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O Excêntrico - R. Santana

Postado por Rilvan Batista de Santana 24/12/2016

O Excêntrico
R. Santana

I
Ele tinha um pouco mais de 70 anos, não aparentava. Tinha herdado do pai a compleição e a cor do europeu germânico e da mãe, o temperamento caboclo da Região Norte. Calado e desconfiado, tinha construído ao longo desses setenta anos, uma fortuna em ações de empresas estatais e privadas brasileiras, títulos da dívida pública, títulos de prazo fixo, depósito em poupança, além de uma quantidade significativa de imóveis urbanos, José Amadeu Wolfong, conhecido por Amadeu, só não investia em propriedades rurais, tinha ojeriza à vida campestre, era um indivíduo de hábitos burguês. Depois de velho tinha se refugiado em pequenas cidades, levando uma vida simples e anônima. Soturno e arredio, seu Amadeu não despertava nenhuma atenção de homem rico. Se apresentava como um funcionário público de carreira aposentado.

II
Em maio de 1986, comprou no centro da cidade litorânea de Canavieiras, que fica às margens do rio Pardo, em frente para o mar no Sul da Bahia, uma modesta casa onde morava sem parente ou aderente, deixando os afazeres domésticos a cargo duma robusta negra de meia idade. Viúvo e sem filhos e perdido o vínculo dos seus parentes pela distância e pelo tempo, tinha feito dele um velho solitário, carente de afeto e cuidados, essa negra o estimava como um pai. Cuidando de suas roupas, dos seus chás, de sua comida e quando necessário, levava-o ao médico em raras vezes, face ele ter horror a remédios convencionais, médicos e hospitais, além dele ter uma saúde invejável para sua idade. Tinha aprendido com a mãe valorizar os remédios caseiros. Possuía receitas para todos os males. Guardava como relíquia um velho livro herdado de sua mãe, “As Plantas Curam”, que era um repositório de diagnósticos, profilaxias, terapias, indicações, uma verdadeira panacéia.
I
III
Não confiava em ninguém. Aprendera com o pai uma lição oriental que um judeu colocava seu filho sobre à mesa e pedia-lhe que pulasse, amparando-o antes de atingir o chão. A criança já repetia isso mecanicamente, numa atitude condicionada, até um dia que caiu estatelado. Seu pai lhe tinha negado propositadamente os braços e como lição: “filho, não confie em ninguém! Nem mesmo em seu pai...”, por isto, seus negócios eram dirigidos à distância por telefone fora do horário de expediente, quando a negra retornava para sua casa à noite. Um de seus apegos por ela, era que ela não sabia ler e escrever e tinha uma mentalidade curta, incapaz de articular e interpretar raciocínios complexos.
Quando mudava de uma cidade para outra (não demorava mais de dois ou três anos), uma de suas providências imediatas, era adquirir uma linha telefônica e uma caixa postal. O telefone era trancado à chave em seu quarto, empregada não era autorizada passar ou receber chamada telefônica e se por descuido o fizesse, não o faria de novo, era sumariamente despedida. Seu contador e administrador dos seus negócios, recebia orientação para não passar nenhuma informação aos seus empregados domésticos, além de um aviso de retorno.

