco valor ao que eles mais valorizam, eles acham estranhos nossos interesses. E nisto são mais tolerantes que nós. Frequentemente desprezamos seus hábitos e conceitos de vida, enquanto eles demonstram aceitar os nossos arcadismos com tolerância e paciência. Como nunca assumi minha caducidade, incomoda-me aquele sorriso complacente e envergonhado, quando expomos nossas opiniões na presença de seus jovens amigos.   

Ainda bem que não perdemos totalmente o respeito de nossos filhos e netos. Respeitam-nos porque nos amam e porque os amamos mais ainda. São agradecidos pela superação que passamos para educá-los da melhor maneira que pudemos. Gostam de nossa dedicação incondicional a eles. Somos seus heróis, mesmo debilitados pela idade. Ouvem nossos conselhos e considerações, mesmo ultrapassados. Levam-nos passear e viajar... Tratam-nos tão bem como a seus animaizinhos de estimação.

Mas, espera aí! Já vi este filme antes. Mesmos sem as fantásticas novidades tecnológicas de hoje, eu tratava semelhantemente aos meus pais e todos os “tiozinhos” da minha juventude. Somente quando minha própria idade me fez vislumbrar a velhice, é que comecei com este lamentável e choroso “papo de velho”.

Nós da terceira idade não temos realmente nada a reclamar, porque temos a sabedoria de vida, adquirida no longo caminho que tivemos o privilégio de seguir, para saber que a evolução humana é feita em círculos. Damos sempre dois passos para frente e um paras trás.

Por isso, somos e sempre seremos muitos semelhantes aos nossos pais.

Mateus Cosentino
Sampa – 07/12/2016.




1 Responses to SOMOS E SEREMOS COMO NOSSOS PAIS

  1. Errata: Onde está escrito "concelhos", leia-se conselho. Foi mal, como dizem os jovens

     

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