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O Tempo - R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 18/12/2016

O Tempo
R. Santana

Estava exausto depois de seis horas de viagem. Embora o ônibus fosse confortável para classe comercial, suas paradas obrigatórias para troca de passageiros me deixavam estressado. O meu filho ainda recomendou na saída de casa: - Pai, o Senhor deveria ter comprado passagem em ônibus Vip, o comercial pára toda hora! – Filho, estou sem pressa. Depois de tantos anos longe da terra grapiúna, quero relembrar cada fazenda e cada porteira por onde passar!...
“Quantos anos teria Clara?” Esta pergunta vinha me perseguindo a mente desde que sair de casa. Comecei puxar pelos meus dotes aritméticos... Eu estava com 52 anos, ela era uns dois ou três anos mais nova... então, ela teria uns 49 ou 50 anos... Não conseguia enxergar Clara com essa idade... Para mim, era a eterna e doce Clara dos folguedos de criança.
- Vamos brincar de esconder? todos responderam uníssono: - Vamos!... Era o que eu queria... Mais velho e mais safado, via naquela brincadeira a minha quase única oportunidade de beijar e sentir Clara nos meus braços, mesmo em fração de tempo... Mas que me importava o tempo? Se o meu tempo era medido pelo relógio do coração que pulsava no peito de Clara. Cada segundo sentindo seu peito arfar junto ao meu e a sua boca colada à minha, representava um tempo infinito.
Os nossos encontros nesses entretenimentos de criança, às escondidas, não permitiam que nos falássemos. Os nossos olhos e as nossas mãos traduziam os nossos sentimentos. Falar seria denunciar onde estávamos. Quantas vezes cingimos nossos corpos de tal maneira que esgueirávamos o oitão da barcaça e a molecada não nos encontrávamos, sempre nós que o descobríamos... e... levávamos aos demais nossas descobertas, impingindo ao desafortunado o pagamento de prenda!...
Bons tempos aqueles da fazenda Ouro Achado. Nela moravam e trabalhavam quatro famílias, inclusive, a minha. Os meus pais eram trabalhadores rurais. Éramos uma família de sete pessoas, o casal e cinco filhos. O Dr. Amaral Silva, grande agricultor, mantinha com os seus agregados as mais íntimas relações de amizade. Esporadicamente, quando ia à fazenda, passar as férias de sua garotada, divertia-se com os seus trabalhadores nas festas que fazia e nos jogos de futebol que promovia nos finais de semana em um campo de várzea que mandou fazer com o seus empregados e os empregados das fazendas vizinhas. Era um homem humano que sempre estava atento às necessidades dos seus camaradas. Quando aos finais da tarde se reunia à turma da fazenda, ninguém o tomava como patrão. Era um homem boníssimo! Todos nós, crianças e adultos o admirávamos. Sua mulher e filhos, embora educados e tratáveis, não dispensavam maiores intimidades...
O ônibus parou. Começou um entre sai de passageiros. Passei mais de três horas ao lado de uma jovem sem dar-lhe uma palavra. Ela desembarcou e não consigo lembrar nem a cor do seu cabelo... Descubro que estou sendo um péssimo cavalheiro, não exercitando princípios de educação tão elementares como os cumprimentos convencionais comum às pessoas civilizadas. Porém, não o fazia por mal, é que as lembranças da fazenda Ouro Achado, vinham com a força de redemoinho à minha cabeça. Eu não atinava para as circunstâncias, as circunstâncias que reparavam em mim. Ademais não queria ver outra mulher, Clara era o meu sonho e realidade, a minha obsessão e o desejo incontido de encontrá-la.
Os meus filhos tinham ido levar-me à Estação Rodoviária da capital baiana para o embarque das 10:30 h de um dia de sábado, mês de setembro do ano 2004. Depois de tanto tempo, não me lembro da data... Sei que tinha comprado uma passagem para o Sul do estado, tencionava pernoitar em Pau Brasil e de lá viajar mais uns 15 quilômetros de automóvel em estrada de chão. Eles acharam estranho tão longa viagem: - Pai, depois de longos anos e sem parente lá, o Senhor vai fazer o quê? Não quis lhes dizer os verdadeiros motivos (atrás duma namorada de infância), ainda mais, que não fazia um ano que tinha perdido a mãe deles. Ela tinha adoecido e morrido subitamente... Gaguejei: - Filhos, vou matar a saudade daquela terra e reencontrar alguns amigos de infância! Sei que não fui convincente, eu os conhecia, principalmente, a mais nova que era perspicaz e desconfiada. Mas, e daí? Todos eles estavam situados e encaminhados. O mais velho era médico e as duas mulheres funcionárias públicas federais além de bem casadas...
Recostei-me cômoda e prazerosamente na poltrona do ônibus, estirei as pernas e tentei cochilar, não consegui, perguntava a mim mesmo: “como estaria Clara? Será que continuaria viçosa e graciosa como a deixei?” Lembro-me que numa de nossas brincadeiras noturnas em que nos escondíamos dos demais meninos, ao enlaçá-la nos meus braços, tinha-a apertado contra o peito e sentindo o seu corpo tremer de emoção, roubei-lhe um beijo que depois de longos anos o seu sabor permanecia como se fora instantes antes...
