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quando você percebeu que era amor? - Michelle Oliveratto

Postado por Rilvan Batista de Santana 11/12/2016

quando você percebeu que era amor? - Michelle Oliveratto   


Havia acabado a energia, mas restava um pequeno feixe de luz e eu aproveitava para ler Carlos Drummond de Andrade, mais especificamente o poema: “Quadrilha”. A escuridão tomaria conta do ambiente se não fosse esse feixe e uma luz maior que habitava dentro de mim, porque tinha acabado de descobrir, com a ajuda de Drummond, que aquilo que eu estava sentindo era amor. O amor que não me salvou a vida, mas me salvou da escuridão. Pra quem tem medo do escuro, isso é quase a mesma coisa.
consolo_na_praia.jpg

Quando me vi nos versos de Drummond, aquele que dizia: “João amava Teresa que amava Raimundo". Suponhamos que Raimundo também amasse Teresa. Eu seria João, o terceiro elemento dessa trindade e, ser quina, nunca remete a bons presságios. Elas sempre ocasionam topadas, dor e manchas roxas. Foi preciso me ver na figura de João aconselhando Teresa a ficar com Raimundo, para perceber o quanto que eu a amava, porque só o amor deixa a porta aberta, mesmo morrendo de medo que a pessoa amada vá embora. Mesmo correndo o risco de confundir liberdade com abando e te deixar diante da porta aberta e vazia.
Só o amor retém o choro na hora de dizer para atender o chamado do coração, dizendo que aquele outro alguém é o seu amor e manda-la ir à luta, ter paciência, persistência e fé, porque isso era exatamente o que eu faria. Desejar do fundo do coração para ser feliz, pois naquele momento a felicidade de Teresa era mais importante do que a preocupação de perdê-la por egoísmo de um amor não correspondido e, finalizar a conversa, beijando-lhe a testa, acompanhando até a porta e abençoando o caminho, exatamente como faria no primeiro dia de escola do filho que ainda não tenho, incluindo o coração angustiado e a represa que desagua no exato momento que desapareço do seu campo de visão.
Carlos-Drummond-de-Andrade.jpg

Nesse momento, o amor pode ser confundido com covardia, por abrir mão e deixar o caminho livre, mas tenho no peito a disposição para enfrentar uma guerra, paciência para vencer um monge, loucura que fez Van Gogh arrancar a própria orelha e a determinação de Ícaro para chegar ao sol, só para ver Teresa cruzando aquela porta e dizendo que rodou o mundo e voltou só para me contar e convidar para caminhar junto a ela, mas uma coisa que não disponho é da avareza para mendigar amor. Não se trata de orgulho, mas isso não se faz. Amor é sentimento nobre, artigo de luxo que se para permanecer, for necessário cobrar, pedir, exigir, implorar é melhor não ter, porque acaba virando queda de braço, cabo de guerra, tentativa infeliz de colonizar o outro. Amor é como assoprar um dente de leão, leveza e liberdade. É como admirar um quadro e respeitar as placas que orientam distancia e ausência de toque e, mesmo assim, se encantar. É sabedoria de rio que percorre seu caminho e não para mesmo quando encontra uma pedra. Percebe que é tudo leve, sutil e sem violência?
É esse amor que veio a tona, quando me vi nesse verso do poema “Quadrilha” de Drummond. Essa consciência de generosidade, desse sentimento grandioso. Foi preciso habitar essa trindade para ter a certeza que se isso não foi amor, foi o mais próximo que cheguei dele até hoje.



MICHELLE OLIVERATTO





Mineira, estudante de música e observadora incansável do mundo. Para mim escrever é preciso, navegar nem tanto. Sigo tentando acalmar toda folha em branco que se aflige com esse silêncio pautado.









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