IV
Otávio Macedo administrava os seus negócios há uns 20 anos. Poder-se-ia dizer que era seu amigo incondicional se não fosse as restrições que o velho Amadeu colocava nas relações comerciais e contratuais. Delegava para o seu contador procurações específicas, para comprar ou renegociar locações. Nunca delegava procurações para vender ou permutar um dos seus imóveis, quando urgia uma necessidade, ele comparecia pessoalmente, estivesse onde estivesse. Otávio teria que informá-lo através de planilhas padronizadas, as receitas mensais e os recibos de depósitos. No final do ano fiscal, fazia questão que a Receita Federal, fosse informada de cada centavo que tinha entrado em sua empresa imobiliária e, não menos cuidadoso com sua declaração de renda de pessoa física e os tributos municipais. Amadeu era um homem desconfiado mas extremamente direito. Não teria consistência nenhuma acusação maledicente de má fé que ele tivesse praticado às pessoas ou instituições. Tinha como filosofia: “ninguém engana o governo, porém, engana o irmão, diminuindo as ações solidárias do estado pela sonegação dos tributos. Se os governos não cumprem suas obrigações constitucionais, não quero ser cúmplice e partícipe desse pecado.”.
V
Estava em Canavieiras há dois anos. Chegou para descansar uns dias, gozar a beleza das praia da Costa, da Atalaia, tomar “banho” de lama na Ilha das Garças ou ver o pôr-do-sol da ponte Lloyd do rio Pardo, degustar a moqueca de caranguejo, o catado de siri, o caldo de lambreta e deliciar as vistas com os corpos esculturais das baianas do litoral e ficou. Embora velho, preservava ainda marcas simpáticas da juventude. Viúvo há anos, nunca entrava de cabeça em relacionamentos amorosos. Gostava de namorar... Era um pé na frente e dois atrás nos seus flertes. Quando seu relacionamento criava limo ou a parceira era viscosa, ele de fininho se mandava.
Depois de dois meses em Canavieiras, na pousada “Recanto da Paz”, acompanhado da negra Filomena de Jesus, a negra “Filó”, sua fiel escudeira desde a finada mulher e responsável pelos pratos apetitosos do patrão. Fiel como uma cachorra pé-dura, adivinhava os desejos mais recônditos do seu benfeitor. Findo esse tempo, ele comprou uma casa para si e outra para negra, pois fazia questão que ela tivesse também sua privacidade depois do expediente de trabalho.
Amadeu ficou conhecido meses depois pela maioria dos nativos da terra. Os seus vizinhos já conheciam os seus costumes do dia-a-dia. Pela manhã não saia de casa. Lia os principais jornais, assistia os noticiários da tevê, fazia seu breakfast. Antes do meio dia, tomava banho, almoçava e saia a circundar pela cidade e parava no jardim principal de árvores enormes e sombreiros. Procurava sentar-se no banco do jardim mais isolado, de preferência que não tivesse ninguém por perto, se aparecia algum desconhecido procurando prosear, era monossilábico no diálogo, cansando e aborrecendo seu interlocutor que percebendo sua má vontade de conversar, se afastava tão sorrateiramente como quando chegou. Às horas marianas, o velho Amadeu voltava para casa, trocava uns dois dedos de prosa com o vizinho e depois do jornal da tevê ia dormir.

VI

Embora os filósofos e sociólogos não acreditem em predestinação, em destino, sobrando para os espíritas a missão de explicar os carmas das vidas passadas e a reencarnação como um processo de aperfeiçoamento espiritual permanente, é como se explica o encontro e a empatia imediata entre o velho Amadeu e o moleque de doze anos, Fábio Sheldon Oliveira, tratado carinhosamente pelos demais por “Fabinho”.
Fabinho não aparentava que tinha doze anos. Loiro, tipo longilíneo, simpático, falante e de maneiras educadas, embora não descendesse de uma família rica e tradicional da cidade, herdara do pai, um professor inglês, que desembarcara em Canavieiras na década de setenta, fazendo turismo ecológico, conhecer a faixa litorânea e adentrar no que restou da mata Atlântica. Depois de dois anos perambulando, conheceu e casou-se com uma linda baiana do lugar e teve três filhos, Fabinho era o mais velho. Versado em vários idiomas estrangeiros, fixou-se no lugar como professor particular, completando seus rendimentos com um contrato na rede estadual e outro na rede municipal para ensinar inglês. Era um homem versátil, com formação universitária em seu país e bastante viajado.
Fabinho vinha da escola, descendo a rua Otávio Mangabeira e numa das transversais tropeça involuntariamente no velho Amadeu, derrubando todos os livros que trazia nas mãos. O velho vexa-se em prestar socorro, abaixando-se de imediato para recolher os livros e remediar a afobação e o constrangimento estampados nos gestos nervosos do jovem estudante.
- Desculpe-me, não tive a menor intenção desse incidente, fui olhar para um carro que vinha atrás de mim e deparei-me abruptamente com o senhor.
- Não se desculpe meu filho, percebi tudo, você não teve culpa, se alguém aqui tem que se desculpar sou eu, derrubei todos os seus livros... – Amadeu devolveu os livros do jovem estudante e apressou apresentar-se:
- José Amadeu Wolfong, todos me tratam por Amadeu, velho Amadeu às suas ordens, tudo em ordem com os seus livros? Não os sujou? – Recuperado do susto e pela espontaneidade do senhor Amadeu, Fabinho soltou-se e extrovertido que era, jovialmente apresentou-se:
- Fábio Sheldon Oliveira, Fabinho para os amigos e inimigos, ao seu dispor. Os livros não estão sujos nem amarrotados, embora tenha chovido esse dias, dei sorte que eles caíram no enxuto. – Feitas as apresentações, o velho Amadeu procurou saber para onde ia o impúbere jovem:
- Vou para casa, à rua São Francisco, nº. ... , venho da escola. – O velho Amadeu, arredio e desconfiado, abriu-se naturalmente para o garoto como se o conhecesse de longo tempo e propôs-lhe que fossem juntos, sendo que ele, primeiro, lhe deixaria em casa e retornaria para o centro da cidade onde ficava sua residência. Proposta aceita, saíram os dois papeando como velhos conhecidos e amigos.