Cheguei à noite em Pau Brasil, depois de fazer uma breve parada em Itabuna e um rápida baldeação de ônibus. Embora tivesse passado muitos anos sem retornar à minha cidade natal, Pau Brasil pouco tinha mudado, exceto o nome. Continuava uma cidadezinha pacata do interior, tendo como lazer algumas praças e bares, pontos obrigatórios de encontros e desencontros dos jovens apaixonados e de velhos conhecidos. A vida noturna estava restrita a um clube da cidade e umas duas casas de entretenimentos, que esporadicamente promoviam festas com artístas de fora ou os artistas da terra.
Depois de passar uma noite praticamente insone, ansioso para que aquela noite fosse a mais curta da minha existência, levantei-me assim que os galos do quintal da pensão começaram cacarejar e cantar avisando-me que o dia estava despontando. Fiz um lauto desjejum com farofa de cuscuz, inhame, batata-doce, carne-do-sol e ovos estrelados. Quando sair à rua as pessoas já estavam se movimentando para o trabalho.
- Amigo, tu conheces a fazenda Ouro Achado? – Sim! Respondeu o motorista do táxi estacionado à frente da pensão que eu tinha pernoitado. – Quanto queres para irmos até lá? – É uma estrada de chão. Além de ter chovido muito em nossa região... deve estar intransitável... vou lá por R$ 150,00. Ainda espero-lhe com o carro estacionado o resto do dia!... Não lhe fiz pechincha, entrei na pensão peguei a sacola e disse-lhe: - Vamos! E, seguimos estrada fora...
O taxista não me tinha ludibriado, a estrada estava péssima. Os sulcos e valetas provocados pelas chuvas deixaram-na intransitável e perigosa. O motorista dirigia com aptidão cirúrgica, parecia que conhecia cada metro daquele caminho-estrada. Às vezes, eu fechava os olhos na iminência de um perigo fatal. As ribanceiras excediam em mais de 15 ou 20 metros de altura. Se o carro despencasse embaixo, sobraria pouco de nós, mas, pouco e pouco fomos deixando para trás os perigos e chegamos à fazenda Ouro Achado com sol a pino!...
Desci do carro e fui abrir a cancela. Parecia a mesma cancela que tinha deixado anos atrás. Se não era a mesma cancela o cenário era o mesmo: os pés de jambo enfileirados, um pontilhão na chegada, o matagal ralo, a chácara ao fundo das casas, as barcaças, uma ladeirinha antes da sede e ao longo do caminho uma fileira de casas de trabalhadores. Acolá avistava-se ainda o campo de futebol limitado por suas traves. O orgulho dos empregados e do patrão da minha época. Todavia, a fazenda não tinha o mesmo esmero dos meus tempos. As casas pareciam estar com a pintura de anos atrás, algumas delas, o limo e a fuligem as tinham encardidos e os telhados tinham perdido a cor do barro queimado, tornando-os pretos e sujos.
- Oi de casa!... Tem gente aqui?... É de paz!!! Apareceu um moleque adolescente, com os cabelos desgrenhados, roupa mais suja do que rota, mal-encarado, carrancudo, que daria medo se tivesse um porte físico mais avantajado: - Qui deseja sinhô? – Estou procurando por uma moça... uma mulher chamada Clara... se ainda mora aqui? Ele ficou pensativo e depois de longo tempo perguntou: - Num é dona Clarinda, mãe di Zoião e vó di Chica di Zé? Não sabia respondê-lo. “A minha Clara já tinha neta casada?...” - Não! Ela se chama Clara e não Clarinda!... O rapaz ficou atoleimado, não atinava quem eu estava procurando, por fim falou:
- Num cunheço ninhuma Clara, sô cunheço D. Clarinda, fia de seu Manué das onças!... – Manoel das Onças?... Clara era filha do famigerado pistoleiro Manoel das Onças, caboclo afamado pela bravura e pelos crimes. Corria mundo caçando e pescando. O sustento da família provinha mais dessas atividades extras do que seu trabalho na roça. Diziam as más línguas que ainda não tinha sido despedido da fazenda porque o patrão tinha medo do seu clavinote. Era melhor ter ao seu lado do que longe de si.
O rapazola convenceu-me esperar mais um pouco. Os trabalhadores não tardavam chegar das roças de cacau. Era tempo de colheita, safra temporão e pouco restava. A maior parte daquela safra temporão já estava nos cochos e nas barcaças, por isso, eles voltariam mais cedo para sede.
Pedi autorização ao rapaz para adentrar e percorrer a chácara. Enquanto andava fui rememorando àquelas árvores, muitas delas, eu, meu pai e meus irmãos as tínhamos plantados. D. Lúcia, a sinhá Lúcia, como todos tratavam-na, tinha o maior xodó por aquele pedaço de terra que produzia tantas frutas exóticas e deliciosas. O apreço dela pelo meu pai provinha do zelo que tinha de manter e ampliar sua chácara com novas mudas frutíferas.
