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OS CAPITÃES DA AREIA DE JORGE AMADO - Clêuma Alves

Postado por Rilvan Batista de Santana 16/12/2016

OS CAPITÃES DA AREIA DE JORGE AMADO
publicado em literatura por Clêuma Alves

"Neste momento de música eles sentiram-se donos da cidade. E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos eles sem carinho e sem conforto e agora tinham o carinho e conforto da música."
A arte tem um papel de destaque na construção de uma vida, se mostrando relevante e proporcionando ao mesmo tempo uma riqueza interior ao falante/ouvinte sendo capaz de engrandecer entre toda a prática de análise e entendimento dentro de uma determinada obra.
Nas mais distintas épocas percebe-se o crescimento dos centros urbanos, ou como podemos dizer a expansão do processo evolutivo. No entanto, esse crescimento desencadeia também, o aumento populacional e com estes surgem diversas problemáticas. Assim,em Capitães da Areia percebemos que uma parte da sociedade “desfruta” de uma residência confortável, trabalho, e certo conforto, outra parte, os Capitães moram de forma subumana.
 “Seria bem melhor dormida que pura areia, que as pontes dos demais trapiches onde por vezes a água subia tanto que ameaçava levá-los. E desde esta noite uma grande parte dos Capitães da Areia dormia no velho trapiche abandonado em companhia dos ratos e sob a lua amarela[...]" (AMADO, p.20).
Pode-se perceber a maneira como as crianças vivem a mercê da própria sorte, tendo que aprender a lidar com os perigos de uma sociedade nesse caso, Salvador “marginalizando-se” para garantir a própria sobrevivência.
 “Os marinheiros olham desconfiados para o menino. Mas o baixo cutucou o outro com o cotovelo e murmurou qualquer coisa ao ouvido. O gato riu para dentro porque sabia que ele estava dizendo que seria fácil arrancar o dinheiro daquela criança. Se abancaram os dois e o querido-de-Deus achou estranho que Pedro Bala se abancasse também. João Grande, no entanto, não só achou estranho como se abancou também. Ele sabia que era preciso tapear os marinheiros e então era necessário que agente do grupo perdesse também” [...] (AMADO, p. 44).
A obra vem com uma sequencia de reportagens, que são apresentadas aos leitores, com a visão da “sociedade”, da polícia e da “imprensa” e o modo como essas se comportavam diante dos pequenos abandonos na cidade de Salvador.
“No corredor da vitória, coração dos mais chiques bairros da cidade, se eleva a bela vivenda do comendador José Ferreira, dos mais abastados negociantes da praça, com loja... É um gosto ver o palacete... pois ontem esse remanso de paz e trabalho passou uma hora de indiscutível agitação e susto com a invasão que sofreu por parte dos “Capitães da Areia” (AMADO, p. 4).
Há uma formação de cada personagem e desmistificação de muitos outros, crianças que se transformaram precocemente em homens, mas guardam em si sua essência de criança. Como pode ser observado na descrição dos principais personagens da obra:

Pedro Bala: órfão de pai era o chefe, como um pai para os meninos, por sua garra, coragem e defesa ao grupo. Buscou suas “origens” e descobrindo-as desejou imensamente fazer uma greve, como seu pai e João de Adão, brigar com a polícia, morreu pelos direitos deles [...] (AMADO, p. 78).
Volta – Seca: O cangaceiro, sua mãe fora comadre de lampião. Quando este se embrenhou pelo sertão, era um garoto que tinha ódio das autoridades, seu desejo era tornar-se cangaceiro, integrar-se posteriormente ao grupo de lampião transformando em um frio e sanguinário assassino.
“Aconteceu que o grupo tinha pegada na estrada um velho sargento de polícia. E lampião entregara a Volta – Seca para que o despachasse. Volta – Seca o despachou devagarzinho, à ponta do punhal” [...] (AMADO, p. 241).

Dora: Única mulher do grupo era simples, dócil. Representara para os Capitães da Areia a figura protetora que lhes protegiam, dando “colo”, carinho e atenção. Já que para aqueles meninos o mundo era só uma luta pela sobrevivência:
“[...] Dona vivera com eles, fora mãe para todos. Mas, fora irmã também, correra com eles pelas ruas, invadira casas, batera carteiras... Depois para Pedro Bala fora noiva e esposa quando a febre a devorava, quando a morte já a rondava naquela noite de tanta paz” [...] (AMADO, p. 245).
Sem – Pernas: O carente era corço, um dos mais revoltados, sentia-se rejeitado, era ele quem se infiltrava nas mansões “fingindo” perdido, para depois passar os companheiros à melhor maneira de roubá-los. Percebemos assim que a obra enfoca o descaso de uma sociedade que reflete em seu “povo”, neste caso em específico nos moradores de ruas de Salvador que necessitavam não apenas de uma vida digna, mas de proteção: “[...] Prende em si a certeza de que está no carrossel, girando num cavalo como todos aqueles meninos, que tem pai, mãe, e uma casa e quem os beijem e quem os ame” [...] (AMADO, p. 62).
Professor: O intelectual seu nome era João José, mas era chamado como professor porque vivia lendo e contando histórias aos seus companheiros no Trapiche. Também gostava de desenhar, virou um grande artista que retratava as dores dos meninos abandonados. Um garoto que assim como os demais sofria, sentia-se obrigado a recorrer as mais variadas formas de furtos:
“[...] Professor, desde o dia em que furtara um livro de história numa estante de uma casa na Barra, se tornara perito nestes furtos nunca, porém vendia os livros que ia empilhando num canto do Trapiche, sob tijolos, para que os ratos não roessem. Leia-os todos numa ânsia que era quase febre, gostava de saber coisas, e era ele quem, muitas noites contava aos outros histórias [...] (AMADO, p. 24).
Podemos fazer um acompanhamento minucioso da obra de Jorge Amado e cujo retrato maior em Capitãess e voltado para os pequenos que vivem nos becos, areais de Salvador a margem da sociedade.

"A poesia não está nos versos, por vezes ela está no coração. E é tamanha. A ponto de não caber nas palavras." (Jorge Amado)


REFERÊNCIAS :
AMADO, Jorge: Capitães da Areia- 96 ed.- Rio de Janeiro: Record, 1999.
BAKHTIN,Mikhail.Estética da Criação Verbal.4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003



Fonte: obvious: http://obviousmag.org/entre_rabiscos_e_palavras/2016/os-capitaes-da-areia-de-jorge-amado.html#ixzz4Swh8sdk5


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