V

Os laços de amizade entre o menino e o velho tomaram feições afetivas que pouco e pouco suas casas tornaram-se lugares comuns. O velho Amadeu passou ser o vô de Fabinho e membro honorário da família. Fabinho passava, agora, mais tempo na casa do vô do que em sua própria casa, para desespero e ciúmes da negra Filó, contido a tempo pelo velho Amadeu:
- Filó deixe de rabugice com o menino. Depois dele esta casa ficou mais alegre. Isto é bom para mim que estou velho e você que já está descambando a ladeira do cinqüenta. Além disso, Fabinho é educado e estudioso, ao invés de brincar, comum em sua idade, passa o tempo todo debruçado nessa mesa e nos livros. Eu, às vezes, insisto para que saiamos ver a cidade. – A negra Filó obtusa que era, demorou entender às novas circunstâncias, mas levada pelo instinto de sobrevivência funcional e pelo o afeto que tinha ao patrão, adequou-se rápida às novas condições.

VI
O senhor Amadeu remoçou. Seu comportamento calado, soturno e solitário, foi substituído por um comportamento mais efusivo e comunicativo. Com Fabinho e sua família, sentia-se como um peixe dentro d ´água: no seu verdadeiro habitat.
Todavia, sua condição econômica de homem rico era mantida e camuflada. Não havia desperdício dentro de casa e menos ainda ostentação. Continuava econômico na manutenção da casa, entre o fausto e o indispensável. Noutras palavras tinha tudo dentro das necessidades do dia-a-dia. Aos domingos e feriados quando não ia à casa dos pais de Fabinho, era costume recebê-los em casa para almoço e janta. Tinha virado rotina o regresso deles para casa, depois das novelas ou do noticiário televisivo. Mais comum era a estada de Fabinho na casa do vô, que ultimamente, tinha-lhe designado quarto permanente.

VII
No final do ano de 1989, desaba sobre a família de Fabinho uma tragédia. Canavieiras e Belmonte são separadas pelo rio Pardo. O trajeto entre as duas cidades é feito por barcos e balsas. É uma viagem breve, mas arriscada, principalmente pelas precárias condições de manutenção dessas embarcações. Por maior que seja a fiscalização da Marinha e das delegacias portuárias, um ou outro caso lhe escapa ao controle, além das naturais falhas e negligências humanas.
Numa festa religiosa católica de Nossa Senhora do Carmo, cidade de Belmonte, os pais e os irmãos de Fabinho foram à cidade vizinha participar dos festejos religiosos católicos. Fabinho ficou com o avô Amadeu por encontrar-se em estado febril, particularmente, tinha um medo premonitório dessa viagem, era obrigado pela autoridade dos pais fazê-la todos os anos a contragosto, nesse ano de 1989, a doença e os medos atávicos e o respaldo do vô, contribuíram para que ele ficasse.
No retorno, o rio ficou infestado de embarcações, a maioria com excesso de passageiros, na bruma da noite, o tempo fechado de relâmpagos e trovoadas, muita chuva, duas embarcações se chocam, arremessando ao rio umas duas centenas de passageiros.
Grande foram os esforços dos salva-vidas. Botes com gente treinada, deslizavam na água, procurando sobreviventes. O tumulto, o pavor e o desespero foram decisivos para morte de uns vinte náufragos. Dentre os não sobreviventes, o registro maior era de crianças e mulheres, no meio desses corpos, os da senhora Madalena Sheldon Oliveira e seus dois filhos mais novos, o marido, mister George Sheldon Jr., foi encontrado agarrado ao casco da embarcação, gritando pelos filhos e pela mulher.