Fiquei sabendo que o Dr. Amaral Silva tinha falecido na capital da Bahia dois anos antes. Hoje, a fazenda pertencia a viúva e filhos. A sinhá Lúcia já estava velha e alquebrada e os filhos eram doutores. Raramente vinham à fazenda, eles não gostavam de mato. Se não fosse o apego da velha por suas terras, os seus filhos já as tinham torrado no cobre.
O tempo passava e os trabalhadores não voltavam. O relógio marcava 14:45h, começava preocupar-me com um retorno à tardinha, numa estrada sinuosa e mal cuidada. O motorista alertou-me para nova recomposição de preço e a impossibilidade de sairmos dali à noite. Procurei-lhe acalmar no preço do táxi e na viagem de volta. Garanti-lhe que seria uma temeridade viajar à noite naqueles cafundós. Ele também seria recompensado pelo tempo excedente. Prometi-lhe ainda que sairíamos dali cedo, então, iríamos pernoitar na fazenda e voltarmos para cidade pela manhã.
Não demorou um quarto de hora, os trabalhadores começaram chegar pouco e pouco. Vinham suados, dorso nu, facão pendurado na cintura, alguns com ferramentas e cachos de banana nas costas. Procurei com os olhos Clara mas não a encontrava. Avistei algumas mulheres novas e umas velhas com cabelos desgrenhados e soltos. A maioria de calça e bota de cano curto. Algumas mocinhas estavam de saias curtas e sandálias de borracha.
O coração começou bater aceleradamente. Ali não estava o homem maduro curtido pelo tempo e pelo trabalho. Ali estava o adolescente com a chama da vida que não tinha envelhecido. Não era um coração velho, era um coração que pulsava ansioso para encontrar a mulher dos meus sonhos. Se fosse um rei, trocaria meu reino por um cavalo para levá-la dali. Como não sou o rei Ricardo, teria que aguardar o destino tecer seus desígnios. Só tinha uma certeza: estava prestes vê-la. O magricela que me recebeu na chegada, levou-me até Clara.
Era a mesma casa que tanta peraltice tinha feito. Apenas, como tudo na vida, tinha envelhecido ao longo do tempo. Parecia-me que a casa tinha encolhido... Outrora, achava-a enorme, mas naquele momento, achava-a pequena e acanhada. As paredes sujas e encardidas de fumaça (fogão à lenha), dava-lhe um aspecto sombrio e repulsivo. O rapaz começou chamar a dona da casa:
- Sinhá Clarinda!... Ten um hômi porcurando por vosmicê!! Surgiu da cozinha uma senhora que se encaminhou para atender o chamamento do rapaz: - Qui é Bastião? – O hômi quer falar cum vosmicê! Ela olhou-me de cima abaixo, interrogando-me com os olhos, mal-encarada, com cara de pouca conversa: - Qui diseja? – Estou procurando por Clara, filha de Manoel das Onças e D. Josefa! Ela olhou-me fundo nos olhos como se estivesse procurando alguém lá dentro e disse: - Su eu. Qando piquena o pessoá mi chamava de Clara! Fiquei estupefato, não era possível que a minha Clara tivesse se transformado naquele trambolho. Por mais que tentasse dissimular, eu não consegui controlar a minha surpresa. Será que aquele diabo velho, gorda, cheia de rugas, cabelos brancos, desdentada, era Clara? Não podia ser... eu estava imaginando coisas... quando ela voltou falar: - Cumo si chama o sinhô? – Sou Marcos, filho do Sr. Antônio e D. Maria. Meu pai era o gerente do Dr, Amaral!... A velha de alegria quase que avança em mim, involuntariamente a afastei: “vai pra lá besta fera”, não podia acreditar que tinha viajado mais de 700 km para encontrar aquele espantalho de gente. – Vala mi Deus!... É Marcos di seu Tonho e D. Maria!... Num lembra de eu? Vosmicê dizia qui ia casar cumigo... Num lembra? Não me lembrava. Balbuciei um turbilhão de palavras. Saiu da minha boca pretextos para sair dali e agradecimentos pela breve acolhida, minutos infinitos... Já tinha matado a saudade de todos. Esperava vê-los noutra oportunidade e, fui embora...
No carro, permaneci calado toda estrada. O motorista ainda aventurou arrancar de mim algumas palavras: - Sr. Marcos parece que o passeio não lhe fez bem? – Sim e não! – Nunca ouvi esta resposta Sr. Marcos. Ou dizemos sim ou dizemos não para uma mesma coisa! – Quando você tiver a minha idade, vai descobrir que a vida é uma moeda de duas faces. Uma face da moeda tem a vida a outra face o tempo. A vida é a dádiva de Deus e o tempo é o senhor da razão e o flagelo da humanidade.




Gênero literário: Conto
Autor: Rilvan Batista de  Santana



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