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EMIGRAÇÃO ITALIANA - Mateus Cosentino

Postado por Rilvan Batista de Santana 14/12/2016

EMIGRAÇÃO ITALIANA

Estou terminando de ler o precioso livro “Storia Dimenticata” de Deliso Villa, que recebi gentilmente do Ente Vicentini nel Mondo. Em primeiro lugar agradeço mais uma vez esse belo presente. Como pouco sei de italiano, minha leitura foi lenta, ajudada por dicionário e, por isso mesmo, profunda e ampliadora do meu conhecimento do idioma.

Aqui no Brasil, os italianos quase nada ensinam aos seus filhos e netos sobre a história milenar da Itália. Meus avós não o fizeram porque eles não sabiam nada sobre o país unificado na segunda metade do século XVIII e que eles deixaram para trás no final desse mesmo século. Por isso, o conhecimento da história italiana nesse período das grandes emigrações foi novo e muito rico para mim.

Assim como na Itália, onde ainda são mantidos fortes regionalismos formadores de uma herança de “paesi”, também nestes Brasis há diferenças regionais entre brasileiros, que geram alguns preconceitos naturais e cuja maior parte acaba se manifestando apenas através de brincadeiras. Mas essas diferenças culturais brasileiras acabam resultando até por  nos unir, orgulhosos da nossa riqueza de usos, costumes e nossa formação histórica. Mas na Itália ainda persistem profundas mágoas e antagonismos entre o norte e o sul da península.

Os italianos mais sofridos, pobres e sem instrução, que aqui chegaram sofreram essa discriminação jocosa dos brasileiros sofridos, pobres e sem instrução daqui. Na base das piadas estava o natural temor de serem substituídos em seus empregos por estrangeiros mais qualificados e que aceitavam trabalhar por menores salários.

Mas a grande capacidade de adaptação dos italianos superou todo preconceito e os tornou parte da cultura, da história e do progresso nos Estados deste país que os recebeu. Logo, os brasileiros passaram a ver os descendentes da península, como “bona gente”. Hoje os “oriundi” como eu se dizem descentes de “italianos”. Aqui foi feita a verdadeira unificação italiana, isto é, ninguém se diz calabrês, romano, piemontês ou vêneto. Para os brasileiros  “napolitana” é pizza e “calabresa” é lingüiça. No Estado de São Paulo, todo descendente de italiano é visto como brasileiro sem a menor discriminação.

Mansuetto Cosentino, meu saudoso pai, nascido no Brasil, era filho de italianos do “mezzogiorno”, o sul da Itália. Ele sempre demonstrou muito orgulho da nação de seus pais, mas considerava-se brasileiro e engajado na vida do país. Hoje seu nome consta entre os chamados “heróis de 32”, por haver sido soldado de São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932.

Meus avós maternos são, para mim, a síntese da unificação italiana. Ambos chegados crianças ao Brasil foram criados por seus pais nas fazendas, onde quase não viram escola. Meu avô assinava o nome e minha avó era completamente analfabeta. Meu avô, Leone Laitano nasceu em Vicenza e minha avó, Philomena Cozza em Cozença. Uniram-se no Brasil, juntando Vêneto à Calábria, norte e sul da Itália. E assim  geraram sete brasileiros, seis mulheres e um homem, sem falar de netos, bisnetos e tataranetos.

Por outro lado, apesar de um tio do meu pai – Giuseppe Cosentino - ter sido, representante consular da Itália, na cidade de Taquaritinga, no interior de São Paulo, não encontro na história da minha família nenhum contato do governo italiano conosco. Isso demonstra que os emigrantes foram abandonados em seus destinos, como consta no livro de Deliso Villa.

Aliás, Villa resume brilhantemente a esquecida história da emigração italiana: “Se em casa existe uma torneira que vaza e depois de dois ou três anos continua pingando, pode-se dizer que ninguém fez alguma coisa para consertá-la. Se depois de vinte ou trinta anos continua pingando, pode-se dizer que aquela água não matava a sede de ninguém. E então, tudo bem, pode continuar pingando. É trabalho inútil consertar a torneira, é melhor deixa-la continuar pingando. A torneira da emigração continuou vazando ininterruptamente, por cem longuíssimos anos. E através daquela torneira passaram 27 milhões de italianos. Quando finalmente a torneira parou de pingar, não foi porque os homens se tornaram mais sábios e a fecharam, foi simplesmente porque não havia mais água.”(Página 254)

Diz também o autor (página 253): “Os oriundi italianos são 60, talvez 70 milhões espalhados pelo mundo todo. Muitos deles estão descobrindo só agora, com um misto de curiosidade e de orgulho, sua antiga origem.”. É verdade, e conforme aumenta o meu conhecimento da história da emigração, a minha curiosidade vai sendo substituída pelo espanto e meu orgulho de “quella brava gente” só vai aumentando.

No final  do livro, Villa se pergunta por que a história da emigração não consta dos livros italianos oficiais? Estou convencido de que é porque os historiadores e dirigentes italianos querem fazer o povo esquecer aquela sofrida parte de sua história em que se tentou resolver os problemas econômicos, facilitando a saída do país de milhões de cidadãos.

Por outro lado os italianos de hoje se orgulham das conquistas dos célebres “oriundi” se destacando em todo o mundo. Entretanto nem imaginam e não dão a menor importância aos esforços, agruras e sofrimentos que os avós e pais desses ilustres e famosos foram obrigados a suportar no propósito de conquistar para seus filhos uma vida melhor.

Vejo que também no Brasil de hoje e dos últimos anos,  passamos a ter um grande fluxo de emigração em direção aos mais  diversos países. Não há estatísticas recentes confiáveis e então fica muito difícil estimar o número de brasileiros que vivem hoje no exterior. Fala-se em mais de 4 milhões. A imensa maioria desses nossos cidadãos está vivendo por sua própria conta e risco.  Fica, portanto no ar uma pergunta: A saga dessa emigração brasileira abandonada, também será uma história vergonhosa a ser oficialmente esquecida?

Mateus Cosentino - Sampa – 14/12/2016






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