VIII

Dois meses depois, mister Sheldon, após um período traumático, retoma suas atividades docentes. Não era mais o mesmo homem jovial e alegre. A perda da mulher e dos filhos o deixou com o coração amargurado. No trabalho, limitava-se ao cumprimento das suas obrigações profissionais sem o entusiasmo doutrora. Antes suas aulas eram recheadas de histórias e episódios do mundo. Grande parte dos seus 42 anos de vida, tinha sido cruzando terras e mares. Quando chegou à Canavieiras, não pensava passar mais de um ou dois meses. Sua estada ali estaria condicionada à ajuda financeira dos seus pais das terras bretãs, que em ocasiões difíceis, ele recorria. Filho de uma família de classe média alta, largou tudo para aventurar-se pelo mundo afora, sob o protesto dos pais e dos irmãos mais novos. Sua mãe rompeu com a fleuma do seu caráter inglês e quase tem um faniquito de tanto implorá-lo a ficar. Ele a consolava, garantindo-lhe que seria o tempo suficiente para completar sua educação, tinha como máxima: “a escola lhe abre os olhos e o mundo o faz enxergar”, e dava o exemplo do seu conterrâneo Charles Darwin que cruzou mares, rios e florestas para fundamentar sua Teoria da Evolução, sua família cedeu e foi-se...


IX

Quando a conheceu tinha menos de trinta anos de idade. Entrara na “Young Shoes”, para comprar um sapato social. Lá estava ela: morena, bonita, estatura mediana, corpo escultural, cor tostada de praia, Madalena. Foi pura emoção. Empatia, perturbação nervosa, perturbação estética, perturbação espiritual... e todas as emoções juntas em um infinitésimo tempo que o relógio não marca.
- George Sheldon! – Apresentou -se.
- Your name?
- My name is Madalena!

Daí em diante funcionou a linguagem do amor. Só o rio os separou depois. Foi tudo rápido. Se apresentaram, se conheceram, namoraram e casaram-se três meses depois. Mais uma vez, George pediu socorro aos pais e exigiu que eles pegassem um avião e rasgassem os céus ingleses e brasileiros com destino à Canavieiras e para surpresa dos nubentes, o velho Sheldon e Lady Anne chegaram a tempo para selar essa união.
No começo não foi fácil, mais difícil teria sido se seus pais não tivessem comprado uma casa pequena mais aconchegante para George antes de retornar para terra da rainha Elizabeth. Madalena continuou trabalhando na loja de calçados. Ele foi contratado para o serviço de manutenção das bombas de captação de água da cidade, pois era um exímio eletro-técnico e mecânico de motores hidráulicos, pelo governo municipal de Canavieiras. Embora a função fosse qualificada, o ordenado estava aquém dos salários dos grandes municípios.
Veio o primeiro filho. Mister. Sheldon ampliou os recursos de sua bolsa com contratos na área de educação como professor de inglês. Antes de viajar para terras brasileiras, tinha estudado espanhol e latim que lhes facilitou o domínio do português em pouco tempo, às vezes, tropeçava no uso da posição dos adjetivos e substantivos e na dicção proparoxítona de sua língua.
Jovens, estabilizados economicamente, com recém-nascido, eram felizes.

X
Pai e filho mudaram-se para casa do vô Amadeu. Fabinho já o tinha feito de fato. Seu pai,
devagarzinho foi se deixando ficar. Hoje, um convite para o almoço, amanhã, a janta, aquém para
dormir e foi ficando e ficou. Justiça se faça, Sheldon era um homem de pruridos morais, não era um oferecido, um inescrupuloso, porém, tinha uma dívida de gratidão com o velho Amadeu. Ele tinha lhe dado o ombro para chorar no seu infortúnio. Além disso, Fabinho tinha se apegado tanto ao avô adotivo que um arranhão nessa relação seria um enorme prejuízo emocional. Era uma simbiose de pensamento e afeto entre essas duas pessoas, de sangue e faixa-etária diferentes tão perfeita, que jamais alguém iria duvidar que não tivessem tido uma relação de parentesco em vidas passadas.
Antes que a negra Filó chegasse para o cuidado das atividades domésticas, o vô Amadeu levantava–se, às vezes, antes do sol nascer, para preparar o breakfast do neto e arrumar os seus livros conforme as aulas do dia. Quando Fabinho acordava sua refeição matinal já estava à mesa. Não menos recíprocos eram os cuidados com o avô. Acompanhava-o em todos os lugares, quando um era encontrado o outros estava por perto. Ele quase que não saía ou conversava com o pai. Justificava que seu avô merecia mais dedicação face à decrepitude de sua idade.

XI

George Sheldon foi chamado às pressas pela família, sua mãe estava bastante enferma e clamava por sua presença. A viagem foi imediata, por razões burocráticas – passaporte e autorização judicial – Fabinho não pode ir com o pai à Grã-Bretanha, além disso, não havia nenhum desejo explícito de vê-la, a conhecia de fotografia e falavam-se por telefone – o pai lhe tinha ensinado a língua inglesa – esporadicamente. O avô paterno já tinha vindo ao Brasil duas ou três vezes, depois dele ter nascido, mesmo assim, sua relação afetiva com o seu avô era tênue e superficial. Seus avós maternos já tinham falecidos. Sua mãe era filha única e antes dela morrer, soube da existência alguns parentes distantes por parte dos seus avós maternos, que socialmente e afetivamente, não tinham significado para si.
Seis meses depois, Mr. Sheldon escreveu para o filho e para vô Amadeu que com a morte de sua mãe, por ser o filho mais velho e por seu pai está numa idade decrépita, fora incumbido de cuidar dos negócios e interesses da família. Por isto, pedia ao filho que junto com seu amigo, providenciasse sua ida imediata para Inglaterra, junto com o pedido, todos os recursos financeiros e burocráticos necessários.
A separação foi dolorosa. Fabinho não queria deixar o vô Amadeu e o Brasil. Até a negra Filó quis resistir à idéia da separação, já tinha se afeiçoado ao jovem Fabinho. Porém, o vô que era um homem de bom senso, definiu:
- Meu filho, você tem que ir. Você ainda não atingiu a maioridade. Além disso, não é bom desobedecer aos pais.
- Mas vô, eu não quero sair perto de você e do meu país, não gosto da fleuma inglesa. Eles são desprovidos de alegria.
- Concordo com você. Todavia, ele é seu pai e reclama sua presença. Falta pouco tempo para sua maioridade, aproveite para melhorar o seu inglês e se não gostar de forma nenhuma e seu pai concordar, mandar-lhe-ei buscar.
- Vô, o senhor não tem o dinheiro pra isso. Uma passagem de avião de volta é cara e não sei se meu pai e meu avô querem ou podem comprar. Parece-me que um dos meus tios deu-lhes um prejuízo e eles não estão nadando em dinheiro...
- Não se preocupe quanto a isso, tenho uns amigos que posso recorrer. Ademais, uma passagem de avião de lá pra cá ou daqui pra lá, não é tão cara que um velho viúvo sem filhos e quase sem despesa não possa comprar. Tenho alguma parca economia. E, se tudo falhar ainda tem a minha amiga Filó (risos) que só faz ganhar, que posso recorrer. A burra dela está cheia (risos), qualquer dia vou assaltá-la!... – A negra que pouco falava ou ria, se desmanchou de solicitude:

- Num se preocupe meu senhorzinho, dinheiro não vai faltar – Pela primeira vez, Fabinho a abraçou e tentou colocá-la no colo, que pelo seu corpanzil e pelos gestos arredios da negra, não teve forças para completar o carinho.


XII

Menos de um ano depois, Fabinho estava de volta para o Brasil com o pai. Não se adaptando ao clima, ao povo e às comidas de lá. Além disso, não tinha uma semana que não ligasse para o vô Amadeu cobrando seu regresso. O velho preocupado com o pai dele e para não ser o responsável do seu retorno imediato, ia protelando tomar decisão, alegando falta de recursos para lhe trazer de volta.
Porém, não teve outro jeito, senão pai e filho voltarem. Fabinho não falava noutra coisa, aporrinhava o pai pedindo para voltar e com a morte do velho Sheldon seu avô, seu pai vendeu tudo que lhe cabia como herança aos irmãos, pegou o filho pelo braço e aterrissaram em Ilhéus, recebidos festivamente pelo Sr. José Amadeu Wolfong e Filomena de Jesus.

XIII
Pituba, rua Ceará, Edifício Amadeu Wolfong, nº.... , apartamento nº. 2501, Salvador, capital baiana, cinco anos depois, numa grande sala, espalhados por poltronas, sofás e cadeiras luxuosas, Fabinho, Mr. Sheldon e mulher (tinha contraído um novo casamento), a negra Filó, Otávio Macedo, seu filho mais velho e seu braço direito no escritório de contabilidade, dois jovens advogados que há mais de três anos vinham dando suporte jurídico ao Sr. Amadeu Wolfong e a Srta. Marilene Spinoza, secretária particular do Sr. Wolfong desde que ele deixara Canavieiras, todos ansiosos para que a carta-testamento que Sr. Amadeu Wolfong deixara fosse lida.
Com o retorno de Fabinho e o pai dele e a premente necessidade de estar mais perto dos seus negócios, Sr.Wolfong mudou-se definitivamente para Salvador e junto consigo, a negra Filó, Fabinho e o pai.
Fabinho estudioso não teve dificuldade de entrar em uma universidade pública e seu pai foi trabalhar em uma multinacional de distribuição de petróleo. O mistério Wolfong continuava, agora, todos sabiam que ele era um homem rico, mas não sabiam que era extremamente rico.
- Senhores (começou a Srta. Spinoza), antes de morrer, meu patrão confiou-me, esta carta para que fosse lida quando ele aqui não mais estivesse e em seguida se tomasse as providências necessárias para o cumprimento do seu último desejo. Por isto, peço-lhes atenção:

“Salvador, 10 dezembro de 1994.
Senhores:


Por desejo particular, deixo registrado no Cartório de Registro e Documentos da .......
Vara da Comarca desta capital, o Estatuto da Fundação Catarina Amadeu Santana. Este nome da fundação é uma homenagem àquela que me deu à luz e nos momentos mais adversos e trabalhou para que eu tivesse uma formação moral e intelectual embasadas em princípios solidários e cristãos.
Essa fundação será constituída por 90 % do meu patrimônio, num montante estimado em 800 milhões de reais.
A Fundação Catarina Amadeu Santana terá por função precípua, subsidiar financeiramente e materialmente o tratamento de pessoas com doenças crônicas e infecto-contagiosa, desprovidas de recursos.
Cinco por cento desse patrimônio será entregue ao meu neto adotivo, Sr. Fábio Sheldon Oliveira, com exceção de um apartamento na Pituba, à rua Minas Gerais, nº. ..., apartamento nº. 503, que será ocupado pela Sra. Filomena de Jesus, em regime de comodato que em morte, será transferido automaticamente para aludida fundação e mais um título de renda fixa que lhe dará condições de sobrevivência e estará vinculado às condições anteriores.
Enfim, designo o Sr. Otávio Macedo, meu amigo e administrador, como primeiro presidente da Fundação Catarina Amadeu Santana. Ele ficará com os 5% restantes do meu patrimônio e a incumbência de efetivar o meu desejo: que é levar um pouco de condição para os desprovidos de meios para enfrentar a dor e o sofrimento.”


José Amadeu Wolfong


Autor: Rilvan Batista de Santana




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